A "recuperação" do gelo do Ártico

Assim como todo mundo, meu pai tem alguns hábitos ruins -- entre eles, fumar cachimbo e assistir a telejornais da TV aberta: Jornal da Band e Jornal Nacional, religiosamente, toda noite. Eu às vezes o acompanho nesses programas, meio que por interesse antropológico, e já faz um tempo que venho notando que o telejornal da antiga Rede Bandeirantes de Televisão (que por alguma razão, talvez numerológica, resolveu virar a Rede Banda-em-Inglês de Televisão) volta e meia embarca numa campanha editorial, de mão pesadíssima, para desacreditar o fato do aquecimento global de causa humana.

Nesta semana, foi ao ar uma pataquada em que os cientistas que defendem a visão de que a atividade antrópica está modificando o clima da Terra -- apenas 97% de todos os especialistas na área -- são chamados de "aquecimentistas", ficando subentendido que representam uma minoria (de 97%!) dogmática pero barulhenta. O mote da matéria foi a informação de que a extensão mínima de gelo sobre o Ártico, em 2013, foi 60% maior do que em 2012. Gelo do Ártico aumenta 60%! Arrá! Como os aquecimentistas explicam isso?

Um pouco de perspectiva histórica pode ajudar. Como o gráfico abaixo, cortesia do site Skeptical Science:



Onde dá pra ver que, primeiro, a extensão de gelo no ano passado foi a menor da história; e que a alegação de uma "recuperação de 60%", agora em 2013, embora correta do ponto de vista numérico, não quer dizer, fundamentalmente, nada em termos da tendência de longo prazo.

Existe um fenômeno estatístico conhecido como "regressão para a média", segundo o qual depois de um resultado excepcional, a tendência é as coisas voltarem para um estado mais próximo do normal. Fãs de esporte têm uma compreensão intuitiva disso: ninguém espera, por exemplo, que um time de futebol ganhe cinco partidas consecutivas por um mesmo placar de dez a zero. Em outras palavras: depois de um ano excepcionalmente ruim, é até de se esperar algo um pouco menos pior. Mas note que, mesmo com a regressão, o total ainda está bem abaixo da média do século passado, mantendo o rumo geral de queda.

Para pôr um pouco mais de perspectiva na história, veja este outro gráfico, quentinho (sem trocadilho) do Centro de Dados de Neve e Gelo do governo americano:


A linha cinza sólida é a média da cobertura de gelo sobre o Ártico no segundo semestre, mês a mês, no período 1981-2010. Cada uma das linhas coloridas representa um ano de 2008 para cá. A linha de 2013 está incompleta porque, ora bolas, o ano ainda não acabou. Ano a ano, consistentemente, a cobertura ficou, de fio a pavio, abaixo da média. Que "recuperação" é essa?

O autor da matéria da Banda-Em-Inglês, Fábio Pannunzio, publicou um artigo online, também nesta semana, em que acusa a NOAA, Administração de Atmosfera e Oceano do governo americano, de falsificar dados, para ocultar uma previsão fracassada de que o Ártico estaria livre de gelo em 2012. O que me deixou meio curioso, porque eu realmente não me lembrava de nenhuma previsão do tipo. A prova de Pannunzio é a seguinte imagem:


Quatro coisas curiosas na coluna à esquerda da justaposição acima: primeiro, a baixa definição da imagem; segundo, a forte pixelização ao redor das datas, o que sugere manipulação digital (e das bem amadorísticas); terceiro, a ausência de cabeçalho (provavelmente porque a fonte e o corpo originais não combinavam com os usados nas datas adulteradas, e os das datas não iam caber); e, por último mas não menos importante, o fato de que o gráfico da direita faz muito mais sentido, já que apresenta uma progressão em saltos uniformes de 100 anos -- de 1885 para 1985 e para 2085. Já a versão da esquerda salta primeiro um século, e depois dá um passo tímido de apenas 27 anos. A troco?

O artigo não cita a fonte das imagens, mas uma busca no site da NOAA traz um panfleto, datado de 2007, cuja primeira página é a que se vê logo abaixo:


Claro, pode-se ser paranoico e imaginar que a NOAA tem algum esquema orwelliano para reescrever a história, alterando até mesmo o conteúdo de PDFs publicados há seis anos. Os caras, de fato, foram tão bons que conseguiram adulterar até mesmo uma versão da imagem publicada em 2010 num site do governo da China. A NOAA deve ter os melhores hackers do mundo! Confira abaixo:




De qualquer forma, a projeção apresentada no PDF é apenas uma de várias simulações. Existem outras, e a própria NOAA publicou um resumo muito mais abrangente, em 2009. Nesta última imagem, são comparadas diversas simulações de quantos anos ainda restam antes que o gelo do Ártico desapareça no verão do hemisfério norte. A média das previsões é de 30 anos, mas há discrepâncias. E nenhuma delas previa menos de uma década:


Com o novo relatório do IPCC prestes a sair, tentativas -- maliciosas ou apenas mal informadas -- de confundir a questão começam a aparecer. Não só a liberdade, mas a verdade também parece requerer eterna vigilância.

Comentários

  1. Se tiver tempo veja aqui: http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com.br/2013/07/mudancas-climaticas-e-combustiveis.html

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  2. Pelas coincidencias da vida (e do agregador de rss), li este post seu logo depois deste aqui: http://motls.blogspot.com.br/2013/09/leaked-ipcc-report-summary-june-2013.html

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  3. perfeito em seus comentários, parabéns!

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