Book Porn

Os leitores do blog sabem que estive de férias -- passei a última quinzena em Londres, em um abençoado autoexílio que me manteve no eixo Baker Street-Museu Britânico-Museum Tavern-Charing Cross, do qual saí apenas esporadicamente, para tomar um drinque no Criterion Bar (o mesmíssimo onde John H. Watson foi informado de que um certo Sherlock Holmes procurava alguém com quem rachar o aluguel) ou visitar a Biblioteca Britânica, que é mais ou menos o que a nossa Biblioteca Nacional deveria ser se o governo (e, venhamos e convenhamos, a sociedade) levasse esse negócio de preservação e disseminação da cultura a sério.

Sei que há muita coisa ocorrida nesse intervalo a comentar, do primeiro turno das eleições municipais à descoberta de um planeta em Alfa Centauri, passando pela decisão do governo britânico -- que não sei\se repercutiu aqui -- de exigir que os médicos renovem suas licenças para clinicar a cada cinco anos, mais ou menos como se fossem licenças para dirigir. Mas, bolas, dane-se tudo isso (ao menos por enquanto). Agora vou escrever é sobre os livros que comprei. Com fotos.

Dada a inelasticidade das paredes de meu apartamento (e de minha conta bancária, como não) cheguei a um ponto em que não só abracei de vez a onda dos ebooks, como ainda me vejo obrigado a perguntar-me, diante de cada título que me interessa, "Cara, na boa, quando você pretende ler isso?". Se for incapaz de dar uma resposta clara à questão,a tendência é resistir à tentação. Ou, ao menos, tentar.

Mas Londres não é um lugar onde seja possível resistir muito à bibliofilia mais desbragada. Por exemplo, na Biblioteca Britânica encontrei este título:


Que é um fac-símile (e u disse fac-símile) do diário mantido por Conan Doyle durante o período em que foi médico de bordo de um navio baleeiro. Abaixo, uma imagem do miolo:


Repare nos desenhos: Arthur Conan Doyle era filho e neto de ilustradores, e tinha uma mão muito boa. Além do fac-símile do caderno original, o livro, que é uma edição patrocinada pela própria biblioteca, traz a transcrição do texto em letra de forma, para uma leitura mais confortável, com anotações no rodapé:


A livraria da biblioteca também tem uma seleção de títulos da Folio Society, grupo que produz edições de luxo, ricamente encadernadas e ilustradas. Depois de quase amputar a mão direita em penitência comprei algo chamado Crime Stories from the Strand, antologia de contos policiais publicados pelo Strand Magazine -- a revista onde saíram originalmente as aventuras curtas de Sherlock Holmes -- entre o fim do século 19 e a década de 40. O livro começa com Conan Doyle e termina com Agatha Christie, e seu conteúdo já valeria o preço, mas veja o detalhe da capa -- e da contracapa, que formam um conjunto absolutamente genial:




Entrando agora na seção autógrafos, enquanto estive em Londres Roger Moore e Garth Ennis realizaram tardes de assinatura de livros, e estive em ambas.


Sir Roger autografou na Harrod's, o templo máximo do consumo brega de alto luxo. Não fez dedicatórias personalizadas e só assinou os 200 primeiros exemplares vendidos (se um dia eu tiver um livro que venda mais de 200 exemplares na primeira noite, juro que assino todos!). O volume acima foi o de número 144 a sair do caixa da loja. Já Ennis autografou na livraria geek Forbidden Planet, foi bem acessível, assinando até mesmo HQs outras que não o encadernado de Crossed que era o alvo do lançamento e até pediu que eu soletrasse meu nome, veja você:



Ah, sim, o ilustrador, Jacen Burrows, também estava lá.

Estes, claro, não foram os únicos títulos que trouxe de lá. Dos demais, destaco o romance histórico Flashman, de Georghe M. Fraser, primeira parte uma série deseis volumes com a "autobiografia" de Henry Flashman, oficial britânico que teria tido a honra de participar de todos os grandes fiascos militares da era pós-napoleônica, incluindo a Carga da Brigada Ligeira e o massacre das tropas de Custer nos EUA. Uma mistura de sátira e história militar, o livro é uma pândega: Flashman sempre tem o comportamento mais abjeto e desonroso possível, mas como geralmente é o único sobrevivente, acaba sendo tratado como herói.

E também recomando Bad Pharma, reportagem-denúncia do colunista do Guardian Ben Goldacre a respeito da indústria farmacêutica. Goldacre havia detonado a homeopatia e similares em um livro anterior, Bad Science, e agora ele pega o "outro lado" do complexo industrial da saúde.

Bom, semana que vem volto a escrever sobre coisas de interesse do blog. Hoje foi só para me gabar, mesmo, que ninguém é de ferro. Até!

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