Mijo de cavalo e a derrota da Anvisa



"Pode ser mijo de cavalo, não ligo. Funciona". A frase teria sido dita pelo presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, quando lhe informaram do conteúdo das injeções estimulantes que o médico alemão Max Jacobson lhe aplicava regularmente: anfetaminas, hormônios, analgésicos, esteroides y otras cositas más. Não é muito difícil imaginar o espírito de Jacobson, cuja "injeção mágica" provavelmente ajudou a destruir a vida de gente como Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, pairando, em bênção, sobre o presidente da Câmara e presidente em exercício da República, Rodrigo Maia, durante a sanção da lei que passou por cima da Anvisa e liberou o uso de inibidores de apetite à base de anfetaminas no Brasil.

Sobre os detalhes da decisão legislativa brasileira e seu "embasamento" técnico, o editorial deste sábado da Folha de S. Paulo é sucinto e direto ao ponto:


Algo que deve (ou deveria) dar margem a análises mais aprofundadas  é o papelão das entidades de classe da Medicina brasileira neste episódio, patrocinando, com seu prestígio (que o episódio sugere ser exagerado), um perigoso precedente de violação das prerrogativas da Anvisa.

Os sistemas nacionais de vigilância sanitária e controle de medicamentos são fruto de quase um século de luta morro acima contra o poder de pressão de indústrias poderosas (nos EUA, por exemplo, a FDA foi proibida de regulamentar "suplementos alimentares"), do clamor popular (quem sofre está disposto a tentar de tudo e se ressente de barreiras, como Kennedy e seu "mijo de cavalo") e dos delírios libertários de gente que acha que o mercado anárquico sempre produz o melhor resultado possível (no século 19, era de ouro do capitalismo desregulado, os pais tinham a opção de comprar na farmácia xaropes de ópio com conhaque para acalmar crianças rebeldes). Qualquer movimento que legitime a transferência dos poderes desse sistema, da esfera técnica para a política, é um furo no dique que mantém represados os xaropes de ópio para crianças malcriadas e os óleos de cobra contra o câncer.

Quando o Congresso vier a liberar uma nova fosfoetanolamina ou outra curandeirce qualquer por decreto, que autoridade moral essas entidades esperam ter para se posicionar contra? Ah, não vão se posicionar contra: vão apenas reivindicar exclusividade e reserva de mercado, como tentaram fazer com a acupuntura.

Comentários

  1. Anos atrás essa mesma loucura congressista levou à proibição da Salvia divinorum e das salvinorinas com "base" tão somente em notícias precárias de tom marrom divulgadas pela mídia para caçar cliques.

    Basta uma revisão rápida da pouca pesquisa que existe lá fora sobre a salvinorina para entender a sua importância ao revelar novos mecanismos cerebrais, ao apresentar um inovador efeito antidepressivo e ao demonstrar não ter qualquer potencial viciante (um dos critérios para ser tratada como as drogas que queremos combater).

    Tanto é que não se trata de uma droga que, por estar proibida ou não, caia nas malhas do tráfico de drogas. Quando muito, pode haver um mercado negro de baixíssima penetrabilidade no estrato social.

    Logo, fica a pergunta: de qual mal o Congresso buscou nos proteger ao proibir a "perigosíssima" Salvia divinorum e seus princípios ativos?!?

    Vendo tudo isto e o LuLLa como favorito para 2018, fica a pergunta que não quer calar de verdade: como nos livrarmos de todos esses corruptos??

    O Brasil está caminhando a passos largos rumo à venezuelização.

    Nesse andor, em 2025 estaremos disputando papel higiênico e pasta de dente nas mãos de traficantes, mais eficientes que o próprio Estado...

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