Cientistas culpados por mortes em terremoto?

A Justiça italiana decidiu, em primeira instância, condenar seis cientistas e um funcionário público a seis anos de cadeia por homicídio culposo, por supostamente terem dado à população da cidade de L'Aquila informações "incompletas, contraditórias e inexatas" às vésperas do terremoto de 2009 que matou 308 pessoas e reduziu as construções do local a escombros.



De acordo com esta reportagem do jornal The Guardian, os cientistas condenados faziam parte de uma comissão, reunida seis dias antes do terremoto, para opinar a respeito de uma série de pequenos tremores que vinham atingindo a área.



Na opinião de moradores da região entrevistados pelo Guardian, os pesquisadores, especialistas em sismologia e vulcanologia, teriam concordado em fazer parte de uma farsa armada pela Defesa Civil da cidade, emitindo declarações tranquilizadoras, sem embasamento, apenas para acalmar a população – que, desprevenida, foi pega de surpresa pelo grande tremor que se seguiu.



Existem algumas questões imbricadas aí e que deveriam, idealmente, ser tratadas de modo separado. A primeira, que é a que vem recebendo mais atenção da mídia, é a de que é impossível prever terremotos, e a intensidade de terremotos, no curto prazo.



Você pode, por exemplo, calcular a probabilidade de um terremoto atingir determinada área num intervalo longo de tempo (são altas as chances de haver um tremor no Chile nos próximos 100 anos), ou criar sistemas de alerta para avisar populações de que um grande terremoto já começou em algum outro lugar e está a caminho, mas prever quando um grande terremoto vai acontecer, onde e com que magnitude é, ao menos por enquanto, cientificamente impossível.



Nos anos 70, os chineses acreditaram ter encontrado um método de previsão de tremores baseado em choques prévios – como os pequenos terremotos em L’Aquila que precederam o impacto principal – , apenas para serem pegos de calças curtas pelo sismo de Tangshan, que matou mais de 200.000 pessoas em 1976. Como diz artigo publicado no site de um especial da PBS americana sobre geologia, terremotos têm, sim, sinais precursores, “mas eles só se revelam claramente em retrospecto”.



Daí, dá para dizer que, se os cientistas italianos foram condenados por não prever o terremoto, trata-se de uma asneira inominável. Ninguém pode ser condenado por não fazer o impossível. Essa decisão judicial é mais uma para entrar no folclore do Judiciário italiano, ao lado da magnífica sentença que diz que o fato de uma mulher violentada usar jeans apertados descaracteriza o crime de estupro.



Porém, e aqui surge a segunda questão, pode-se argumentar que a causa da condenação não foi exatamente essa. A decisão completa do juiz só deve ser publicada dentro de 90 dias, mas o verdadeiro peso moral do caso parece estar na impressão, disseminada na população local, de que os cientistas concordaram, irresponsavelmente, em usar sua autoridade para dizer às pessoas que estava tudo bem. Eles teriam, em resumo, aceitado tomar parte em uma farsa que acabou custando vidas. Seria algo como um cenário de filme B, em que um biólogo é corrompido pelo prefeito de uma estância turística para dizer que os tubarões que rondam a praia são mansinhos.



Essa interpretação se sustenta? Bem, reafirmando: é impossível prever terremotos. Para poder acusar os cientistas de cúmplices numa farsa, no entanto, seria preciso estabelecer que (1) eles sabiam que o terremoto estava a caminho e (2) que deliberadamente esconderam a informação. Como (1) é impraticável, a tese desmorona.



A última questão é a de que por que culpar os cientistas e não o Diabo, Deus, o código de construção civil ou os pecadores da cidade. Se um profeta tivesse dito que a cidade estava segura, e o terremoto ocorresse, ele poderia pôr a culpa na falta de fé dos munícipes. Cientistas não têm essa saída.



Note-se, no entanto, que a acusação não diz que eles prometeram segurança, mas apenas que foram “incompletos, contraditórios e inexatos”. Que é exatamente como a ciência muitas vezes é, principalmente nas questões limítrofes do conhecimento.

Comentários

  1. olha você ae como outros "especialistas" tipo um paranormal curandeiro haha mas valeu pelos te deram uns segundos http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=wYoKS0l81BU#t=424s

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    1. Oi, Logan! Pois é, entrei de "token skeptic", o cético que aparece só de leve pra fingir que há contraponto. Mas o ateu mexicano mandou bem, também -- melhor que eu, que sou muito travado no vídeo...

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  2. Há uma interpretação possível mais caridosa para com as autoridades italianas:
    1) É impossível prever terremotos com precisão;
    2) Logo também é impossível dizer com certeza que não há riscos de terremotos;
    3) Os cientistas teriam, violando 2, minimizado os riscos.

    Claro, não concordaria mesmo que as bases fossem essas, mas isso é menos obviamente ridículo do que seria se os prendessem por não prever o tremor.

    []s,

    Roberto Takata

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  3. Acredito que a segunda questão apresentada é a que de fato levou os juízes italianos a condenarem os cientistas: por fazer parte de uma farsa, e não pela previsão errada.

    Realmente seria um absurdo se fosse diferente

    Almir Ferreira
    Rama na Vimana

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  4. Caríssimo, concordo com toda a essência do teu texto, como sempre ocorre. Apenas uma correção, se me permite, quanto à "magnífica sentença que diz que o fato de uma mulher violentada usar jeans apertados descaracteriza o crime de estupro."
    O caso foi que de a vítima acusava o réu de ter arrancado suas calças jeans apertadas a força, e o veredicto foi de que é impossível realizar tal ato. A vítima citava que o réu portava uma arma branca, mas esta jamais foi encontrada.

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