Depois da Bienal...

Aproveitei o fim de semana prolongado de 7 de setembro para visitar o Rio de Janeiro e passar uma tarde na Bienal Internacional do Livro, onde a Editora Draco lançava dois títulos meus, Tempos de Fúria e Flores do Jardim de Balaur. Aproveitei para ver os livros, cheirá-los, admirar o trabalho gráfico -- e me embasbacar, pela enésima vez, com esse fenômeno para mim inexplicável: o do autor que atrai leitores.

Não, não vou ficar choramingando que não tenho leitores. Primeiro, porque isso seria um enorme desrespeito para com os leitores que, de fato, tenho. Sei que vocês estão aí, pessoal! E agradeço muito o apoio. Além disso, se não tivesse leitores, nenhum editor seria idiota de enterrar capital nas coisas que escrevo.

Mas meus leitores têm uma característica particular: são reticentes, reservados. Não aparecem muito. Compram os livros, sim, lá no ritmo deles, votam em mim nos prêmios, até comentam alguma coisa (por exemplo, neste fantástico podcast). Desconfio -- se isso vai soar pretensioso, paciência -- que talvez eu seja o escritor de ficção científica brasileiro mais lido por jovens cientistas brasileiros. O que é um enorme motivo de orgulho.

Mas, enfim, são reticentes, reservados: não aparecem. Até já desisti de fazer sessões públicas de autógrafos porque, sinceramente, não compensa. A Bienal foi algo meio parecido: vários outros autores da Draco atraíam grupos de leitores e assinavam livros quase até o pulso doer, enquanto eu ficava lá, meio que de espectador, integrado à paisagem.

Às vezes me pego pensando no assunto: por que meus leitores não são gregários? Imagino que parte da explicação seja geográfica. Tem gente que curte meu trabalho no norte do Brasil, e no sul, e no centro-oeste... Talvez eu não tenha uma massa crítica de leitores num lugar só, com concentração suficiente para, não digo encher, mas ao menos movimentar um evento.

Ou talvez minha literatura tenha um apelo especial para gente introvertida, que não gosta de aparecer. Esse é um dado curioso: informado pelas redes sociais, sei que existem comunidades ativas e atuantes de leitores e fãs de ficção especulativa -- ficção científica, fantasia, terror -- o chamado fandom. A maioria de meus leitores, no entanto, não parece fazer parte dele, ou ao menos não de seu "núcleo duro". É óbvio que há sobreposições mas, no geral, a impressão que fica é de que a maior parte dos meus leitores mais tangencia do que realmente participa desse fandom.

Simpatizo com isso. Também não sou um cara gregário. Certa vez estava numa livraria em Londres na hora em que começava uma sessão de autógrafos do Alastair Reynolds, e não movi um músculo para entrar na fila, mesmo sendo um grande admirador do trabalho dele. Dificilmente peço autógrafos, mesmo quando estou entre amigos autores.

De qualquer modo, conhecer a Bienal do Rio foi uma experiência e tanto. A mim me pareceu bem menos claustrofóbica e caótica que as edições mais recentes realizadas em São Paulo, e estar presente no primeiro estande oficial da Draco num evento desse porte teve valor histórico. Minha única queixa, mesmo, é que choveu o fim de semana inteiro, e por isso não deu praia. Mas, enfim, não se pode ter tudo!

Comentários

  1. Eu já comprei e li dois livros seus, gostei muito e vou continuar lendo, mas sinceramente não me atrai esses eventos de autógrafos, fotos, celebridades. Acho que você está certo sobre seus leitores :)

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    1. Obrigado pela audiência, André! E por confirmar minhas suspeitas... ;)

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  2. Carlos, sou leitor do seu trabalho já faz algum tempo, aqui no blog mesmo sempre venho e recentemente comprei seu livro Os jardins de Balaur,que ainda não chegou, afinal moro no fim do mundo, interior do interior da Bahia.No entanto, se estivesse no Rio iria na Bienal para bater um papo contigo. Um abraço!

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