Um conto de dois Brunos



Enquanto pesquisava meu Livro da Astrologia, tive algum contato com o trabalho de Giordano Bruno -- ele foi mais um dos filósofos renascentistas que viam na simbologia astrológica uma espécie de tecnologia mágica para manipular a realidade -- e descobri que, para além de suas especulações sobre a infinitude do cosmo ("apresento-vos minha contemplação sobre o infinito universo e seus mundos inumeráveis", como escreveu certa vez) e dos pronunciamentos heréticos que acabaram por condená-lo à fogueira, o sábio também havia composto uma obra sobre a mnemônica, a arte de fixação e preservação da memória.

No meu tempo, quem estudava para o vestibular acabava bem familiarizado com truques mnemônicos, do tipo "Bela Magrela Casou com Senhor BaRão", que dá os elementos da família 2A da Tabela Periódica. No mundo intelectual da Idade Média e do Renascimento, onde eram comuns disputas retóricas acaloradas e debates ao vivo -- que, eventualmente, poderiam acabar custando a vida de quem cometesse alguma heresia --, ajudava bastante ter referências, metáforas poéticas, argumentos prontos e citações de clássicos sempre à mão (ou, no caso, à mente). Faz todo sentido, portanto, que um debatedor inveterado como Bruno tivesse criado seu próprio sistema de memória.

O estudo clássico desse sistema, que envolve uma série de rodas concêntricas usadas para associar sílabas a imagens mitológicas, é o livro The Art of Memory, da historiadora britânica Frances Yates. É  interessante notar que os melhores truques mnemônicos não envolvem jogos de palavras, como "Hoje Li Na Cama Robinson Crusoé Francês" (família 1A da Tabela), mas sim associações com imagens e espaços: quem acompanha a série da BBC Sherlock deve estar familiarizado com o conceito de "palácio da memória".

Escrevo trudo isso porque, quando a Gazeta do Povo me pediu uma matéria sobre o livro Teoria da Absorção do Conhecimento ("TAC"), do acreano Bruno Borges, cuja obsessão com Giordano Bruno foi bem divulgada pela mídia, imaginei, por um momento, que a obra talvez tratasse de algum aspecto da mnemônica do monge herético. É óbvio que eu não podia estar mais enganado mas, bem, sou um otimista, certo?

A coisa mais interessante sobre Giordano Bruno no livro de Bruno Borges é sua ausência.Giordano aparece no "TAC", sim, mas como Pilatos no Credo: é citado sem que ninguém entenda muito bem o porquê. As verdadeiras fontes de Borges são Augusto Cury, Chico Xavier, literatura motivacional e a própria vaidade -- não, necessariamente, nessa ordem. O próprio título, "Teoria da Absorção do Conhecimento" e sua redução à sigla "TAC" parecem buscar contato com a "Teoria da Inteligência Multifocal" (abreviada como "TIM") de Cury.

A impressão que fica é de que o suposto apego de Borges a Bruno não vai além de uma atração pela iconografia monástica, pelo charme da rebeldia e da heresia, por uma versão hollywoodiana do que seriam os "mistérios" do Renascimento (códigos, sociedades secretas, textos iniciáticos, toda a parafernália familiar de Dan Brown). E, claro, da homonímia: se o moço do Acre se chamasse Homero, sua fantasia talvez tivesse sido construída em torno do Cavalo de Troia.

O mais interessante dessa história toda é a reiteração da capacidade brasileira para o sincretismo. Há tempos que pesquisadores notam a assimilação da linguagem das religiões afro-brasileiras no neopentecostalismo tupiniquim, por exemplo. Ao aproximar o espiritismo e o esoterismo à brasileira da autoajuda motivacional à la Tony Robbins -- ela própria uma espécie de neopentecostalismo secularizado (assista a um vídeo de Unleash the Power Within e me diga se não é um culto evangélico com aeróbica e sem os evangélicos) -- Bruno Borges abre vistas até então inexploradas. O coaching mediúnico de vidas passadas, agora, não deve estar muito longe.

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