Centenário de Fátima: considerações



Este sábado, 13 de maio, além de ser véspera do Dia das Mães, marca o centenário da primeira suposta aparição de Maria em Fátima. Embora essa aparição inicial tenha tido pouca repercussão pública na época (o famoso "milagre do Sol" só correria meses mais tarde, em outubro) foi ela que desencadeou o que depois viria a ser uma comoção popular em Portugal. Espera-se que dois dos três visionários sejam canonizados, como parte das celebrações deste centenário.A imprensa brasileira está batendo bumbo com o fato de que um dos "milagres" que tornou a canonização possível envolveu compatriotas, mas já escrevi sobre como "milagres" que levam à canonização de figuras populares são quase que estatisticamente inevitáveis.

Em meio ao fervor religioso que deve cercar a festa, é improvável que a mídia tradicional abra espaço para a discussão antropológica, política e científica do fenômeno. Então, tomo a liberdade de fazê-lo aqui. A primeira coisa importante é pôr a aparição em contexto. Como explica a antropóloga a Sandra L. Zimdars-Swartz em seu livro Encoutering Mary, Fátima segue -- e consolida -- uma espécie de "gabarito" de aparição mariana, inaugurado em La Salette, na França, nos anos 1840, que depois se repetiria em Lourdes e que acabaria sendo seguido ao longo do século 20. Esse gabarito é uma novidade, divergindo radicalmente das visões registradas nos tempos iniciais do cristianismo e na Idade Média, e que normalmente ocorriam em sonhos ou êxtases. Citando trechos de uma postagem anterior deste blog:

Nesse gabarito moderno, pós-Iluminista e pós-Revolução Francesa, a figura de Maria manifesta-se como uma aparição -- isto é, como um objeto concreto, integrado ao ambiente -- e não como uma visão, algo que surge num estado alterado de consciência, num êxtase místico ou vem num sonho; os principais videntes são crianças ou adolescentes, preferencialmente do sexo feminino (e não padres, monges, apóstolos); a aparição se dá num espaço aberto, não numa cela, quarto, dentro de uma igreja, num claustro; o fenômeno é serial (as aparições se repetem ao longo de vários dias); e é público, no sentido de que, à medida que os episódios se repetem, mais e mais pessoas se juntam em torno dos videntes e, por meio deles, tomam conhecimento das mensagens da santa.


Aqui, aliás, há um detalhe importante, que às vezes é minimizado, e que certamente será muito pouco mencionado neste centenário: só quem vê e ouve a figura sobrenatural são os videntes eleitos -- geralmente crianças e, quase sempre, liderados por alguém do sexo feminino. As multidões ao redor apenas olham para o vazio e esperam que os escolhidos narrem o que a imagem faz e reportem o que diz.

Sob esse um ponto de vista, acreditar numa aparição equivale a acreditar no que uma criança relata a respeito dos gestos e palavras de uma amiga imaginária. No caso específico de Fátima, das três crianças envolvidas, apenas uma, Lúcia, foi capaz de ver, ouvir e falar com Maria. De acordo com os depoimentos, dos outros dois videntes Jacinta ouvia a santa, e Francisco apenas via aparição. Discuto esse aspecto da aparição -- bem como o chamado "milagre do Sol" de outubro, e os infames "três segredos" -- em mais detalhe no meu Livro dos Milagres.

Também vale a pena notar que fenômenos desse tipo vivem um processo contínuo de ressignificação e apropriação por forças políticas e ideológicas. Em seu contexto original, Fátima teve impacto por prever o final iminente da Primeira Guerra Mundial (o que, aliás, não aconteceu) e, também, por se dar num momento de grande agitação da cena política portuguesa: em 1908, o rei Carlos I e seu filho mais velho, Luís Felipe, haviam sido assassinados num ato público de terrorismo. Dois anos depois, em 1910, uma revolução levou à abolição da monarquia e ao estabelecimento da República. O país se clivava entre direita católica e esquerda anticlerical.

Durante décadas, Fátima foi um fenômeno estritamente português ibérico, mas que veio a ganhar repercussão internacional no contexto da Guerra Fria, quando foi mobilizado contra o "comunismo ateu". Nesse momento, a previsão errônea de que a Grande Guerra acabaria imediatamente foi varrida para debaixo do tapete e outras previsões e os famosos "segredos", com seu tom apocalíptico, ganharam proeminência.

Por exemplo, geralmente é bem pouco divulgado que Lúcia -- a única vidente a sobreviver à infância -- esperou até 1941 para avisar que Maria havia previsto, lá em 1917, uma Segunda Guerra Mundial. O suposto pedido original de Maria para a consagração da Rússia (que teria ocorrido em 13 de julho de 1917, numa antevisão miraculosa da ascensão bolchevique e sua ameaça aos valores religiosos tradicionais) também só foi descrito nas memórias publicadas por Lúcia em 1941.

Mais de um comentarista já chamou atenção para o fato de que forças retrógradas e autoritárias têm muito mais facilidade em utilizar aparições marianas para avançar seus objetivos do que as linhas de pensamento mais progressistas.

O livro Under the Heel of Mary (literalmente, "Sob o Tacão de Maria") descreve a manipulação da devoção mariana por forças fascistas, como o regime de Franco na Espanha. Escrevendo em 1988, os autores, Nicholas Perry e Loreto Escheverría, apontam uma "crise de identidade aguda" na figura de Nossa Senhora, à medida que forças progressistas começavam a se articular "para tirar vantagem de seu culto". Era a é poca em que o choque entre a Teologia da Libertação e a ortodoxia caminhava para o clímax (o cardeal Joseph Ratzinger, futuro papa Bento XVI e, na época, chefe da versão repaginada da Inquisição, a Congregação para a Doutrina da Fé, começou a demonstrar oficialmente seu desconforto com os teólogos latino-americanos por volta de 1983).

Será interessante ver que significados o papa Francisco tentará extrair deste centenário. Visto como um líder bem mais liberal que seus antecessores imediatos, Francisco presidirá a festa de um símbolo historicamente associado ao mais renitente conservadorismo, quando não à reação pura e simples.

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