Tocamos um cometa

Hoje, ma espécie humana, por meio de um robô construído na Europa, tocou, suavemente, a superfície de um cometa. Não foi uma colisão: foi um carinho. Durante milênios os cometas foram vistos como presságio de catástrofe, mas hoje nossa espécie, talvez tentando demonstrar uma maturidade ainda incipiente, se aproximou de um deles com ternura.

Não vou me estender aqui sobre o colossal esforço técnico, científico e intelectual por trás disso; nem vou gastar muito tempo lembrando que foi nossa ciência, tão assumidamente falível e, por isso mesmo, tão poderosa, que fez com que, após uma viagem de mais de dez anos, uma partícula de matéria em movimento chegasse exatamente onde deveria, sem intervenção humana direta, na superfície de outra partícula, viajando ao redor do Sol numa velocidade estonteante.

Em vez disso, deixo aqui uma foto -- a imagem da superfície de um cometa -- e alguns versos de Jorge Luis Borges, compostos a respeito de um feito semelhante:

Dos hombres caminaron por la luna.
Otros después. ¿Qué puede la palabra,
Que puede lo que el arte sueña y labra,
Ante su real e casi irreal fortuna?
Ebrios de horror divino y de aventura, 
Esos hijos de Whitman han pisado
El páramo lunar, el inviolado
Orbe que, antes de Adán, pasa y perdura.  

Hoje, graças à internet, os "ébrios de horror divino e de aventura" somos todos nós. Abaixo, o orbe inviolado que, desde antes de Adão, passa e perdura, e que tocamos neste dia:




Comentários

  1. Excelente post. Li seu conto "Aprendizado" na Asimov Magazine qdo foi lançado... desde então aguardo que estenda aquele universo com outras histórias. Vc escreveu mais sobre aquele universo? (a muito tempo eu escrevi pra vc, não sei se lembra).

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    1. Oi, Naelton! Creio que me lembro, sim... Eu não mexi mais no universo de "Aprendizado". Concebi aquele cenário para quela história, e não me vejo usando-o em outras...

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  2. Ouvi vc no Anticast falando sobre mitos de Chtulhu e me lembro vc falando de q o Chtulhu numa história é atingindo pelo disparo de uma lancha torpedeira. Pode me dizer em q história isso acontece? No Chamado de Cthulhu é um cargueiro que é arremessado contra a entidade se me lembro bem... :-)

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    1. Oi, Naelton! Pois é, eu me enganei lá na hora de falar, estava me refeindo ao "Chamado", mesmo. Problemas de discorrer de improviso contando coma memória esclerosada... :P

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