Baritsu!



E eis que, na véspera de Natal, os Correios saem de sua notória letargia e me entregam o número 11 do volume 5 de The Watsonian: The Journal of the John H. Watson Society, edição de novembro de 2017, que traz meu paper "The Truth About Baritsu". A John Watson H. Society, como o nome sugere, é uma organização dedicada ao estudo da vida e obra de John H. Watson, médico, soldado, escritor e biógrafo de Sherlock Holmes.

Meu artigo investiga a natureza do "baritsu", a arte marcial que permitiu que Holmes lançasse o professor Moriarty nas cataratas de Reichenbach e escapasse com a vida. A maioria das autoridades -- incluindo Baring-Gould, Leslie Klinger e o editor da edição crítica de The Return of Sherlock Holmes publicada pela Universidade de Oxford, Richard Lancelyn Green, concordam que "baritsu" é uma corruptela de "bartitsu", uma adaptação do jiu-jitsu criada por E. W, Barton-Wright em 1899.

Quanto ao óbvio anacronismo -- a luta entre Holmes e Moriarty aconteceu em 1891, quase uma década antes de Barton-Wright publicar seu método --  os autores tentam explicá-lo atribuindo-o a um lapso de Watson, já que a história de como Holmes sobrevivera a Reichenbach só foi publicada em 1903. Meu paper defende a ideia de que essa explicação é inadequada, e por várias razões: uma delas, a de que era virtualmente impossível, no século 19, estudar artes marciais japonesas fora do Japão (Barton-Wright morou no arquipélago). Também ofereço  uma explicação alternativa, mas não vou dar spoiler aqui.

Esta é minha segunda contribuição ao scholarship sherlockiano internacional. Anos atrás, o Baker Street Journal havia publicado um artigo meu sobre a vida das duas vilãs brasileiras que aparecem nas histórias de Sherlock Holmes, uma pernambucana (Isadora Klein, The Three Gables) e uma manauara (Maria Gibson, The Problem of the Thor Bridge).

Ambos os artigos são escritos dentro da perspectiva de "Grande Jogo", a ficção consensual de que Holmes e Watson foram pessoas reais e que, portanto, todos os erros, contradições e anacronismos que aparecem nas histórias devem explicados e reconciliados com os fatos, e não apenas vistos como cochilos de Conan Doyle. É tão divertido quanto teologia, com a vantagem de que ninguém termina queimado numa estaca. A única desvantagem é que não dá pra conseguir um doutorado com isso.




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