Pós-verdade em propaganda de jornal, pode?



Suponho que o calhau acima, publicado na Folha de São Paulo de hoje -- calhau, segundo o amigo Houaiss, é "notícia, artigo etc. utilizado para preencher espaço criado pela falta de material editorial ou por falha no cálculo da diagramação" -- faça referência à pesquisa sobre hábitos de leitura dos vestibulandos publicada pela própria Folha no ano passado. Só posso supor, porque o anúncio fala abstratamente em "pesquisa DataFolha", sem nenhuma outra referência para a fonte em questão. Não custa lembrar que até anúncios de cosméticos vagabundos que citam "pesquisas" em seu favor costumam trazer mais dados checáveis do que isso aí.

 Bem, imaginando que a pesquisa referenciada seja a mesma divulgada em novembro de 2016, vale repetir aqui o que escrevi a respeito, na época:

Aos números. Eles mostram que maioria esmagadora dos candidatos à Fuvest consome notícias online (85% dos aprovados, ante 78% dos reprovados, dentro da margem de erro declarada de 4 pontos), que 45% dos aprovados na Fuvest leem a Folha, especificamente (ante 43% dos reprovados), e que apenas 2% dos aprovados não leem jornal nenhum, mesma taxa dos reprovados e dos não-vestibulandos. Outro dado curioso é que, na classe C, 90% dos aprovados consomem noticiário online. Entre os não-vestibulandos, apenas 37% dos jovens disseram ler a FSP.
Então, 98% dos entrevistados disseram ler algum tipo de jornal. Uma maioria impressionante dos vestibulandos bem-sucedidos (17 de cada 20) consome informação via internet; e tanto a maioria dos aprovados (55%) quando dos reprovados (58%) não leem a Folha, sendo que a diferença entre os dois grupos, nesse quesito, está bem dentro da margem de erro declarada, de 4 pontos.
Nada disso sustenta a afirmação de que "quem lê a Folha tem índice de aprovação 44% maior". Os números mostram é que aproximadamente 45% dos aprovados da Fuvest leem a FSP. A implicação lógica disso é que a maioria, 55%, não lê a Folha. Se esse índice de 45% aponta alguma vantagem, ela opera a favor de quem não lê o jornal da família Frias.

Claro, isto está longe de ser uma inferência válida (58% dos reprovados também não leem a FSP, afinal: a conclusão correta, então, é de que a Folha não fede e nem cheira no que diz respeito à Fuvest), mas daí dá pra se ver aonde leva a lógica dos marqueteiros da Barão de Limeira. A conclusão mais robusta da matéria de novembro passado era de que ler algum jornal, independentemente da marca, parece ajudar a passar no vestibular. Mas mesmo isso é incerto. Recortando a própria Folha:




Alguns anos atrás uma corporação do ensino superior privado foi duramente criticada, e depois punida pelo Conar, ao fazer anúncios dizendo que era a escola de Direito que "mais aprovava na OAB", o que representava uma verdade em termos absolutos, mas não relativos -- afinal, uma escola que aprova na OAB mil alunos de um total de dez mil formandos está aprovando apenas 10% da turma, enquanto que uma que aprova nove de um total de dez formandos tem muito menos aprovados em termos absolutos, mas aprovou 90% da turma.

O que esse anúncio da FSP faz é ainda pior que a brincadeirinha numerológica da Unip. A menos, claro, que exista outra pesquisa DataFolha sobre consumo de jornais entre vestibulandos por aí. Mas então seria o caso de o anúncio trazer a referência, para as pessoas não ficarem pensando maldade.

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