Aquecimento global: notícias do "front"



Algo que notei em tempos recentes é que, enquanto o combate ao negacionismo climático consome tempo e paciência da pequena comunidade brasileira de divulgação científica (o caso do Pirula, com quem conversei no início da semana, é apenas o mais recente e emblemático), um monte de ciência séria continua a ser feita a respeito da mudança climática e de seus impactos, e nós divulgadores acabamos não dando tanta atenção para ela; ficamos meio obcecados com o ladrar dos cães, e não vemos a caravana passar.

Por conta disso, resolvi fazer aqui um apanhado do que de mais importante publicações científicas sérias, revisadas por pares, andaram dando sobre o assunto -- só na última semana. Vamos nessa?

Começando pelo mais recente: Estados Unidos, China, Índia, Vietnã, Tailândia, Laos, Bangladesh, Mianmar e as duas Coreias correm grave risco de ver seus rios poluídos com excesso de fertilizantes -- causando o efeito conhecido como eutrofização, que provoca grande mortalidade de animais e plantas e grave impacto ecológico -- por causa das alterações nos regimes de chuvas trazidas pela mudança climática. O efeito é previsto em artigo publicado na edição de hoje da revista Science.

De autoria de pesquisadores de Stanford e Princeton, o trabalho analisa as previsões de mudança de regimes de chuvas de 21 modelos climáticos, em três cenários de emissão de CO2 (de mitigação agressiva a "business-as-usual") e conclui que  a descarga de nitrogênio nos rios de diversas partes do mundo, mas principalmente nos da América do Norte, vai aumentar de modo preocupante até 2100. Artigo de opinião que acompanha a peça científica aponta a urgência de se elevar a eficiência do uso de fertilizantes -- aumentando a produtividade rural por unidade de nitrogênio aplicada -- e define a situação do seguinte modo:

"Emissões de carbono e nitrogênio da agricultura estão entre as mais difíceis de reduzir. No setor energético, a humanidade precisa executar apenas uma ação: parar de queimar combustíveis fósseis. E, ao menos em princípio, há alternativas limpas. Na agricultura, muitas ações diferentes são necessárias. Não há alternativa à alimentação". 

Entre as tecnologias sugeridas para, talvez, dar conta do recado estão variedades geneticamente modificadas e mudanças no processo de tratamento de esgoto.

Na última terça-feira, Nature Communications, do Grupo Nature, trouxe um artigo de um grupo de pesquisadores franceses sobre o impacto do aquecimento global na qualidade do ar na Europa. O resultado? Nada bom: um aquecimento de 3º C, até meados deste século, poderá jogar por terra todo o esforço feito para mitigar a poluição por ozônio de baixa altitude. No alto da atmosfera, o ozônio é um gás essencial para proteger o planeta dos raios ultravioleta do Sol, mas em baixas altitudes (onde há pessoas respirando) a presença do ozônio é má notícia. Você talvez se lembre de ter visto em algum lugar que é preciso manter o aquecimento global neste século abaixo dos 2º C, mas o fato é que essa meta está cada vez mais difícil de ser atingida.

Bem, estes são artigos que tratam de modelos para o futuro. E quanto ao presente? No início da semana, Nature Climate Change (um periódico inteiro dedicado à mudança climática -- ah, a conspiração!) trouxe artigo de pesquisadores da China, Austrália e Estados Unidos sobre o estado atual da elevação do nível dos mares. As notícias não são boas: a elevação do nível médio global dos oceanos vem acelerando, e passou de 2,2 milímetros ao ano, em 1993, para 3,3 milímetros ao ano, em 2014. Ainda segundo o artigo, a contribuição do derretimento da capa de gelo da Groenlândia para a elevação do nível global passou de 5%, em 1993, para mais de 25% em 2014.

Este é um artigo especialmente interessante porque lida de modo escrupuloso com uma série de incertezas e aparentes inconsistências nos dados, que vêm de fontes diversas, incluindo, principalmente, medições de satélite, e identifica e compensa vários fatores de confusão. "Este fechamento aproximado, mas aperfeiçoado, do orçamento do nível do mar de 1993 a 2014 é um progresso em relação ao Quinto Relatório de Avaliação do IPCC", escrevem os autores, "e eleva a confiança em nossas observações e compreensão das mudanças recentes no nível do mar".

Para fechar o ciclo de sete dias, na semana passada a Science trouxe um interessante artigo em que pesquisadores de Stanford, Berkeley e Louvain, entre outras instituições, descrevem o teste controlado de uma "bolsa-carbono" -- pagamentos feitos a moradores de áreas rurais de Uganda para que evitassem desmatar. O resultado foi positivo: áreas onde houve pagamento não só tiveram menos emissão de carbono que áreas sem o incentivo, como houve outros benefícios: "os pagamentos reduziram o desflorestamento, e os proprietários não compensaram cortando árvores em florestas próximas. Além disso, mesmo num cenário em que o corte é retomado após o fim dos pagamentos, o adiamento benéfico na liberação do CO2 das árvores cortadas, quantificado pelo custo social do carbono, superou o custo monetário".

Enfim, este é o estado da ciência atual sobre mudança climática, tal como praticada por pesquisadores de instituições de boa reputação e publicada em periódicos de primeira linha: discussões não sobre se o fenômeno do aquecimento global antrópico existe, e sim sobre quais suas consequências, como melhor quantificá-las e se é possível evitá-las.

(Ah, sim: quem quiser ver o que já escrevi sobre a suposta "polêmica" e temas correlatos pode achar coisas aquiaquiaqui e aqui; quem quiser um apanhado geral das falácias negacionistas e dos dados e argumentos que as derrubam, este site é o canal.)

Comentários

  1. Artigos, embora publicados, mas baseados em "modelos climaticos"?.Que modelos são esses? Quem escreveu os códigos? Quais as variáveis utilizadas neles? Programas de computadores fazem o que vc manda, vc decide quais variáveis entram ou saem...colocaram a variação da atividade solar, temperatura e emissão de gases dos oceanos, influencia do ciclo nodal lunar nos próximos 100 anos, do nível de vapor de água na atm, das áreas desérticas, da variação das calotas polares, da influência de raios cósmicosn, a variação do eixo terrestre etc..? Tem certeza que esses modelos contém todas as variáveis que ocorrem na natureza para simular o clima? Sobre a "bolsa carbono", quem vai pagar se isso fosse colocado a nível global? De onde sairá o $$? Com certeza do seu, do meu e de todos, querendo ou não (no caso eu não quero) simplesmente para dar esmolas a alguns para que estes não se desenvolvam por si só. Entenda, não sou de maneira nenhuma a favor da destruição de biomas, mas tb sou contra a estagnação do desenvolvimento humano. Não to afim que voltem as carroças, que não possamos mais voar pelo mundo etc ..

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  2. Os modelos não são criados aleatoriamente: são não só revidados por especialistas, como também passam por testes (por exemplo, se lançados os dados de 1900 em diante, eles reproduzem as observações feitas nesse período?). Quanto à bolsa carbono, ela funcionou em Uganda. Em outras partes do mundo, ainda precisa ser avaliada. Quanto ao custo, pelo menos nesse caso ela custou menos do que custaria consertar os danos que adviriam do desmatamento.

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    1. Ok...vamos lá..

      Modelos climáticos: Vc ainda não respondeu se, nesses programas, estão TODAS as variáveis existentes na natureza, terrestres e extraterrestres. O código fonte é disponibilizado e revisado? Tenho acesso à todas as linhas de programação? Como vc deve saber, um programa só faz aquilo que vc determine que ele faça. Posso eliminar as variáveis que não me interessam, relacionar qqr gás", ou qqr outra coisa, com temperatura e obter o resultado "esperado" e, se eu nao liberar o codigo fonte utilizado, vc não terá condições de dizer que estou errado ou certo.
      Outra: quem provou a relação entre CO2 e aumento de temperatura global? Há um artigo na Science (Analysis of the Temperature Oscillations in Geological Eras by Christopher R. Scotese. Vol.309, No 5734; pp 600-603, 22 july 2005), onde o gráfico mostra desde o Pré-Cambriano atá os dias atuais a oscilação da temperatura e níveis de CO2 na atm. Nele não se vê um nexo causal no aumento da concentração de CO2 e aumento de temperatura global. Exemplo: a 439 milhões de anos (Siluriano), a concentração de CO2 era de 2240 ppm e a temperatura era cerca de 10 graus abaixo das de hoje, ao passo que no Permiano (245 milhões de anos) o CO@ era de 210 ppm e a temperatura era os mesmo 10 graus mais alta do que hoje. Nesse mesmo gráfico fica evidente uma resposta do CO2 à temperatura e não o contrário, explicado pela relação inversa da solubilidade dos gases na água dos oceanos.

      Bolsa-carbono: vc confunde proteção de biomas ou florestas com temperatura global, CO2 e efeito estufa...uma salada total. Um financiamento a povos obres que vivem da floresta como forma de protegê-las (as florestas) é valido. Isso acontece na savana africana, onde foi mostrado aos nativos que é melhor conservar o bioma e atrair o turismo, gerando mais recursos com os animais vivos do que mortos do que matá-los. Mas como "freio"ao carbono, nem aqui, nem em Uganda e nem em lugar nenhum. Como o mundo pagaria isso, repito? Mesmo que seja custo baixo...baixo quanto? multiplique esse "baixo"pelo globo todo. Aqui no Brasil, por exemplo, tem certeza que é viável aplicar isso à Amazônia e ao cerrado? No cerrado brasileiro, por exemplo, está uma das principais zonas produtoras de alimentos do mundo e como compensar a todos que vivem disso, inclusive o agronegócio? Seríamos uma nação de esmoleiros e esfomeados e, mais uma vez, de onde viriam os recursos? Não seria melhor utilizar todo esse fundo que o acordo de Paris quer levantar para algo útil, como saneamento básico, despoluição de rios e mares, programas de exploração sustentável de áreas naturais e tecnologia na produção de alimentos? Aqui em SP, por exemplo não se consegue limpar 50 km do rio Tietê, mas o homem quer baixar a temperatura global em 2 graus em 100 anos....que inutilidade...não quero o meu dinheiro nessa aventura sem fundamento.
      Vilanizou-se o CO2 de uma tal maneira que existem planos de tentar retirar todo o CO2 da atm...loucura total...sem ele, não haveria vida alguma. estudos já demonstraram que numa atmosfera controlada, adicionando CO2, as plantas produzem cerca de 30% a mais. Vide às mega faunas que existiram na Terra, coincidindo exatamenete com períodos de alta concentração de CO2 na atmosfera.
      O Brasil nunca iria cumprir uma meta dessa, por exemplo, pois o cerrado tem incêndios todos os anos, na maioria de causas naturais. Sempre foi assim, pesquise como o cerrado se regenera. Ele necessita do fogo para recolocar nos nutrientes no solo e "ativar" as sementes que ficam latentes esperando esse fogo para germinar.
      Mais uma vez eu falo: não estou pregando a destruição de nada, eu somente enxergo a capacidade da natureza de se regenerar e de se sustentar sozinha e que o homem não é nada perto do tamanho dela, ele somente é mais uma peça totalmente descartável.
      Se eu pudesse escolher se queria o aquecimento ou um esfriamento global, escolheria o aquecimento, pois o homem não sabe viver no frio...toda sua história evolutiva se resume a esse interglacial em que nós estamos vivendo.

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    2. Então, por partes:

      Modelos: Eles não precisam, integrar todos os fatores que talvez, quem sabe, concebivelmente, podem afetar o clima, da mesma forma que as equações usadas para calcular a estrutura de um prédio não precisa levar em conta a gravidade do planeta Vênus. O que eles precisam é ser consistentes com as observações -- há modelos que reproduzem corretamente as temperaturas observadas ao longo do século 19, por exemplo. Os modelos também podem ser calibrados para integrar mais ou menos "forçantes", que é como são chamados os fatores que afetam o clima. Se um modelo que exclui uma determinada forçante "X" não bate com as observações, a forçante é integrada e o modelo roda mais uma vez, e assim por diante. E, sim, os códigos-fonte estão disponíveis para revisão. Muitos deles são construídos colaborativamente. É só procurar no Google.

      Variabilidade do CO2 e da temperatura: como disse, ninguém nega (e os modelos levam em conta) a existência de diferentes forçantes no sistema climático. E forçantes diferentes podem vir a predominar em diferentes períodos -- a radiação o Sol, a cinza vulcânica, o CO2, a cobertura de gelo (que afeta o albedo). Por isso que um gráfico geral da história do clima não apresenta, à primeira vista, uma correlação direta entre CO2 e temperatura, mas um olhar mais cuidadoso mostra que há correlações: por exemplo, houve um "resfriamento global" após o surgimento das primeiras grandes florestas (as árvores retiraram carbono do ar); e quando algum evento de aquecimento (por exemplo, um aumento no output solar ou uma oscilação na órbita da Terra) estimulava a liberação de CO2, a elevação da temperatura acelerava em seguida. Já que estamos citando literatura, o artigo "Global warming preceded by increasing carbon dioxide concentrations during the last deglaciation" (Shakun et al, Nature 484, 49–54 (05 April 2012) doi:10.1038/nature10915) mostra bem esse efeito.

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    3. O fato, no entanto, é que *atualmente* (nos últimos 200 anos, mais ou menos) a forçante que domina o sistema climático é a concentração de CO2 na atmosfera. Sabemos disso porque ela é a única que varia de modo consistente com a temperatura. A radiação solar, por exemplo, está numa fase de baixa, mas o planeta continua a esquentar. É como um livro de Agatha Christie: você tem dez suspeitos, mas se nove deles têm álibis e o décimo foi visto entrando no quarto da vítima na hora do crime, o que se conclui?

      Bolsa carbono: desculpe, mas aqui a confusão é sua. Ninguém (que eu saiba) está defendendo a universalização da medida. Qualquer proposta do tipo teria de ser precedida por estudos detalhados de custo-benefício específicos. O fato é que o aquecimento global engendra custos (em termos de saúde pública -- essa reemergência recente da febre amarela no Brasil é só um exemplo; a elevação do nível dos mares traz custos de mitigação nas zonas urbanas costeiras, etc.). talvez mecanismos de compensação financeira valham a pena; talvez não. É preciso investigar antes de fazer afirmações categóricas.

      Carbono como vilão, tirar todo o carbono da atmosfera: de novo, não sei quem disse isso. O que acontece é que há uma mudança climática em curso e as emissões humanas de carbono são a única forçante climática -- fator que afeta o clima -- capazes de explicar o fenômeno. Se outras mudanças climáticas no passado tiveram outras causas, isso não vem ao caso: o ponto é que, nos últimos 100-200 anos, a única coisa capaz de explicar a maior parte da anomalia climática observada é a emissão humana de CO2. Retirar "algum" carbono da atmosfera pode ser uma solução; reduzir emissões, outra. Talvez até dê para combinar ambas.

      A natureza se regenera sozinha: difícil entender o que "regenerar" quer dizer, nesse contexto, já que os sistemas naturais são dinâmicos estão sempre mudando. É extremamente improvável que o aquecimento global destrua a biosfera (e, de novo, não sei se alguém já disse que destruiria), mas ele pode muito bem empurrá-la para um novo equilíbrio (uma "regeneração"?) que seja hostil à vida humana ou, ao menos, ao modelo de civilização que conhecemos. Queremos isso?

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