HPV or not HPV?

E essa tal de vacina contra o HPV? Ela evita a infecção contra alguns tipos de papiloma vírus humano – um vírus que pode levar ao desenvolvimento de câncer de colo do útero. Ela não protege contra todos os HPVs que há por aí, mas é eficaz contra os responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer. Uma vacina contra câncer! Quem poderia ser contra?

Bom, pelo jeito, muita gente. Há dois tipos de oposição: uma feita por alguns médicos, e outra, de caráter religioso. Entre os argumentos dos médicos que discordam da vacina, está o de que não há prova científica de que ela evita o câncer, mas apenas de que combate o vírus.

Há alguma lógica nisso, já que nem toda infecção por HPV leva ao câncer, mas vale a pena fazer uma analogia: na época em que os para-raios foram inventados, não havia provas de que eles salvariam vidas, já que só o que se sabia é que desviavam descargas elétricas, e nem todo raio atinge prédios ou mata pessoas. O raciocínio não impediu a adoção da nova tecnologia, então – e não deveria impedir a da vacina, agora.

Outras objeções envolvem questões de custo, benefício e risco: certo, a vacina funciona, mas há outros meios de lidar com o HPV. Como ela se compara a eles? A imunização terá impacto significativo na saúde pública? E os custos? Qual o perigo de efeitos adversos? Todas essas coisas têm de ser levadas em consideração, é claro. E foram.

Vários estudos internacionais, além de análises do próprio governo brasileiro, concluem que a vacinação vale a pena – o Roberto Takata, do Gene Repórter, também fez uma análise dos números. Para quem gosta de referências internacionais, o NHS, equivalente britânico do nosso SUS, estima que 400 vidas podem ser salvas no Reino Unido, a cada ano, pela vacina. Isso é mais de 40% do total de mortes causadas pela doença no país em 2011.

O outro ponto de discórdia, esse de natureza moral-religiosa, diz respeito à idade da vacinação. O HPV é transmitido sexualmente, e a vacina funciona melhor se for aplicada antes que a mulher tenha contato com o vírus. Como a única forma de garantir que não houve contato com o vírus é garantir que a vida sexual ativa ainda não começou, a vacinação é recomendada para garotas de 11 a 13 anos. Há quem diga que essa definição de faixa etária representa uma “sexualização da infância”.

Essa queixa me suscita duas questões. Primeira: como assim? Entendo que muita gente não goste da ideia de que meninas de 14 anos já possam ser sexualmente ativas, mas gostar ou desgostar não muda os fatos: 12% das garotas brasileiras de 15 a 19 anos eram mães em 2010, segundo relatório da ONU. Qual a ideia? “Punir” as jovens que sigam pelo mesmo caminho, sonegando-lhes a vacina?

Há quem tema que a vacina seja um estímulo a mais para o início precoce da vida sexual. Pode ser ingenuidade minha, mas não vejo o risco de câncer cervical como componente da paisagem emocional de uma garota que esteja decidindo se vai ou não fazer sexo. Gravidez, aids, gonorreia, talvez. Agora: HPV? Fala sério.

A segunda questão é: e daí? O que está em jogo é a saúde e a vida da menina, afinal. Vamos supor, ab absurdum, que a vacina tenha, como efeito colateral, um certo poder afrodisíaco. Uma pessoa que pense "Se eu proteger minha filha contra o câncer, ela vai transar" e, por causa disso, decida não protegê-la se diferencia de um assassino de honra em quê, exatamente?

Comentários

  1. Carlos, na verdade parece haver uma grande superposição entre os dois tipos de oposição: boa parte dos argumentos elencados pelos médicos contrários à vacina é tão absurda, especialmente quando proferidos por gente com suposto treinamento científico, que fica difícil não pensar que por baixo da crítica "científica" há uma oposição moral/religiosa. Exigir 100% de eficácia de qualquer medicamento ou vacina é uma grande "red flag" de que o crítico não está sendo racional.
    Gostaria apenas de saber se esses críticos aplicam o mesmo raciocínio à vacina contra a gripe e a antibióticos que salvam milhões de vidas mesmo sem serem 100% eficazes...

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    1. Ricardo, tendo a concordar. Mascarar objeções religiosas/moralistas com "technobabble" é um truque que já vimos ser mobilizado contra o uso de preservativos, as pesquisas com células-tronco, por exemplo. Resta aguardar que os críticos apontem suas reais filiações...

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