Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

Nos últimos tempos, as redes sociais -- ou, ao menos, as minhas timelines -- andam virtualmente entupidas de notas, notícias e insinuações a respeito do surto de microcefalia no Brasil, sua ligação com o vírus zika e supostas manobras do governo para esconder as "verdadeiras causas" do problema, que iram desde "vacinas cubanas vencidas" a um plano maligno de ONGs internacionais para... Bom, ninguém parece saber para quê, mesmo.

A questão das vacinas é a que surge em mais versões, e a que mais seduz os incautos que buscam motivos para culpar o governo federal (como se ele já não tivesse culpas reais suficientes, mas deixa pra lá). Ela toma, pelo menos, duas formas, a saber: (a) teria havido uma campanha de vacinação contra rubéola usando vacinas vencidas, que foram aplicadas a mulheres grávidas ou que engravidaram logo depois da dose;  (b) a campanha contra sarampo, realizada no Nordeste em 2015, e que usou as vacinas dupla (que também contém o vírus da rubéola) e tríplice (sarampo, rubéola e caxumba), teria inadvertidamente atingido gestantes ou mulheres que viram a engravidar logo em seguida.

O vírus da rubéola é considerado um importante suspeito, nesse contexto, porque se sabe que mulheres que contraem a doença durante a gestação podem vir a dar à luz filhos com vários tipos de malformação, incluindo microcefalia.

Mas, enfim: quanto à primeira hipótese, das "vacinas vencidas", especialistas ouvidos pelo jornal Zero Hora lembram que o Brasil não realiza campanhas de vacinação específica contra rubéola há anos, sendo considerado um país livre da doença; e que vacinas de rubéola vencidas perdem seu poder imunizador, mas não passam a causar a doença. As informações dadas ao periódico gaúcho depois foram ampliadas num depoimento detalhado de Lavínia Schüler-Faccini, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, no site da Associação Médica Brasileira, (AMB).

Vacinas vencidas poderiam estar ligadas ao surto se, por serem ineficazes, tivessem aberto o caminho para uma epidemia de rubéola entre mulheres grávidas, mas não há registros disso na história recente do Brasil.

E quanto à campanha de vacinação contra sarampo no Nordeste? No fim de janeiro começou a circular na internet um gráfico que aponta uma suposta coincidência entre a campanha de vacinação do final de 2014 e o início do pico nas comunicações de microcefalia, nove meses mais tarde, no segundo semestre de 2015. Mas essa associação ignora o fato de que campanhas agressivas de vacinação contra sarampo já vinham acontecendo na região desde 2013.

Ainda mais importante, o risco para o feto trazido pela presença do vírus da rubéola na vacina é apenas teórico. Como disse Lavínia Schüler-Faccini à AMB,  "na época da campanha de vacinação para todas as mulheres em idade reprodutiva [contra rubéola], em 2002, acompanhamos em parceria com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul mulheres em Porto Alegre que não sabiam que estavam grávidas quando tomaram vacina, e em mais de cem gestantes acompanhadas, nenhuma teve bebê com microcefalia ou com síndrome de rubéola fetal."

Esse dado é corroborado por números dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo dos Estados Unidos encarregado de monitorar e controlar epidemias. Os CDC recomendam que mulheres grávidas não devem receber vacinas contendo o vírus da rubéola, porque "por razões teóricas, não se pode excluir o risco para o feto", sugerindo um intervalo mínimo de 28 dias entre a data da vacinação e o início de uma gravidez. No entanto, acrescenta que um registro de 226 mulheres que receberam vacina de rubéola de 3 meses antes a até 3 meses após a concepção "não encontrou evidências de complicações" para as crianças. A conclusão é de que "a vacinação tríplice viral ou contra rubéola durante a gestação não deve ser considerada motivo para interrupção da gravidez".

E, por fim, o zika vírus. A relação de causa-e-efeito entre esse vírus e a microcefalia ainda não foi estabelecida cientificamente, embora a associação, sim. Há vários websites fazendo um cavalo de batalha da alegação de que a Fundação Rockefeller seria a "dona" do vírus, e que há empresas fornecedoras de material biológico que vendem amostras de zika. Daí, tira-se algum tipo de ilação sobre plutocratas causando doenças de propósito para auferir mais e maiores lucros.

A verdade é que o zika foi descoberto, na África, por pesquisadores da Fundação Rockefeller. Que é uma ONG internacional, que concede bolsas de estudo a um bocado de gente, já fez muita bobagem (como financiar centros de estudo que promoviam a eugenia) e também muita coisa boa (como financiar o desenvolvimento da vacina contra a febre amarela). Quanto à venda de amostras, ora bolas, os cientistas que trabalham com vírus -- seja como modelos para estudos teóricos, seja buscando novas vacinas -- precisam obtê-los em algum lugar, certo?

Teorias de conspiração se beneficiam bastante de um fenômeno psicológico chamado validação subjetiva -- a tendência que todos temos de interpretar dados díspares e não-relacionados como parte de um padrão que confirma nossos preconceitos.

Meu esforço pessoal para escapar dessa tentação passa por três critérios heurísticos. Os dois primeiros são as chamadas "navalhas", a de Occam -- "se duas hipóteses se encaixam igualmente bem nos fatos, prefira a mais simples" -- e a de Hanlon -- "nunca atribua a malícia o que pode ser adequadamente explicado por estupidez".

O terceiro é uma invenção minha, que chamo de Escala de Plausibilidade AIV. Proponho que, diante de um desastre, as explicações, na ausência de fatos ou evidências em contrário, são, da mais para a menos plausível, Azar (deu merda), Incompetência (alguém deixou dar merda) e, apenas então, Vilania (alguém se esforçou para que desse merda).

Nenhum desses critérios substitui uma investigação rigorosa, com certeza, mas são um bom modo de calibrar as expectativas e evitar sangue nos olhos antes de se ter todos os dados relevantes à mão.

Comentários

  1. Mais uma tacada de mestre, Carlos.

    Ótimo texto.

    ResponderExcluir
  2. Já não basta as conspirações financeiras,e agora conspirações de epidêmicas. A falta do amor, respeito ao próximo, já não existe mais; com todas essas maldades para com a nação Brasileira. As profecias se cumpri provando tudo que está escrito.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência