Vício primário

Uma coisa que sempre me espanta no Brasil é a incapacidade dos agentes públicos -- e, suponho, da população que os elege -- de levar a sério qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico que não seja baseada em algum tipo de (neo)extrativismo. É o pré-sal da esquerda, são o nióbio e o grafite da direita estulta, são a soja e o boi da direita "esperta", é, agora, o cobre da Amazônia.

Num cenário em que a produção mundial de bens e serviços cada vez mais se estrutura em redes, com centros dispersos de design, montagem, produção de peças e produção de matéria-prima, só o que parece fazer brilhar os olhos dos brasileiros e entrar na visão estratégica dos governantes são exatamente as etapas de menor valor agregado, que mais agridem o meio ambiente e que mais exploram e maltratam a mão-de-obra. Será outro aspecto do tal "complexo de vira-lata"?

Certa vez conversei com um economista que era fã incondicional da política de "Campeãs Nacionais" do ciclo petista, e ele me deu como exemplo o caso da Coreia do Sul. Como se incentivar a produção de smartphones fosse igual, nos resultados de longo prazo, a incentivar a produção de bifes.

O gráfico acima compara os investimentos do CNPq em bolsas e fomento à pesquisa no período de 1996 a 2015 com os desembolsos do BNDES para empresas agropecuárias de grande porte -- apenas as de grande porte -- no mesmo período, em reais (os dados usados podem ser encontrados aqui e aqui). O que dá pra ver é que no período áureo das "Campeãs Nacionais", no segundo mandato do ex-presidente Lula e durante a era Dilma, até a festa acabar, mobilizar recursos públicos para incentivar a produção de boi em latifúndio passou a ser  muito, mas muito mais importante, na visão estratégica do Estado brasileiro, do que produzir conhecimento.

Tudo isso pra lembrar que, neste sábado, acontece uma nova Marcha pela Ciência. Para além da urgência de se tirar a pesquisa brasileira da UTI (ou, pelo menos, não deixar de pagar a conta do hospital), é preciso tentar reverter esse vício primário da mentalidade brasileira. No século 21, o único "recurso natural" que realmente gera desenvolvimento é o que está dentro da cabeça das pessoas. E cérebro não é commodity.

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