Destaques do ano

Acho que já comentei em outras oportunidades que sou péssimo para fazer listas de melhores do ano -- basicamente, leio muito poucos lançamentos, então quase nunca tenho algo do ano corrente para recomendar a quem quer que seja. Mas se você não fizer questão de lançamentos e quiser, em vez disso, saber quais os livros que mais me impressionaram neste ano -- não importa se foram publicados originalmente em 2016, 2001 ou mesmo neste século -- aqui vão as dicas. Selecionei um de ficção, um de não-ficção e uma HQ.

Começando pela ficção:


Hoje em dia, o cool é recomendar romances, o que faz com que antologias e coletâneas de contos acabam subestimadas e subrepresentadas na maioria das listas. Mas não dá pra deixar de apontar este volume pantagruélico, editado por Otto Penzler (o dono da Mysterious Bookshop, uma simpátrica livraria de Nova York especializada em edições raras de livros policiais), como uma das coisas mais deliciosas já publicadas desde, sei lá, a Bíblia de Gutenberg.

"Locked Room Mysteries" é o nome genérico dado a histórias de crimes  "impossíveis" -- o tipo clássico sendo aquele em que o cadáver é encontrado esfaqueado numa sala sem janelas, trancada por dentro, e sem faca por perto. Penzler simplesmente reuniu o que de melhor e mais emblemático já foi escrito dentro dessas "regras", do pulp mais rasteiro à prosa mais refinada. É um testamento à imaginação humana,e um livro que deixa uma dor no coração quando acaba.

Não ficção:



John Scarne (1903-1985) foi um mágico e inventor americano que se especializou em desvendar truques usados para trapacear em jogos de azar. Seu "Guia Completo da Jogatina" (tradução aproximada do título original, Complete Guide to Gambling) é uma mistura de história do crime organizado nos Estados Unidos, divulgação popular dos princípios fundamentais da teoria das probabilidades e guia de regras e "pegadinhas" sobre praticamente qualquer coisa que envolva sorte e dinheiro, de par ou ímpar a pôquer. O estilo de Scarne, que escreve como se fosse um malandro de rua dos anos 30 (o que ele talvez tenha mesmo sido), é um toque extra.

E, agora, a HQ:


A Dynamite é uma editora americana de quadrinhos que vem se especializando em trabalhar com personagens licenciados -- isto é, criados e desenvolvidos por outras editoras, ou vindos de outras mídias. Suas histórias do Sombra geralmente merecem ser lidas; já seus esforços com Doc Savage e James Bond  têm sido menos bem-sucedidos. Mas esta minissérie sobre a origem de John Shaft, o detetive particular negro do Harlem criado originalmente por  Ernest Tidyman (1928-1984) é preciosa. Não só o roteiro de David Walker consegue ser aquela coisa rara -- uma história de ação que consegue ser também uma história de detetive inteligente, onde todas as partes se encaixam -- como o desenho de Bilquis Eveley  recaptura a textura das HQs dos anos 70. Lendo o quadrinho, de repente me vi pensando no traço do veterano Dick Giordano.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"