Thor, deus da antimatéria


Me diverti com Thor - Ragnarok. [Spoilers ahead] Como um leitor antigo dos quadrinhos, no entanto, fiquei desapontado com a forma com que o o filme desperdiça a história da redenção do Executor, para mim um dos momentos mais trágicos, reveladores e emocionantes da história das HQs de super-herói: fiquei com aquilo entalado na garganta por dias, e até hoje consigo me lembrar da montagem exata da página. Acho que o Walt Simonson devia ter se aposentado depois daquilo: sua contribuição à Arte e à Humanidade estava dada.

Talvez esse meu incômodo com o Executor (não só a história é desperdiçada, como o ator, Karl Urban, que certamente poderia ter tirado mais do personagem) reflita, em parte, o que incomodou outras pessoas que viram o filme e com quem conversei. A maioria teve uma reação do tipo "é muito legal, mas alguma coisa ficou esquisita".

O "esquisito" pode muito bem ser a atrofia da dimensão trágica do filme, exemplificada no caso do Executor -- que só fica claro, mesmo, para quem lia HQs do Thor mais vinte anos atrás -- mas que está lá na tela de diversas outras maneiras: o quase-genocídio dos asgardianos, a morte de Odin, a revelação de que Odin havia sido uma espécie de Genghis Khan cósmico antes de se emendar... Tudo isso aparece, mas sem impacto, sem pathos, como um remédio amargo, empurrado goela abaixo por um gole de comédia.

Muitas grandes obras narrativas, livros, poemas épicos, peças teatrais e filmes, misturam comédia e tragédia, mas as grandes obras que fazem isso geralmente exploram o contraste de modo a desafiar o público, usando os polos opostos como luz e sombra um do outro. Thor - Ragnarok parece ter optado bem deliberadamente em não seguir esse caminho: em ser com certeza divertido e, por garantia, evitar, de todos os modos possíveis, o risco de ser grande. Essa mediocridade calculada pode muito bem ser a fonte do incômodo.

Mas isto aqui é, ou deveria ser, um blog prioritariamente de ciência, e na verdade só voltei a pensar no filme do Thor porque um trabalho publicado nesta semana na revista Nature confirma a ideia de que relâmpagos geram raios gama com intensidade suficiente para causar reações nucleares nos átomos do ar e produzir antimatéria.



Os campos eletromagnéticos gerados nas tempestades elétricas aceleram elétrons a velocidades próximas à da luz: essa aceleração produz raios gama, que já foram detectados por instrumentos no passado. Em tese, esse raios poderiam interagir com os núcleos dos átomos que compõem a atmosfera, causando reações nucleares e produzindo partículas de antimatéria, mas o fenômeno, em si, nunca foi observado.

Na Nature, pesquisadores japoneses descrevem a detecção de sinais de radiação compatíveis com a produção de isótopos instáveis de nitrogênio (o componente mais abundante da atmosfera) e oxigênio, além de uma forma rara mas estável de carbono, com peso atômico 13. As interações geram ainda pósitrons, o correspondente em antimatéria do elétron.

"Uma 'nuvem' repleta desses isótopos emite pósitrons por mais de dez minutos", escrevem os autores. "Um pósitron emitido por nitrogênio-13 ou oxigênio-15 viaja alguns metros na atmosfera e se aniquila rapidamente ao encontrar um elétrons do meio". O artigo propõe que os raios podem representar uma fonte natural, até então ignorada, de isótopos de carbono, oxigênio e nitrogênio na Terra.

No filme, Odin lembra a Thor que ele é o Deus do Trovão, não o Deus dos Martelos. Se fosse mais bem informado sobre física, o príncipe de Asgard poderia ter usado seus relâmpagos para gerar raios gama que trouxessem o Hulk de volta a sua forma humana, ou antimatéria para desintegrar Hela. Quem sabe essa informação entra no roteiro do próximo filme? 

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