Debates científicos: quanto é o bastante?



Um cacoete bastante comum no mundo das pseudociências é o apelo à prova final que está logo ali na esquina -- mais um experimento, mais uma bolsa do CNPq, mais uma análise estatística e o mundo cairá aos nossos pés (ou, melhor dizendo, aos pés lá deles). Se ao menos esses céticos pentelhos não ficassem sabotando...

Duas variações populares do tema são a da conversão iminente -- já temos provas suficientes e o consenso da comunidade científica está prestes a se transformar, espere só mais um bocadinho -- e a da novidade redentora: vocês vão ver como, daqui a pouco, a física quântica (ou a teoria do caos, ou a lógica paraconsistente, ou qualquer que seja o novo craque em campo) vai provar que nosso Mestre estava certo o tempo todo!

Não há nada de essencialmente errado nesse tipo de alegação, é bom reconhecer. Às vezes acontece de aparecer um visionário anunciando uma revolução científica iminente e, pimba!, a revolução vem. O problema é: quanto tempo é o bastante? Qual a hora de parar de esperar por um trem que não chega nunca?

Faz uns 100 anos que a corrente principal da ciência cansou do espiritismo, e pelo menos 40 que a parapsicologia saiu para escanteio, após a publicação de um embaraçoso artigo sobre Uri Geller na Nature, em outubro de 1974. É verdade que houve um pequeno "soluço", no início desta década, por conta dos experimentos do psicólogo Daryl Bem que supostamente documentavam uma capacidade paranormal de prever o futuro. Um resultado inesperado do frisson causado por Bem foi lançar holofotes sobre os severos problemas metodológicos que afetam a psicologia experimental.

Isso não significa que não exista ainda gente de jaleco por aí esperando Godot, claro, mas seus trabalhos costumam circular em nichos restritos e, salvo quando resgatados da obscuridade por uma imprensa ávida por audiência, não chegam a afetar o dia-a-dia dos mortais comuns. O pessoal no acostamento proclama a derrubada do paradigma reducionista-fisicista-materialista-evolucionista enquanto a caravana científica passa. Mas há exceções. Homeopatia, por exemplo, que é levada a sério como prática médica por uma multidão de desavisados.

A recente "Guerra Homeopática" nas páginas do Jornal da USP (sobre a qual escrevi aqui) é um mostruário virtualmente completo de variações do argumento "daqui a pouco chegamos lá". Ao artigo crítico que proclama a homeopatia como uma farsa, vieram duas manifestações diversas saídas do mesmo molde (para quem quiser conferir, esta e esta).

Com a vantagem didática extra de que a primeira manifestação inclui ainda uma clássica combinação das falácias do apelo à tradição e do apelo à popularidade ("A homeopatia tem provas dadas de sua capacidade de resistência, através da firme convicção de seus usuários e praticantes" -- o pessoal das sangrias, da astrologia e do mesmerismo poderia dizer o mesmo!), enquanto que a segunda traz uma manifestação fresquinha do apelo à pesquisa irrelevante.

Esse estratagema é definido como "a agregação ativa de diversas pesquisas questionáveis ou apenas perifericamente relacionadas, numa tentativa de justificar a ciência subjacente a uma alegação", estratégia aparentada da "abordagem sacoleira da evidência", que toma quantidade por qualidade. No caso, a sacola é tão grande que inclui até um estudo que diz que certos estudos sobre homeopatia são realmente muito ruins. Sério. Clica aí e dá uma olhada.

O direito da homeopatia de reivindicar a paciência do mainstream científico foi simbolicamente cassado pela revista Lancet em 2005 mas, claro, não existe "cassação" formal e, mesmo se houvesse, a inércia é grande. Mas é importante que cada vez mais gente perceba que o debate científico já deu o que tinha que dar, para que o outro debate --  de políticas públicas e alocação de recursos de pesquisa -- possa começar pra valer.

Comentários

  1. "Qual a hora de parar de esperar por um trem que não chega nunca?"

    Talvez dê pra combinar uma probabilidade bayesiana com cálculo da expectativa de retorno.

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Ekes vivem de cherry picking e nose counting.

    É a síndrome de Fox Mulder: Eu quero acreditar. Aí começam os contorcionismos retóricos espetaculares na tentativa de convencimento dos incautos como massa de manobra.

    O pior é que vejo gente bem formada acreditando em cada gororoba! Quando confrontadas com as regras mais elementares da lógica, a saída é sempre algo do tipo "o que é real?" ou algum caso anedótico que dizem ter vivido em primeira mão.

    E a acupuntura, Orsi? O que tem a nos dizer??

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    Respostas
    1. Rafael, esse assunto "espinhoso" eu tratei aqui: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI345405-17770,00-ACUPUNTURA+BENEFICIOS+DA+TECNICA+SAO+COMPARAVEIS+AO+EFEITO+PLACEBO.html

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