As profecias de IstoÉ para 2012, um ano depois

Tenho diante de mim, devidamente preservada entre dois volumes de capa mole de Showcase Presents: House of Mystery, a edição de 4 de janeiro do ano passado da revista IstoÉ, onde a concorrente de vocação mística de Veja trazia, para gáudio e edificação de seus leitores, suas profecias para 2012. A mais importante de todas, claro, e que mereceu a capa da publicação, era a do fim do mundo.

Para ser justo, é preciso notar a reportagem de capa da revista do ano passado era o que se costuma chamar, no jargão jornalístico, de "de comportamento": o texto não endossa a ideia de que o mundo iria terminar em 21 de dezembro próximo passado, mas apenas descreve o modo de vida e as ideias de quem pensava assim, além de abrir algum espaço para a ciência, a ponto de um pesquisador do Observatório Nacional ser chamado a desmontar umas bobagens sobre "influências planetárias".

Mas o mais interessante -- ao menos para uma leitura feita agora, após os fatos -- são as opiniões de quatro místicos sobre o que aconteceria no ano que se iniciava. Ornamentando o pé das páginas 50 e 51 da revista, um simbologista (?), uma taróloga, uma astróloga e uma especialista em runas (runóloga?) brindavam o leitor que havia desembolsado R$ 9,90 pelo exemplar de IstoÉ com suas previsões para 2012.

A esmagadora maioria das previsões é do tipo "cara eu ganho, coroa você perde". Como esta pérola, da moça das runas: "O panorama econômico mundial deve passar por um ajuste que poderá parecer uma crise mundial mas que, se dirigido e solucionado com inteligência, beneficiará muito mais os povos menos favorecidos". Em outras palavras: pode pifar ou funcionar, mas se pifar e consertarem direto, vai funcionar. O que vale para a economia mundial e, coincidentemente, para a minha geladeira, também.

No entanto, em alguns momentos os místicos consultados acabaram se arriscando a prever fatos concretos. O simbólogo e a taróloga foram os que mais se entusiasmaram. Vamos às profecias:

1. Casos de naufrágio se tornarão mais frequentes que acidentes aéreos.

Na verdade, naufrágios sempre foram mais frequentes que acidentes aéreos, embora estes últimos costumem ser mais noticiados. Há muito mais barcos que aviões no mundo, afinal.

2. Haverá um número muito superior de nascimentos, mesmo em países considerados com baixo índice de natalidade.

Não é o que dizem os dados. A tabela abaixo, do Index Mundi, mostra a taxa de natalidade mundial por 1.000 habitantes:, que permaneceu virtualmente inalterada -- em baixa histórica -- de 2011 para 2012:


3. No Brasil, o setor industrial será fortemente afetado, levando a muitas falências.

O número de pedidos de falência aumentou de 11%  a 15% em 2012, na comparação com 2011. Mas essas são as falências gerais, de todo tipo de empresa. Embora a indústria tenha registrado a maior parte dos casos (36%), a distribuição entre os setores da economia ficou mais ou menos igual, com 33% nos serviços e 30% no comércio.

5. Um filme brasileiro será ovacionado no estrangeiro, inaugurando um novo estilo e movimento artístico, que marcará a década.

Jura?

6. Acontecerão terremotos no Oriente e na América do Sul.

Pondo de lado o fato de que esse é o tipo de profecia que tem mais ou menos a mesma chance estatística de se realizar -- perto de 100% -- que a famosa "morrerá um membro da Academia Brasileira de Letras", é interessante notar que o segundo terremoto mais letal de 2012, com 139 mortos e magnitude 7,4, atingiu exatamente uma região não citada na profecia, a América Central e do Norte: os países afetados foram México e Guatemala. O México, que fica na América do Norte, sofreu dois fortes terremotos, um em novembro e um em março. É de se imaginar que, com os maias por ali e tudo, alguém teria previsto isso. Já pela América do Sul, apenas o Chile teve um terremoto significativo (na lista dos 20 mais fortes do ano). A Europa, também não citada na profecia, teve um temor importante, que matou mais de 20 pessoas na Itália.

No balanço geral, a única profecia que se pode considerar moderadamente bem sucedida é a do aumento de falências, mas mesmo ela depende de uma descontextualização caridosa para funcionar -- o contexto original pressupunha uma forte crise industrial, o que certamente não ocorreu.

Mas as previsões revelam bem a técnica que têm por trás: uma mistura básica de senso comum, ainda que equivocado (como no caso dos naufrágios), conhecimentos gerais (por exemplo, sobre onde ficam as principais falhas geológicas), um pouco de audácia (no caso do filme brasileiro e da queda da natalidade) e, acima de tudo, a certeza de que, um ano mais tarde, poucos serão os pentelhos que se darão ao trabalho de conferir o que foi dito.

Comentários

  1. Maravilha, Carlos! Ainda bem que temos pentelhos assim.

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  2. Em matéria de previsões, Pai Gois de Oxalá é imbatível. Pode guardar este comentário para conferir em janeiro de 2014. Vai tudo se confirmar, tenho certeza!!!!

    http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2013/01/01/pai-gois-de-oxala-as-previsoes-para-2013-480700.asp

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  3. Olha... até que esse chute número 5 não foi tão ruim assim. Hehehe.
    http://cinema.uol.com.br/ultnot/2012/12/14/filme-brasileiro-o-som-ao-redor-entra-na-lista-de-melhores-do-ano-do-new-york-times.jhtm

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