Eike e as estrelas

Meu Livro da Astrologia trata, em diversos pontos, da influência das previsões astrológicas na política, mas não falo sobre economia. Depois de ver a notícia abaixo na Folha de S. Paulo de hoje, no entanto, pergunto-me se não seria o caso de escrever um posfácio:


As pessoas talvez fiquem surpresas ao saber que investidores com bilhões em jogo dão atenção a coisas como mapas astrais, mas a verdade é que, quando se compara o mundo das altas finanças a um cassino, a metáfora está muito mais próxima da realidade do que o mito de um mercado regido por decisões racionais de agentes ideais bem-informados sugere. Sempre que risco e incerteza entram em jogo, a superstição nunca está muito longe.

Falando especificamente de "consultoria" financeira e administração de investimentos, sempre que se busca ir além do óbvio ditado pelo bom-senso, torna-se virtualmente impossível distinguir competência de simples sorte (ou venalidade, como em casos em que a posse de informação privilegiada cria uma vantagem real para alguém).

A longa lista de mega-gurus das finanças caídos em desgraça é, de certa forma, uma lista de apostadores que acabaram alcançados pela lei das probabilidades: nesse tipo de cenário, apelar para os astros pode ser tão (i)racional quanto dar ouvidos ao seu consultor cinco estrelas.

Artigo publicado em 2013 no Journal of Finance, de autoria de pesquisadores da Universidade de Oxford, aponta que os conselhos de consultores sobre a seleção de fundos para investir são, no geral, inúteis ou levemente prejudiciais: "não encontramos evidências de que os produtos recomendados superam, de modo significativo, outros produtos (...) determinamos que o retorno médio dos produtos recomendados é, na verdade, 1% inferior ao de outros produtos". Astrólogos dificilmente se sairiam pior.

Outro trabalho, publicado em 2008 no mesmo periódico, mostra que as performances de gestores de fundos recém-contratados (porque vinham se saindo muito bem no emprego anterior) e recém-demitidos (porque estavam indo muito mal) são estatisticamente equivalentes no longo prazo -- mais uma vez, indicando que sorte, e não competência, é o fator preponderante.

Para finalizar, deixo este vídeo para reflexão:


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