quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Asimov e Tolkien, uma apreciação

Este mês de janeiro marca os 92 anos do nascimento de Isaac Asimov e os 120 de J.R.R. Tolkien (e os 41 de um certo escrivinhador brasileiro, obscuro demais para ser mencionado). O que pouca gente sabe é que, mesmo separados por um oceano e duas gerações, os dois autores travaram uma "disputa" histórica em 1966, quando foi concedido um Prêmio Hugo -- o mais importante prêmio mundial dado, por meio de voto popular, a obras de fantasia e/ou ficção científica -- de "melhor série de todos os tempos". Entre os finalistas, Fundação, de Asimov, e O Senhor dos Anéis, de Tolkien.

Para não fazer suspense: Fundação ganhou.  Seu queixo caiu? Pois é, o meu também, quando ouvi esse factoide histórico pela primeira vez. Mas é verdade. E não adianta botar a culpa nos nerds malditos de 1966, incapazes de distinguir os méritos literários de um manual de engenharia dos das obras de Shakespeare. Naquele mesmo ano, a new wave da ficção científica -- um movimento dedicado a, exatamente, levar sofisticação literária e modernidade ao gênero -- era lançada, algo que fica patente, até mesmo, na lista dos demais vencedores do Hugo. Um livro do Roger Zelazny empatou com Duna como melhor romance, pelamordezeus!

Há várias explicações sobre o resultado dessa votação (rivalidade entre americanos e britânicos, relativo desprestígio da fantasia entre os eleitores da época, etc.), mas aqui vou me dedicar a uma hipótese mais simples: a de que Fundação é, mesmo, uma saga substancialmente superior.

Há uns 20 anos eu talvez não pensasse assim: estava meio que vendido para as qualidades de O Senhor dos Anéis -- o escopo amplo, que vai da comédia à tragédia, do terror à aventura; o meticuloso worldbuilding; a sinceridade da infusão, na história da Terra Média, do pathos cristão de pecado original, queda e redenção -- e para os problemas de Fundação -- o caráter episódico e repetitivo; a linguagem pulp-"rasteira"; os anacronismos (sociedades milhões de anos no futuro dotadas de família nuclear, com líderes políticos de charuto no canto da boca, como se fossem vilões de desenho do Pica-Pau).

Duas décadas mais tarde, no entanto, embora as qualidades de O Senhor não tenham diminuído aos meus olhos (posso até desgostar do pathos cristão, mas isso não me impede de reconhecer a arte e o talento que entraram em sua produção), os defeitos de Fundação foram ficando cada vez menores, e comecei a ver, na saga asimoviana, qualidades que não tinha detectado antes.

Parte disso se deve, sem dúvida, a meu trabalho na preparação no texto em português da mais recente tradução da saga no Brasil, da Editora Aleph: minha função era receber o material produzido pelos tradutores e dar uma "penteada" no texto, cotejando-o, ao mesmo tempo, com  original. Isso me obrigou a ler toda a saga umas quatro vezes, duas em inglês e duas em português, em um intervalo de três ou quatro meses.

A primeira coisa que aconteceu com minha avaliação da obra, nessa fase de intensa releitura, foi a transformação de um dos "defeitos" -- o caráter episódico e repetitivo -- em qualidade. Quem já leu Fundação, principalmente o primeiro livro da série, formado por uma reunião de contos, sabe que há um padrão que se repete nos episódios, com problemas surgindo e sendo solucionados basicamente da mesma forma em cada um.

Mas, e aí está o pulo do gato, não exatamente. O momento em que Asimov nos acostuma a esperar uma saída clichê -- como na velha série do Batman, em que havia uma solução para tudo no cinto de utilidades -- é, também, o momento em que ele nos puxa o tapete. A repetição não é exata. A solução não é mais bem aquela. Há uma ironia aí que, me parece, está anos-luz além da capacidade de Tolkien (mais sobre isso adiante).

Segundo, a linguagem. Sim, Asimov é um utilitário das palavras, que em suas obras estão na página para que avancemos na história e não para que as admiremos. Sei que o mero utilitarismo linguístico desagrada a muita gente, mas é importante notar que Asimov é um utilitário talentoso: quando a linguagem precisa ser especialmente expressiva (como quando se descrevem os êxtases provocados pelo Mulo), ela cumpre esse papel com galhardia.

Terceiro, os anacronismos. Famílias formadas por papai provedor/mamãe submissa/filhinho feliz. Chefões de charuto no canto da boca. Supercomputadores que imprimem respostas em vez de apresentá-las na tela (ou vocalizá-las, ou inseri-las diretamente no cérebro...). Asimov suavizou esses aspectos nos livros da saga escritos a partir dos anos 80, mas, nos volumes originais, eles continuam. O fato, no entanto, é que me incomodam cada vez menos. O autor é um homem de sua época e, ora bolas, em milhões de anos tudo pode acontecer, inclusive um retorno do tabagismo chique e dos print-outs!

Mas eu falei de ironia, e creio que esse é o diferencial definitivo, que põe Fundação vários degraus acima de O Senhor dos Anéis. Nessa saga (assim como, aliás, na dos robôs) Asimov dá as "regras do jogo", mostra-as funcionando e, quando o leitor começa a achar que elas são mesmo invioláveis, passa a subvertê-las. Em Fundação, o leitor nunca sabe se o fato de um ou mais personagens aparentemente violarem os ditames da psico-história representa de fato uma violação, e, em caso afirmativo, se os resultados serão bons ou maus. Já em O Senhor dos Anéis, todo mundo sabe que desobedecer Gandalf ou dar ouvidos aos sussurros do Um Anel é senha pra merda na próxima página (ou nas próximas centenas de páginas).

E é isso que faz toda a diferença.

7 comentários:

  1. Parabéns pelo texto! Concordo em gênero, número e grau! Fundação rules!!!
    ;-)

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  2. Excelente. Tolkien criou um mundo com seres novos e com personalidades inéditas, enquanto Asimov criou uma galáxia povoada com humanos que precisam sobreviver com as mesmas restrições que nós, como o fato de nunca existir um deus ex machina.

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  3. Boa análise, mas tentar ranquear Tolkien e Asimov numa mesma escala é como escolher qual a melhor refeição do dia, se é o jantar ou o café da manhã. Como disse a Ursula Le Guin uma vez, a ficção científica é a linguagem do dia, e a fantasia é a da noite.

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  4. Oi, Igor! Concordo em parte, mas aí vem a pergunta definitiva: se você só pudesse salvar uma das duas sagas de um incêndio na última biblioteca do mundo, qual você carregaria para a segurança?

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  5. O caráter episódico e repetitivo me fez desistir de Fundação quando eu tinha uns 15 anos. Achei que a história ia ficas só naquilo. Mas há uns 5 anos eu encarei.Li a obra todinha, enão me arrependi

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