Astrologia, Atlântida e as pirâmides do Egito

D. Pedro II no Egito, diante da Esfinge


Dia desses, fazendo uma leitura meio diagonal da linha do tempo do Facebook, encontrei uma referência meio que de segunda mão a uma palestra sobre "o significado astrológico das pirâmides do Egito". Isso me deixou intrigado: a astrologia, inventada na Mesopotâmia, só chegou ao Egito após a conquista da Dádiva do Nilo por Alexandre, lá por volta de 332 AEC. O mais famoso monumento egípcio s retratar temas astrológicos, o zodíaco de Dendera (hoje preservado no Louvre) data do primeiro século antes da Era Comum.

Já os monumentos de Gizé -- as três pirâmides principais e a Esfinge -- datam de cerca de 2.500 AEC. Seria curioso saber como a astrologia poderia ter influenciado a construção de monumentos egípcios mais de 2 mil anos antes de o povo egípcio ter contato com ela. No tempo das pirâmides, os egípcios sequer tinham constelações compatíveis com as do tradicional zodíaco astrológico.

Claro, isso não quer dizer que não haja influências astronômicas discerníveis nas pirâmides.Em uma série de artigos publicada na revista Sky & Telescope nos anos 90, o astrônomo Edwin C. Krupp cita trabalhos anteriores que sugerem que aberturas encontradas nas faces norte e sul da pirâmide de Quéops apontavam para as posições de estrelas importantes na religião egípcia da época, e eram passagens para que a alma do faraó pudesse comungar com os deuses representados por esses astros.

A Esfinge é mais ou menos da mesma época que as três pirâmides: acredita-se que seu rosto originalmente representasse a face do faraó Quéfren, responsável pela segunda maior pirâmide, que é superada em tamanho apenas pela de Queóps.

Alguns autores de pseudoarqueologia (ou "arqueologia alternativa") veem um rico simbolismo astrológico nessa escultura: ela representaria uma fusão dos signos de Leão e Virgem. Essa tese data, pelo menos, de 1899, tendo aparecido no livro Star Names and Their Meanings, de Richard Hinckley Allen, um guia popular (e não muito confiável) sobre a mitologia por trás dos nomes das estrelas.
O Zodíaco de Dendera

Hoje em dia, no entanto, não só já sabemos que o Egito do tempo da Esfinge e das pirâmides não reconhecia as constelações de Leão e Virgem (havia uma constelação de Leão no Antigo Egito, mas ela ficava em outra parte do céu e envolvia estrelas diferentes das que compõem o Leão zodiacal), como existem antigos textos egípcios traduzidos que trazem informações preciosas sobre o simbolismo original da Esfinge. Como explica Krupp, o  monumento, com sua face voltada para o leste -- a direção em que o Sol nasce -- é Horemakhet, "Hórus do Horizonte", a personificação do disco solar ascendente.

 Pseudoarqueólogos, no entanto, têm outras ideias. Se não chegam a concordar totalmente com os xenoarqueólogos (que veem influências alienígenas nos grandes monumentos do passado), também não hesitam em postular antigas civilizações por trás das antigas civilizações. Saem os ETs, entram os atlantes. Em uma série de livros publicados entre os anos 80 e 90 do século passado, fãs da hipótese de que a Atlântida seria a mãe do Egito tentaram vender a ideia de que as pirâmides e a Esfinge não só teriam um simbolismo astrológico, como teriam sido construídas muito antes da data oficial, por volta de 10.500 AEC.

 O argumento principal era o de que, nessa época, as pirâmides estariam perfeitamente alinhadas com as três estrelas que formam o Cinturão de Órion. Krupp e outro astrônomo, Anthony Fairall, demonstram, no entanto, que essa tese do alinhamento é falsa.

Assim como as três estrelas em Órion, as três pirâmides não estão perfeitamente alinhadas -- há um pequeno desvio numa das pontas. Krupp chama atenção para o fato de que, para haver uma possível correspondência entre as estrelas e as pirâmides, é preciso virar o mapa do Egito de ponta cabeça: a menor das pirâmides, a de Miquerinos, só corresponde a uma projeção sobre o solo da posição que a estrela Delta de Órion ocupava em 10.500 AEC se o mapa do céu estiver orientado para o norte e o do Egito, para o sul.

Já Fairall, escrevendo no periódico Astronomy & Geophysics, nota que mesmo com a inversão o resultado não seria tão bom: segundo seus cálculos, em 10.500 AEC, o Cinturão de Órion teria um desvio de 50º em relação à direção norte, enquanto que a linha que passa pela primeira e pela última das três pirâmides apresenta um desvio de 38º.

Hermes Trismegisto na Catedral de Siena
Os teóricos da Atlântida alegam ainda que em 10.500 AEC vigia a Era Astrológica de Leão. Com isso, sua data favorita ligaria não só as pirâmides a Órion como ainda a Esfinge ao zodíaco. Como explico em meu Livro da Astrologia, eras astrológicas referem-se à constelação do zodíaco que o Sol parece visitar no início da primavera do hemisfério norte, o chamado equinócio vernal. Essa constelação muda ao longo do tempo, por causa do deslocamento do eixo da Terra. Fairall, no entanto, calcula que, na época sugerida, o equinócio vernal ainda estaria solidamente em Virgem.

Um ponto interessante é que os vários anacronismos envolvidos nessas teorias -- por exemplo, atribuindo aos egípcios de 4.500, ou de 12.500 anos atrás, crenças astrológicas que só chegariam ao país milênios mais tarde -- não são novos. A Tradição Hermética da Renascença atribuía a um sábio egípcio chamado Hermes Trismegisto, que teria sido contemporâneo de Moisés ou, mesmo, dos patriarcas citados no Gênese, a criação da astrologia e da alquimia. Hoje em dia sabe-se, no entanto, que os textos atribuídos a essa figura mítica datam dos primeiros séculos da Era Comum -- são até mais recentes que o Zodíaco de Dendera.

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