O "Affaire" Gauquelin e o Efeito Marte

Depois de algumas manobras financeiras internacionais altamente sofisticadas -- ao menos para mim -- finalmente consegui receber, já há algumas semanas, o volume Astrology under Scrutiny, que representa não só a edição final como também um resumo dos resultados de quase 30 anos de estudos científicos da astrologia publicados no periódico holandês Astrologie in Onderzoek (AinO).

O editorial que abre o livro, de autoria do pesquisador Wout Heukelom, conta como, após uma explosão de interesse nos anos 80, o volume de publicações no AinO começou a declinar, a partir da década de 90: "Os resultados da pesquisa continuavam, teimosamente, a refutar as alegações astrológicas, e não só na Holanda. Por fim, isso levou a uma perda de interesse na pesquisa".

O livro holandês dedica toda uma seção especial ao trabalho do psicólogo francês Michel de Gauquelin (1928-1991), considerado o primeiro estudioso a aplicar técnicas estatísticas rigorosas ao estudo da astrologia. Muitos astrólogos gostam de citar alguns resultados de Gauquelin -- e, de modo especialmente enfático, sua descoberta do chamado "Efeito Marte" -- como uma validação científica da prática, mas trata-se de uma distorção grosseira.

Os resultados gerais de Gauquelin, publicados numa série de livros a partir de 1955, constituíam uma "demolição da astrologia", nas palavras do próprio pesquisador. Ele procurou correlações entre signos do zodíaco, profissão e personalidade; aspectos planetários dentro de famílias; e horóscopos de assassinos célebres. "Nenhum dos números diferiu de modo significativo dos esperados pelo acaso. É um desapontamento para a teoria astrológica", escreveu ele. Em 1991, ano de sua morte, a conclusão era essencialmente a mesma: "Tendo coletado mais de meio milhão de datas de nascimento das pessoas mais diversas, fui capaz de observar que a maioria dos elementos de um horóscopo não parece possuir nenhuma das influências atribuídas a eles".

A tábua de esperança que, segundo alguns astrólogos, o trabalho de Gauquelin oferece à prática é sua análise das chamadas casas planetárias -- a posição que certos planetas ocupam no céu em determinadas horas do dia, e sua suposta influência no destino das pessoas nascidas sob tal configuração. Para estudá-las, Gauquelin coletou datas e horários de nascimento de profissionais "eminentes" em suas áreas de atuação.

"Não vi nada que pudesse confirmar o papel atribuído pela astrologia a uma casa particular", escreveu. "Mas, por outro lado, nas posições estatísticas de três planetas, vi anomalias significativas". Os planetas eram Marte, Júpiter e Saturno. O fenômeno recebeu o nome de "Efeito Marte", e consiste na constatação de que, nos dados coletados por Gauquelin, a correlação entre a posição dos planetas no céu e o nascimento de profissionais de sucesso em algumas carreiras -- como atores, médicos, atletas, cientistas -- diferia da esperada por puro acaso. O dado emblemático é o de uma leve predominância de Marte, em certas posições-chave, no céu sobre os nascimentos de grandes médicos e atletas.

O adjetivo "leve" é importante: a anomalia estatística típica não passava de 4%. Além disso, a confiabilidade de se usar a posição de Marte no instante do nascimento para prever se a criança será um grande atleta, na taxa de correlação calculada por Gauquelin, era apenas 1% melhor do que um chute ao acaso.

O resultado deixou o pesquisador francês numa encruzilhada entre céticos e crentes da astrologia:  o mesmo rigor estatístico que lhe permitira refutar todos os pontos centrais da doutrina, como a importância do signo solar ou o valor do mapa astral para prever tendências de comportamento, de personalidade e de ocorrências biográficas, dizia que certos planetas estavam, de alguma forma, ligados -- de um modo extremamente tênue, mas ainda assim, ligados -- ao destino humano.

Os astrólogos, em geral, ignoraram as implicações mais amplas e as conclusões mais fortes do trabalho de Gauquelin, ao mesmo tempo em que abraçaram apaixonadamente a brecha de credibilidade que uma análise superficial do "Efeito Marte" parecia oferecer.

Já os céticos passaram a tentar explicar os resultados como fruto de erro, fraude ou de algum tipo de inferência subjetiva (por exemplo, como Gauquelin definia "profissional eminente"?). Mas os números e os cálculos de Gauquelin resistiram, por décadas, a todos os ataques, muito realizados com ferramentas matemáticas sofisticadas e, não há como negar, argumentos desonestos. Ataques indevidos de parte da comunidade cética ao trabalho de Gauquelin, nos anos 70, levaram à produção de alguns pedidos de desculpas envergonhados na década seguinte. Mesmo a cláusula de eminência se manteve quando o critério subjetivo inicial foi substituído por número de citações, um dado objetivo.

Por um lado, então, se o "Efeito Marte" não valida a astrologia, ele também é uma pedra no sapato da ciência: de onde vem? o que o causa? qual a explicação?

Em 2002, o pesquisador australiano Geoffrey Dean apresentou uma hipótese que parece dar conta do problema: os dados com que Gauquelin tinha trabalhado ao descobrir o Efeito, e que tratavam de nascimentos ocorridos no século 19 e no início do século 20, estavam, afinal de contas, errados -- mas não por culpa do pesquisador, mas dos pais: famílias tradicionais ou supersticiosas mentiam o horário e a data de nascimento dos filhos, para criar a aparência de uma situação astral "favorável". De acordo com Dean, se apenas 3% dos pais, nesse período, tivessem feito isso,  um "Efeito Marte"  à la Gauquelin teria sido produzido.

Em apoio a sua hipótese, Dean cita do fato de que o próprio Gauquelin já havia detectado um "atenuamento" do efeito a partir da década de 50 e, de modo mais geral, quando os nascimentos ocorriam por cirurgia. Isso deixa de ser um enigma quando se leva em consideração que nascimentos via cesariana têm o horário registrado pelo médico, e que partos em hospitais tornaram-se cada vez mais frequentes a partir dos anos 1950.

"Mas, para que mentir?", questiona Dean em seu artigo original de 2002, publicado na revista Skeptical Inquirer. "Se realmente acreditamos que certos tempos são auspiciosos,  dificilmente acreditaríamos que falsificá-los mudaria algo". Mas, mais adiante, complementa: "Mas veja porque poderíamos desejar evitar dias de azar e o horário da meia noite. Mesmo se não vermos nada errado num tempo de azar, outras pessoas (e a criança) podem discordar (...) De modo semelhante, se pudermos falsificar uma data de nascimento auspiciosa, ou uma indicação planetária de grandeza, isso pode ter consequências úteis. Ser um predestinado aos próprios olhos e aos dos demais tem vantagens".

Comentários

  1. Caro colega Orsi,

    Interessado que sou pelos princípios constitutivos por trás das técnicas astrológicas, bem como na determinação estatística de efeitos multivariáveis, já me interessei pelos testes do Gauquelin, mas nunca tive acesso direto às conclusões e ao texto real. Agradeço por disponibilizar rapidamente uma pesquisa detalhada.

    Infelizmente existe uma suposição totalmente capenga, improvável e irreal por trás da hipótese "psicológica ingênua" do Dean: A de que haja um número suficiente de pais (que cubram o 1% da anomalia verificada num universo amostral bem extenso) que conheçam o suficiente de astrologia e sejam militantes e motivados o suficiente para organizadamente (sem que o Gauquelin soubesse) escolher apenas uma das miríades de configurações possíveis associadas a uma das muitas facetas possíveis de expressão dos efeitos registráveis e de suas possíveis manifestações sociais para produzir, através de uma distorção precisa dos dados apresentados, um determinado (e pífio) efeito na interpretação estatística.

    já não bastam as pseudo-refutações baseadas na hipótese psicológica irreal baseada em auto-julgamentos precisos das pessoas quanto ás suas características e eventos importantes, que mais mostram intenções enviesadas que real imparcialidade por parte de todos?

    Ainda no terreno da correção metodológica, quem conhece um mínimo dos modelos por trás das interpretações dos astrólogos (dos que se pretendam mais sérios) sabe o quão distante da prática destes é o particionamento ou isolamento das componentes interpretativas requeridos por qualquer teste estatístico monovariável. Ainda existiria, então, o principal problema ligado aos testes: a prática de tentar separar acriticamente poucas variáveis em um universo teórico altamente conectado e correlacionado sempre oculta tendências e provoca o surgimento de ênfases incompatíveis com as reais funções de distribuições de probabilidade.

    E mesmo assim quem lida proximamente com estas coisas sabe que inexiste essa homogeneidade atribuida tanto às interpretações dos astrólogos quanto ao que os céticos acham que deveriam ser seus fundamentos.

    No fim das contas também a hipótese de falseamento do Dean é tão crível quanto a teoria conspiratória anti-aquecimento global. Não que a má-fé não seja uma característica aparentemente distribuida de forma homogênea entre toda a população humana (incluindo aqui todos os pesquisadores), mas sem evidências reais desta, alegações hipotéticas de fraude sempre foi um argumento pobre de refutação.

    Ou seja, dúvidas reais quanto à verdadeira causa da anomalia ainda persistem.

    Ótima discussão.

    Ricardo França

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  2. Texto muito bom, Gauquelin é o que tem mantido os fanáticos da Astrologia com "fé", estou coletando provas contra ele, mas a maioria do que encontro é superficial, acho que um bom começo é ler as obras de Dean, que se não me engano é um ex-astrólogo e tem propriedade para falar do tema.

    Eu tinha pensado em tópicos para serem analisados sobre Gauquelin, não tinha pensado no falseamento das datas, mas existe também o erro da hora anotada, já que essa anotação é a última das preocupações de um parto e nem todos os relógios estão sincronizados perfeitamente; Segundo os métodos da astrologia, 8 minutos muda drasticamente um Mapa Astral de uma pessoa, então isso é muito importante para ser levado em consideração.

    Outro ponto é a quantidade de dados analisada manualmente, eu vi que vários céticos criticaram Gauquelin e acabaram dando um tiro no pé, pois depois de analisarem os métodos comprovavam que estava tudo certo e davam mais força para as pesquisas. Porém o que me preocupa mais é o erro humano, na época não tinham computadores, e fazer Mapas Astrais são cálculos exaustivos e complicados, podemos ter erros de cálculo, erros de escrita (na hora de anotar os resultados).

    Outra coisa que gostaria de analisar é se há registro dessas centenas de milhares de fichas que compõe a pesquisa de Gauquelin ou se elas foram perdidas no tempo, já que imagino que não foram cadastradas na internet na época. Se isso for verdade, como garantir que não houve alguma fraude?

    Tenho lido diversas coisas sobre Gauquelin, ouvi dizer que seus primeiros trabalhos foram péssimos para a astrologia, mas que um dia tudo começou a dar certo quando ele "corrigiu seu método", isso me faz pensar se ele apenas não desistiu da honestidade científica e passou a se aproveitar da falta de fiscalização para fraudar os resultados. Afinal ele aparenta ser o único a ter esses resultados, enquanto todos os outros cientistas do mundo que pesquisam a astrologia só conseguem resultados negativos, mesmo refazendo as mesmas pesquisas de Gauquelin.

    GHS

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    Respostas
    1. Creio que a melhor solução é, com pé no chão (levando em conta as interpretações astrológicas) e com um grupo de astrólogos e estatísticos, fazer novas pesquisas.
      Com centas e até milhares de dados espalhados pro aí. Nada melhor que um trabalho multidisciplinar!

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