Quem, afinal, cria tecnologia no Brasil?

Semana passada, passei praticamente uma manhã inteira conversando com o professor Ennio Peres da Silva, responsável pelo Laboratório de Hidrogênio (ou "LH2", como também é conhecido) da Unicamp. Criado durante o choque do petróleo da década de 70, o laboratório nasceu como parte do esforço realizado pelo Brasil, na época, para se libertar da dependência do óleo importado.

O raciocínio, explicou-me o professor, era o seguinte: o Brasil da época tinha escassez de petróleo, mas eletricidade abundante. Haveria, então, como transformar a eletricidade em combustível? Uma opção seria usar energia elétrica para separar o hidrogênio da água e, então, usá-lo para mover veículos. Os carros elétricos Vega, movidos a célula de combustível  de hidrogênio, são uma das criações do LH2.


Não seria difícil olhar para o LH2 como uma espécie de relíquia dos anos de nacionalismo e estatismo megalomaníacos da ditadura, e aos carros Vega como uma espécie de elefante branco, mas o laboratório não se limitou a construir o carro elétrico.

Pesquisas sobre o uso de fontes renováveis (como energia solar) para a produção de hidrogênio estão fazendo do LH2 um parceiro cortejado por grandes empresas do setor elétrico. Principalmente com o crescimento das fontes renováveis intermitentes -- o vento e o Sol, por exemplo, que afinal de contas não têm intensidade uniforme, e periodicamente somem -- a geração de hidrogênio aparece como uma opção para estabilizar o fluxo: o gás pode ser extraído da água com a energia que sobra nos horários de pico de produção, e depois queimado para devolver a potência, nos horários de pico de consumo.

A despeito desse novo papel no cenário energético brasileiro, o LH2 representa uma espécie de "anomalia ideológica" na cultura atual da universidade pública e da visão corrente sobre inovação tecnológica, a ponto de o professor Ennio não ver muitas chances de o laboratório sobreviver a sua aposentadoria, que se aproxima (ele trabalha no LH2 desde 1978).



Essa visão predominante é que o que o laboratório faz deveria, na verdade, estar sendo feito na iniciativa privada: a função da universidade pública seria gerar o conhecimento bruto, talvez até algumas patentes, mas o desenvolvimento final do produto -- o carro elétrico, o sistema de porcas e parafusos para transformar energia solar em hidrogênio -- seria serviço de empresas. Grandes corporações ou mesmo as chamadas empresas spin-off ou startup, que poderiam até, eventualmente, ser fundadas por acadêmicos, mas que estariam institucionalmente fora da universidade.

Ennio concorda que essa estrutura hipotética faz sentido -- "seria ótimo se a universidade pudesse só dar aula", disse-me -- mas considera a proposta utópica para a realidade brasileira. "As empresas brasileiras mal conseguem pagar os funcionários, vão pagar pesquisadores?" Para ele, o desenvolvimento tecnológico é uma demanda social que, dado o status quo brasileiro, cabe à universidade pública atender.

"Sabe por que a universidade é capaz de fazer pesquisa?", provocou. "Porque quem faz o grosso da pesquisa é mão-de-obra grátis. É estudante de pós-graduação, que nem é a universidade que paga, é a Capes".

Confesso que essa última declaração me deixou meio desconcertado mas, pensando melhor depois, não consegui ver bem onde acabava a descrição fiel da realidade e começava a hipérbole. De fato, fiquei desconfiado de que não havia hipérbole. Mas será isso mesmo? O destino econômico do país está pendurado no entusiasmo de jovens bolsistas mal pagos pelo governo federal?

Comentários

  1. Bem vindo ao mundo real. E esse "problema" não é só brasileiro não. Academia é mão de obra de graça pra muita gente.

    Quem paga a conta? A instituição que concede a bolsa e o aluno que não ganha nem metade do que ganharia no mercado.

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  2. Faço doutorado em estatística numa universidade dos EUA. Devido à minha bolsa ser paga pela Capes, após obter meu título, devo voltar ao Brasil para justificar, fazendo pesquisa em solo brasileiro, o dinheiro investido em mim.

    Pois bem. Enquanto aqui vejo diversos dos meus ex-colegas trabalhando em empresas de finanças, consultoria, biotecnologia e no ramo financeiro, no Brasil o mercado para profissionais com a minha formação é bem mais restrito. Não vejo onde eu poderia aplicar, no Brasil, o know-how adquirido por mim aqui sem ser numa universidade pública.

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  3. Microempresário5 de junho de 2012 13:55

    Minha visão pessoal: a pesquisa no Brasil teria um futuro melhor se:
    - Não fosse tão disseminada nas universidades públicas a visão ideológica que acha que "lucro" e "mercado" são palavrões, e de que pesquisa boa é a pesquisa teórica, o mais afastada possível do mundo real, e portanto não poluída pelo detestável capitalismo.
    - Houvesse um mecanismo simples e desburocratizado para que empresas privadas patrocinassem pesquisas dentro das universidades em um regime de parceria.

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  4. Carlos, você deve estar certo mesmo, veja esta noticia (não é muito recente não):
    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bolsistas-de-pos-terao-reajuste-de-10-,868889,0.htm
    Praticamente pagam-se 2 sálarios mínimos para um mestrando e 3 salários mínimos para um doutorando.... Onde o Brasil quer chegar com isso? Não dá para competir com as nações desenvolvidas, até os países em desenvolvimento investem pesado em educação (desde a básica até o pós-doutorado).
    Difícil a nossa realidade.

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