Divulgação científica: pequenos dilemas

Passei o último sábado reunido com algumas dezenas de divulgadores de ciência -- em sua maioria, blogueiros e vlogueiros (isto é "blogueiros de vídeo", para quem não está atualizado com o jargão) -- num evento promovido pelo Numina Labs. A troca de experiências é sempre fértil, e conversar com gente inteligente é sempre agradável, mas confesso que me senti um pouco deslocado, tanto pela faixa etária (eu era um dos dois caras mais velhos ali, e "mais velho" no sentido de que provavelmente sou contemporâneo dos pais de boa parte dos participantes), como pela questão midiática: sempre fui um cara "do impresso", então o foco principal do encontro, vídeo, estava bem fora da minha zona de expertise.

Ainda assim, foi interessante ver como aquele grupo -- jovens, em sua maioria com formação principal em ciência e apenas secundária em comunicação, ligados na linguagem do vídeo online -- reproduzia muitas das questões, confusões e dilemas que gente como eu -- velhos, com formação principal em comunicação e apenas secundária em ciência, analfabetos em vídeo online -- também encontra no cotidiano, ou já encontrou um dia. Nesse aspecto, a divulgação científica brasileira se parece muito com outra área em que também atuo, a ficção científica brasileira: cada nova geração parece entrar na arena com a impressão de que está desbravando território virgem.

Entre as questões recorrentes que vieram à tona, anotei uma que talvez mereça um pouco mais de esclarecimento, ou esmiuçamento, até para evitar armadilhas e becos sem saída já enfrentados em outros tempos e contextos: a de que a divulgação científica, para ter alcance e audiência, deveria, se possível, esconder seu nome. A de que a estratégia realmente eficaz é a de contrabandear, e não explicitar, a ciência.

Não é difícil distinguir as duas estratégias: contrabandear é tratar, ostensivamente, de um outro assunto (digamos, a moda de saltos altos para mulheres) e usá-lo como trampolim para falar de um ponto científico (anatomia humana, danos à coluna, etc.). Já explicitar é, bem, explicar na cara dura: "Nosso assunto de hoje é a coluna vertebral. Vamos ver como...", etc.

Parece óbvio que, numa ecologia saudável de divulgação científica, deve haver espaço para as duas coisas. A explicitação atende ao público que já tem alguma curiosidade fundamental sobre o assunto; o contrabando informa quem precisa da informação ou que gostaria de recebê-la, mas que por algum motivo não sabe dessa necessidade (ou ainda não descobriu o gosto). Livros costumam ser o veículo favorito dos grandes explicitadores, como Richard Dawkins ou Brian Greene. Já o contrabando tem um apelo maior em mídias mais efêmeras, como jornais, revistas e televisão. Parece, portanto, sob medida para blogs de vídeo -- "vlogs". O Nerdologia, por exemplo, talvez seja o maior contrabandista de ciência do Brasil, hoje.

O problema, que é recorrente em praticamente todas as mídias -- e digo isso porque a história registra inúmeros casos -- é que o sucesso de público da estratégia do contrabando tende a torná-la hegemônica, o que quebra o equilíbrio necessário entre contrabandistas e explicitadores. E, pior ainda, tende a hipertrofiar o "meio contrabandeante", em detrimento do "conteúdo contrabandeado".

Exemplos: a vergonhosa decadência de canais de documentário como o Discovery e o History; a disseminação de matérias de ciência que, à força de serem "engraçadinhas", descambam para a irrelevância ou a pseudociência, como na longa tradição da mídia britânica de divulgar equações cretinas, culminando na definição espúria do "dia mais triste do ano".

Claro, a explicitação também tem problemas que são, em parte, os responsáveis pelo sucesso às vezes desproporcional do contrabando: ela pode ser muito chata. Só atrai "convertidos". Assusta quem tem trauma ou medo de coisas "científicas". Dá menos audiência e, por tabela, menos dinheiro.

No entanto, nenhum desses deméritos da explicitação é realmente um mal necessário, assim como não é inevitável que os canais de contrabando acabem degenerando em buscas sensacionalistas pelo prepúcio perdido de Jesus. Isto aqui não é uma tentativa de demonizar uma ou outra estratégia (como escrevi acima, uma ecologia saudável requer ambas) mas de deixar um pequeno alerta.

Uma das explicações oferecidas para a crise atual do jornalismo é -- para além do impacto da internet nos modelos de negócio, etc. -- que, em algum momento do século passado, os empresários brasileiros de mídia tiveram a ideia brilhante de fazer jornal para quem não gosta de ler. Parecia fazer sentido: essa, afinal, sempre foi a fatia maior do público. Com isso, no entanto, alienaram quem curtia um texto mais elaborado e não conquistaram quem já estava seduzido pela TV. Deu no que deu. Que os divulgadores de ciência saibam escapar de armadilhas semelhantes.

Comentários

  1. E ainda há uma geração mais nova no snapchat.

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  2. O parágrafo final é de uma importância tremenda!

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  3. Carlos,
    Que ótima reflexão. Como eu ganhei de você em velhice no grupo, e estava realmente extasiado com o entusiasmo e energia do pessoal, nem pensei em exprimir minha contrariedade em relação ao conrabando. Achei melhor ficar quieto. Como dizia o Martin Fierro, el diablo es mas malo por viejo que por diablo. Adoro assistir os vlogs de ciência, e passei uma parte do meu tempo livre hoje assistindo a alguns qua não conhecia. Adoro a linguagem rápida deles, mas estou seguro que os escritos continuamos tendo espaço. E assim como o pessoal da Estudantaria conseguiu mostrar que aprender pode ser cool, estou seguro que ciência é cool. Eu sou dos que acha que não precisa esconder a palavra ciência. E para cada nível de aprofundamento haverá um público interessado.

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  4. Duvido que alguém seja mais velho do que eu neste grupo. Sou de 1953.

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