Meu problema com a Copa

Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo deste ano, minha reação foi um misto de resignação e mau-humor. Que é exatamente como me sinto hoje, no dia da abertura do torneio. Resignação com o que eu sabia que viria por aí: gastos desbragados, obras inacabadas ou finalizadas nas coxas e pelo triplo do preço, a tal da "soberania nacional" tão cara aos posers de sempre vergada, sem a menor cerimônia, sob as exigências da Fifa.

Já o mau-humor era um pouco mais difícil de explicar. Em parte, era por causa das complicações -- transporte, horário, agenda -- que o evento inevitavelmente traria para a minha vida, logo eu que não dou a mínima para futebol. Mas só em parte.

Não se tratava também, exatamente, da questão de prioridades: investimento público em esporte e lazer pode ser legítimo, afinal. Dizer que há "coisas mais importantes a fazer" é um truísmo, sempre, não importa o que se esteja fazendo: eu, por exemplo, estou aqui, blogando, em vez de ir para Gana distribuir remédio para malária.

Mas acho que agora, enfim, entendi o principal motivo de meu mau-humor, que de lá para cá só aumentou: é o fato de que fui criança durante a ditadura, o que significa que passei os meus anos formativos sob o bombardeio constante da euforia patriótica fabricada pelo governo.

Deve ser difícil explicar para quem não viveu o período, nem foi alvo preferencial das manobras toscas de "lavagem cerebral" dos governos militares -- cata-ventos verde-amarelos no 7 de Setembro, trabalhos escolares que se resumiam a fazer cartazes ufanistas (verde-amarelos) no Dia do Soldado, pronunciamentos do "Excelentíssimo Senhor Presidente da República General Ernesto Geisel" volta e meia em rede nacional obrigatória na TV, a Rede Globo gritando histérica em época de Copa do Mundo, vizinhos malufistas pintando a bandeira do Brasil na rua...

A coisa toda me deixou vacinado -- com a vacina da má-vontade profunda -- contra euforias fabricadas, congraçamentos de encomenda, celebrações ensaiadas, explosões de "alegria espontânea" que tinham a maior cara de ordem unida. E é daí que vem, finalmente me dei conta, a maior parte de meu mau-humor com esta "Copa das Copas": uma reação imunológica à tentativa quase fascista de se estabelecer, de cima para baixo, um clima de alegre unanimidade que, poderia dizer o ditador Garrastazu Médici nos idos de 1970, nunca antes tinha sido visto na história deste país.

Nesse aspecto, a adoção do bordão "complexo de vira-lata", como versão atualizada do "ame-o ou deixe-o", foi coisa de gênio: como se capacidade de autocrítica tivesse se transformado em manobra de autossabotagem e crime de lesa-pátria. Nelson Rodrigues é uma boa fonte de frases de efeito, mas H.L. Mencken também era -- e dele é uma de minhas favoritas: "Toda pessoa decente tem vergonha de seu governo".

Na época da escolha da sede já era irritante, e agora tornou-se insuportável, o esforço de entidades, pessoas e empresas que querem, que exigem, que eu ame a Copa, que eu curta a Copa, que eu consuma a Copa, que eu me entregue à Copa como se não houvesse amanhã. São os publicitários, os jornalistas, os fabricantes de televisores, de bebidas, de carros, de antissépticos bucais (!!), as empresas de mídia, as empreiteiras, o Galvão Bueno, a Fifa, o governo tucano de São Paulo e o governo petista em Brasília. O suado trabalho de construção de um clima de euforia ufano-futebolística é talvez a coisa mais próxima de uma grande conspiração reptiliana a existir no Brasil, neste momento.

Ter tanta gente em volta dizendo como eu deveria me sentir -- e todos apontando exatamente na mesma direção -- ativa antigos anticorpos gestados em tempos sombrios e me põe em contato com meu rabugento interior. Daí, enfim, o meu problema com a Copa.

Comentários

  1. Este blog é a minha bolha contra a barbárie.
    Obrigado, Orsi.

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  2. É engraçado, eu noto essa imposição de como tenho que gostar da Copa, mas também bastante o contrário: o número de jornalistas e pessoas em geral me dizendo pra não gostar da Copa, pois ela é a representação de tudo que é errado no mundo, junto com seu criador capeta, a FIFA.
    Acho que aproveitamento político e publicitário vai acontecer com praticamente qualquer acontecimento, e mais ainda com um desse porte. Publicitários dizendo 24h o que devemos fazer não é novidade.

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    1. Oi, Julio! Concordo que a persuasão profissional está ao nosso redor o tempo todo, mas a unanimidade é que é meio rara.

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  3. Em tempos de internet e diversidade de fontes de informação, a unanimidade é muito difícil de ser obtida. Este post é um bom exemplo disso e há outros por aí em grandes portais. Michael Shermer foi quem disse que as crenças vêem primeiro, depois é que usamos a razão pra justificar aquilo em que acreditamos. Acho que com gostos (em, música, cinema etc..) acontece o mesmo. Como eu gosto de futebol, posso listar inúmeras razões pra assistir jogos da Copa. Jogos coletivos como subsittutos para o nosso ímpeto de guerrear, a superação do atleta desacreditado, a derrota do gigante, o frango do goleiro, o gol salvador no último minuto, quando a derrota parecia inevitável, tudo isso torna o jogo um teatro rico em dramas. Mas acho que no fundo, isso tudo é um jeito que eu encontro pra justificar algo que eu adoro.

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