Perguntam-me sobre orgonite...



Um amigo no Facebook me marca numa postagem e sugere, "discorra sobre o orgonite". Até acessar a postagem eu jamais tinha ouvido falar na palavra, mas a morfologia traz pistas: há a semelhança fonética com "orgone" (ou "orgônio"), a suposta energia sexual universal postulada pelo revolucionário, louco e/ou charlatão (mais sobre isso à frente) Wilhelm Reich; e há o sufixo inglês "ite", em português, mais propriamente, "ita", que costuma aparecer no nome de rochas e minérios (cassiterita, hematita, pirita, etc.). Então, seria uma pedra relacionada ao orgone?

Exatamente -- como este link, por exemplo, revela. Agora, como "discorrer" sobre isso? Apenas dizer "mais uma bobagem" deve soar insatisfatório para quem está lendo. Mergulhar na vida e na obra de Reich em busca do momento em que ele cruzou a barreira entre pensador instigante e doido de pedra é assunto para teses universitárias (e imagino que deva haver algumas dúzias já, a respeito). Apontar, passo a passo, os erros e vises cognitivos embutidos na teoria do orgônio também dá um livro. Mas suponho que seja possível fazer um resumo aqui, dando especial ênfase no que me parece o erro fundamental da maioria das teorias vitalistas -- que postulam a existência de "energias vitais": a confusão entre fato e metáfora.

A ideia de "energia vital", de um "sopro" fundamental que separa o vivo do não-vivo, o animado do mineral, é mais ou menos intuitiva e aparece no pensamento de diversos povos e civilizações, com diferentes nomes -- chi, ki, prana, élan vital -- que um leitor pode se sentir tentado a perguntar: é concebível que tantas tradições, tantos sábios, estivessem tão errados por tantos milênios? Se o amigo leitor não resistir à tentação e formular a pergunta, a resposta é: Sim. Estavam errados. Toda essa gente, durante todo esse tempo. Engraçado, né?

Os livros escolares da minha época costumavam dizer que a o golpe de misericórdia na teoria do élan vital havia sido desferido pelo experimento dos frascos de pescoço de cisne de Louis Pasteur, realizado no século 19, mas a verdade é que, com o avanço das diferentes ciências -- física, química, biologia, medicina --, a ideia de que a geração de vida e a manutenção da saúde dos seres vivos dependem de uma força natural (ou sobrenatural) diferente das que atuam sobre a matéria "comum", inanimada, se mostrou tão inútil e desnecessária quanto a de que a luz precisa de um meio intangível chamado éter para se propagar, ou a de que o peso do planeta Terra é sustentado por um elefante apoiado nas costas de uma tartaruga.

A questão, no entanto, é que a ideia de energia vital continua a ser útil como metáfora. Uma espécie de taquigrafia: quando entramos num ambiente que produz calma e serenidade  -- talvez por conta de seu esquema de cores, acústica, vista da janela, temperatura -- em vez de analisar e descrever esses elementos, dizemos apenas que ele tem uma boa energia. Do contrário, que há uma energia pesada. Quando um idoso sensei de artes marciais, com décadas de treino, aplica uma leve torção no pulso de um aluno mais jovem e muito mais forte e, com isso, paralisa por completo um dos braços do estudante, ele pode descrever isso como o produto de uma longa experiência com leitura muscular, aplicação da força exata no ponto preciso, pressão psicológica (implícita na relação mestre-discípulo) e alinhamento articular -- ou como o uso do ki.

O problema começa quando as pessoas se esquecem de que essa "força vital" é uma metáfora, uma taquigrafia usada para juntar e resumir um monte de outras coisas, e começam a tratá-la como um dado objetivo da realidade. Aí os velhos frutos do vitalismo ultrapassado, do feng shui ao reiki, passando pela homeopatia, reaparecem. E alguns frutos novos brotam. Como é o caso do orgônio.

 Discípulo de Sigmund Freud, o também austríaco Wilhelm Reich (1898-1957) levou a ideia freudiana de que problemas psicológicos são causados por repressão sexual, e de que a civilização é fundada na repressão do desejo sexual, a extremos que o mestre nunca havia imaginado. A forte associação entre liberdade política e liberdade sexual -- e repressão política e repressão sexual -- que aparece em seus trabalhos no início dos anos 1930 deu-lhe a honra de ser perseguido e atacado tanto por comunistas quanto por fascistas.

A ideia de que uma vida livre e saudável é impossível sem bons orgasmos também não agradou às lideranças religiosas, e Reich conquistou o galardão de ser detestado por, basicamente, todas as estruturas ideológicas de poder de sua época. A  criação da frase "revolução sexual" é comumente atribuída a ele.

No final da década, já vivendo nos Estados Unidos, o pensador convenceu-se de que uma forma de energia cósmica, vital, que chamou de orgônio, manifestava-se nos orgasmos. Com o passar dos anos, ele veio a enxergar no orgônio e suas supostas manifestações a explicação para tudo -- mesmo a meteorologia seria afetada pelo "campo orgônico" do planeta Terra (seria possível fazer chover sugando o orgônio presente nas nuvens), e os óvnis estariam aqui para roubar o nosso orgônio. Ele criou canhões de tecnologia orgônica para sugar a energia vital das naves alienígenas e, assim, derrubá-las.



Reich insistia que auras e partículas carregadas de orgônio e auras orgônicas ao redor de células vivas eram visíveis ao microscópio, mas os fenômenos descritos por ele são melhor explicados pelo movimento browniano (causado pela agitação térmica das partículas) e por aberrações cromáticas (distorções produzidas pela lente do instrumento).

Uma das ideias de Reich sobre o orgônio era o de que ele é atraído por matéria orgânica, e refletido por metais. Isso o levou a inventar câmaras acumuladoras de energia, cabines revestidas por camadas alternadas de metal e madeira. Uma pessoa sentada dentro de uma delas receberia uma carga orgônica extra.Ele pediu a Albert Einstein, no início da década de 1940, que testasse um acumulador em miniatura, e Einstein fez isso -- sem encontrar nenhum efeito que não pudesse ser explicado por variações naturais de temperatura ambiente.

A insistência de Reich em oferecer terapias baseadas em seus acumuladores orgônicos o colocou em rota de colisão com a FDA (a Anvisa dos Estados Unidos) e, finalmente, com o FBI. Em 1956, uma ordem judicial para a destruição dos acumuladores ilegais e de material promocional relacionado levou a uma queima de livros de autoria de Reich e, acredita-se, a um agravamento de seu estado mental. Acabou morrendo numa penitenciária, preso por desrespeitar a ordem judicial que proibia a venda de acumuladores de orgônio.

E onde a orgonite entra nisso? Bom, essas "pedras de orgônio" na verdade são estruturas artificiais, em forma de cubo, cilindro ou pirâmide e que alternam, numa matriz de fibra de vidro, camadas de metal e matéria orgânica  -- sacou? -- e, num sinal de reconhecimento da moda New Age, alguns cristais, supostamente para "filtrar" o orgônio ruim.

Mesmo para quem leva as teorias orgônicas de Reich a sério, sua utilidade é duvidosa: o paciente reicheano deveria ficar dentro do acumulador, não ficar olhando para um em cima da mesa. E tanto a fibra de vidro quando os cristais não fazem parte da visão ortodoxa. Mas orgonitas coloridas podem funcionar como objetos de decoração -- se você gosta desse tipo de coisa.

Comentários

  1. Excelente texto, Carlos!

    Destaco o seguinte trecho (que achei muito interessante por ser praticante de uma arte marcial):

    "Quando um idoso sensei de artes marciais, com décadas de treino, aplica uma leve torção no pulso de um aluno mais jovem e muito mais forte e, com isso, paralisa por completo um dos braços do estudante, ele pode descrever isso como o produto de uma longa experiência com leitura muscular, aplicação da força exata no ponto preciso, pressão psicológica (implícita na relação mestre-discípulo) e alinhamento articular -- ou como o uso do ki."

    O universo das artes marciais é repleto de crendices e "pseudagens". Muitos professores recorrem a explicações metafísicas, espirituais e "energéticas" quando repassam aos seus alunos conhecimentos de uma determinada arte marcial.

    Uma pesquisa rápida na internet por termos como "Ki (ou chi) Projection" ou "EFO (Empty Force) nos mostra um exemplo da grande quantidade de bobagem divulgada por alguns professores.

    Tenho sorte de treinar numa academia que não compartilha dessa linha "esotérica" das artes marcias.
    Mas tem muita gente por aí sendo iludida.

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    1. Artes marciais, principalmente as que exigem muito treino e experiência para serem dominadas (em oposição às técnicas de luta/defesa pessoal mais rápidas e eficazes) acumulam um conhecimento "primitivo", ou "prático", sobre diversos fenômenos físicos contraintuitivos, como a diferença entre momento linear e energia, a conservação do momento angular, etc. O vocabulário esotérico funciona, até certo ponto, dando nome e sentido a essas coisas. O problema aparece quando (inevitavelmente) alguém resolve levar os conceitos por trás do vocabulário a sério...

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    2. Sim, Carlos.
      Perfeita a sua colocação​.

      Felizmente, a medida que os mestres/professores foram se profissionalizando (hoje muitos são formados em Educação Física, Fisioterapia, Ciencias do Esportes, etc.) parte desse discurso esotérico foi sendo gradativamente substituído por conceitos fundamentados na Física e na Biologia (como a Biomecânica).

      No fim, quem estuda artes marciais realmente a fundo percebe que não existe mágica, energia vital, premonição ou telepatia. O que existe é muito conhecimento acumulado sobre o funcionamento mecânico do corpo.

      "Scientia potentia est". :)

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  2. Para essa parte esotérica com certeza é bobagem, mas é comprovado cientificamente que os orgonites diminuem bastante a radiação eletromagnética do meio. Acho isso interessante para saúde principalmente para as pessoas mais sensíveis aos efeitos do eletromagnetismo.

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