Notícias falsas: culpa sua, não do robô



Pessoas físicas, seres humanos, são mais eficientes para espalhar fake news no Twitter do que robôs. E quem diz não sou eu, é o pessoal que pesquisou o assunto e publicou na Science. Depois de rastrear o percurso de 126 mil histórias, verdadeiras ou falsas, postadas entre 2006 e 2017, compartilhadas mais de 4,5 milhões de vezes, os autores concluíram que "contrariando o senso-comum, robôs aceleraram a disseminação de notícias falsas e verdadeiras na mesma proporção, implicando que as notícias falsas se espalham mais que as verdadeiras porque humanos, não robôs, tendem a espalhá-las mais".

"Falsidades difundem-se chegando significativamente mais longe, mais depressa, vão mais fundo e de modo mais amplo em todas as categorias de informação", diz o resumo do artigo. Política é a categoria em que essas notícias têm mais impacto. Lá pelo miolo do texto, somos informados de que "quando estimamos um modelo de probabilidade de retuitar, determinamos que falsidades têm 70% mais chance de serem retuitadas do que a verdade".

Os autores apontam que as falsidades parecem se beneficiar da queda do ser humano pela surpresa: notícias falsas são mais surpreendentes ("Lula aparece só de cueca para depor") do que as verdadeiras ("Lula depõe e nega acusações"), simplesmente porque, a despeito do que se diz por aí, a realidade tende a ser bem mais mansa do que a ficção (nenhuma invasão marciana ou holocausto nuclear aconteceu ainda, por exemplo).



James Ball, em seu livro Post-Truth, afirma que as notícias falsas -- o artigo, aliás, prefere false news a fake news, apontando que o segundo termo virou ferramenta política -- apoiam-se num tripé, formado por novas mídias, público e mídias tradicionais. O artigo na Science tem o enorme mérito de desviar o holofote para uma outra perna que não as novas mídias, que têm sido o bode expiatório e o saco de pancadas da história.

A grande imprensa, em particular, adotou o discurso de pânico diante das fake news como estratégia de marketing. O que mais se vê por aí são secretários de Redação pomposos e ombudspersons supostamente críticos arrotando platitudes que equivalem a "Se o Pica-Pau tivesse lido a Folha, o Globo ou o Estadão em vez de ficar no Facebook, nada disso teria acontecido".

Sim. Claro. Como se árvores mortas não tivessem sido usadas para divulgar o Jogo da Baleira Azul, endossar as ventosas do Michael Phelps ou propagar falácia de que ler uma marca específica de jornal dá uma ajuda extra para passar no vestibular. Sem falar na tal "ficha de terrorista da Dilma".

Já escrevi um longo artigo para a revista ComCência, da Unicamp, explicando porque a mídia tradicional ainda se presta ao papel de cúmplice dos propagadores de notícias falsas (embora possa deixá-lo, se optar por mais vergonha na cara e menos oba-oba), mas, resumindo: há fragilidades estruturais no modo tradicional de fazer jornalismo, fragilidades que tornam as grandes empresas de mídia vulneráveis a loroteiros; há fragilidades e pressões econômicas conjunturais que agravam isso.

O público, por sua vez, também é indevidamente poupado nesses debates. É curioso como toda conversa pública sobre comunicação com/de/em massa parte da posição default de que existe um receptor passivo, anódino, vítima indefesa do que lhe despejam na cabeça. Se esse modelo já estava furado nos tempos da "velha" grande mídia (só no mundo de 1984 que rádios e televisores vinham sem botão de desligar), hoje em dia, na era das redes sociais, ele deveria ter menos credibilidade que o moto-perpétuo.

Mas, não obstante, perpetua-se. Não como hipótese explícita, mas como postulado não-dado, uma espécie de noção primitiva, instintiva. O artigo da Science mostra que não é assim: as mentiras se propagam porque as pessoas escolhem propagá-las. "Políticas de contenção da desinformação devem enfatizar intervenções comportamentais (...) em vez de focalizar exclusivamente a repressão aos robôs", sugerem os autores.



Uma questão que fica em aberto é: por que as pessoas escolhem isso? O artigo chega a um par de fatores, a surpresa e, um elemento derivado, o ganho de status social que vem de espalhar algo em "primeira mão".

Proponho, de minha parte, uma hipótese complementar: a de que as surpresas mais compartilhadas/retuitadas são "surpresas confirmatórias": um fato surpreendente, mas que confirma uma intuição preexistente.

Pegando exemplos de campos opostos do espectro político, tanto as notícias falsas que buscam vincular o deputado Jean Willys à apologia da pedofilia quanto as que dizem que Jair Bolsonaro prometeu metralhar as favelas do Rio (e que foi aplaudido ao fazê-lo -- nota publicada num dos jornalões que o pessoal diz que o Pica-Pau deveria ler, aliás) têm tanto o conteúdo de surpresa, de um lado, quanto o de confirmação, do outro. Inimigos ideológicos de Willys e de Bolsonaro esperam isso deles.

O que sugere um corretivo básico: duvidar das "surpresas boas demais para ser verdade". Confrontado com uma notícia explosiva que confirme suas piores impressões a respeito de uma figura pública, valide os dogmas da sua religião ou comprove a força cogente de sua ideologia/teoria maluca favorita, faça o seguinte: tire o dedo do mouse, respire fundo, tome um copo d'água, procure outras fontes. É o único jeito de deixar de ser parte do problema e começar a fazer parte da solução.

Comentários

  1. Tome cuidado!

    A frase "quando estimamos um modelo de probabilidade de retuitar, determinamos que falsidades têm 70% mais chance de serem retuitadas do que a verdade" é diferente de "pessoas têm mais vontade de retuitar notícias falsas do que de retuitar notícias verdadeiras."

    Espero que entenda o que é Teorema de Bayes, pois ele prova que a segunda frase pode ser completamente falsa (ou seja, pessoas têm mais vontade de retuitar notícias falsas que verdadeiras) mesmo quando a primeira é verdadeira.

    Veja vem, consideremos que as pessoas têm a mesma vontade de retuitar notícias verdadeiras ou notícias falsas. Assim sendo, se lembrarmos que as pessoas retuitam mais notícias de política nacional que notícias policiais locais, e que a esmagadora maioria das notícias falsas são sobre política nacional, devemos reconhecer que serão retuitadas mais notícias falsas do que verdadeiras. Mesmo, repito, considerando que as pessoas têm a mesma vontade de retuitar notícias verdadeiras ou notícias falsas.

    Pense em um caso clássico deste assunto: uma pessoa está lendo jornal no metrô. É mais provável que esta pessoa tenha doutorado ou que essa pessoa sequer tenha graduação?

    Mesmo considerando que pessoas com doutorado têm mais vontade de ler jornal do que pessoas sem graduação (apenas considerando isto!!), o fato de haver muito mais pessoas sem graduação do que pessoas com doutorado tornará mais provável que o leitor de jornal no metrô não tenha graduação.

    De toda forma, você não tomou os devidos cuidados com a hipótese fundamental deste artigo. Suas conclusões são falsas. Você pergunta: "Uma questão que fica em aberto é: por que as pessoas escolhem isso?"

    Bem, as pessoas não necessariamente ESCOLHEM isso. Elas retuitam notícias falsas com a mesma probabilidade com que retuitam verdadeiras. O problema é que os temas mais retuitados possuem mais notícias falsas, criando a sua ilusão.

    Por fim, você responde sua pergunta: "as surpresas mais compartilhadas/retuitadas são "surpresas confirmatórias": um fato surpreendente, mas que confirma uma intuição preexistente."

    Bem, você apontou o dedo para os outros, mas apontou quatro de volta para ti mesmo: você não entendeu a notícia que postou, mas como ela confirma seus pequenos preconceitos, mandou ver.

    Afinal, é bom criticar os outros, né? Estudar é difícil, e se estudar muito acaba descobrindo que suas criticazinhas e seus preconceitozinhos são infundamentados.

    Vamos estudar mais Teorema de Bayes e falar menos bobagens?

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    1. Oi, Marco! Análise interessante. Pena que ela contradiz logo a primeira constatação empírica do artigo, a de que robôs retuítam notícias falsas e verdadeiras *na mesma proporção*, e que são os seres humanos que dão impulso extra às falsidades.

      Se excesso de retuítes de notícias falsas por humanos fosse causado apenas pelo (suposto) excesso de notícias falsas, não haveria diferencial entre robôs e humanos.

      Seu exemplo, comparando "notícias políticas nacionais" com "notícias policiais locais" é inadequado. A comparação correta, e que os autores do paper fizeram (a íntegra está online no primeiro link da postagem; se for muito difícil ler tudo, dê só uma olhada na figura "A") seria entre "notícias falsas na categoria P" e "notícias verdadeiras na (mesma) categoria P".

      Se a população inicial é, digamos, de 70% de P-verdades e 30% de P-mentiras, e não houver preferência diferencial por uma ou outra categoria, o que se espera é 70% de retuítes de verdades e 30% de mentiras. Se a proporção se inverte, o que se conclui? Você nem precisa apelar para Bayes nessa.

      Me parece (posso estar enganado) que sua crítica parte do pressuposto de que estou sugerindo que as pessoas retuítam falsidades *sabendo que são falsidades*. Em nenhum momento digo isso.

      O que digo (parafraseando as conclusões dos autores do "paper", aliás), é que notícias falsas são mais atraentes, porque apelam a certos vieses cognitivos e afetivos, e por isso acabam ganhando um impulso extra.

      Quanto ao seu comentário sobre autores precipitados que saem escrevendo sobre coisas que não entenderam direito e apontando o dedo para os outros, concordo plenamente.

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    2. Carlos, robôs, ao contrário de humanos, compartilham notícias sem distinção de temas. Humanos, mesmo distinguindo um pouco as verdadeiras das falsas, irão compartilhar mais certos tipos de notícias. E os propagadores de notícia falsa farão mais notícias falsas sobre temas que as pessoas compartilham mais.

      E o fato de robôs não tenderem a compartilhar um tipo de notícia mais do que outros tipos, como os humanos fazem, cria esta diferença entre eles.

      Eu não interpretei que você afirmou ou sugeriu que "as pessoas retuítam falsidades *sabendo que são falsidades*". Na verdade, a intenção é irrelevante para os propósitos da minha argumentação. O meu objetivo era mostrar que mesmo que as pessoas não façam distinção alguma entre notícias falsas e notícias verdadeiras, ou mesmo que elas façam distinção em alguns casos e deixem passar outros, é de se esperar que humanos retuitem mais notícias falsas que robôs.

      Paradoxal?

      Concordo. E existe algo chamado Paradoxo de Simpson para explicar isso. Recomendo estas leituras:

      http://prorum.com/index.php/1814/o-que-e-o-paradoxo-de-simpson-em-estatistica

      https://pharmasofia.wordpress.com/2016/06/25/paradoxo-de-simpson/

      Esta segunda traz um exemplo excelente que vai te ajudar a entender porque uma estatística pode parecer algo e na verdade ser o completo oposto.

      Caso deseje se aprofundar, leia os livros:

      O Poder do Pensamento Matemático de Jordan Ellenberg

      Rápido e Devagar de Daniel Kahneman

      O primeiro livro detalha melhor o exemplo do jornal no metrô que citei.

      Saudações!

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    3. E eu realmente recomendo a leitura do paper. A distinção em categorias de notícias, e a possibilidade de o excesso de retuítes falsos ser um artefato provocado por disponibilidade, foram levados em conta. Eles ate compararam a viralidade de notícias falsas de diferentes categorias.

      Foram feitas comparações entre o modo de difusão de informações falsas e verdadeiras, e determinou-se que as falsas viajam mais longe e chegam mais fundo, mesmo dentro de uma mesma categoria (política, ciência, terrorismo, por exemplo). Se a hipótese de que notícias falsas aparecem mais porque concentram-se nas categorias que aparecem mais estivesse correta, os modos de difusão de falsidades e de verdades -- dentro de uma mesma categoria -- deveriam ser os mesmos. E não são.

      "When we analyzed the diffusion dynamics of true and false rumors, we found that falsehood diffused significantly farther, faster, deeper, and more broadly than the truth in all categories of information [Kolmogorov-Smirnov (K-S) tests are reported in tables S3 to S10]. A significantly greater fraction of false cascades than true cascades exceeded a depth of 10, and the top 0.01% of false cascades diffused eight hops deeper into the Twittersphere than the truth, diffusing to depths greater than 19 hops from the origin tweet"

      http://science.sciencemag.org/content/359/6380/1146.full

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    4. Bingo!

      A minha argumentação original era: "Veja vem, consideremos que as pessoas têm a mesma vontade de retuitar notícias verdadeiras ou notícias falsas. Assim sendo, se lembrarmos que as pessoas retuitam mais notícias de política nacional que notícias policiais locais, e que a esmagadora maioria das notícias falsas são sobre política nacional, devemos reconhecer que serão retuitadas mais notícias falsas do que verdadeiras."

      Veja bem: eu considerei que as pessoas compartilham notícias falsas e verdadeiras indistintamente, mas que tendem a compartilhar mais notícias de assuntos que possuem mais notícias falsas.

      O trecho citado por você diz que as pessoas compartilham notícias falsas de política na mesma proporção que compartilham notícias falsas sobre clima e desastres. Ok, isso não contradiz meu pressuposto, muito pelo contrário.

      Além disso, o item (F) da gravura 1 exibe "A histogram of the total number of rumor cascades in our data across the seven most frequent topical categories." Tal histograma mostra que política é o tema que mais gera notícias falsas. Bem como eu disse!

      Por fim, na mesma gravura 1, note que os temas das notícias falsas mais compartilhadas (C e E) são justamente os temas sobre os quais mais se produzem notícias falsas no histograma (F). Bem como eu disse!

      Isto fecha a matemática. A taxa de compartilhamento de notícias falsas não depende do tema. Mas a taxa de compartilhamento de notícias depende do tema. Então se as pessoas compartilham mais notícias sobre política do que sobre ambiente, e política tem mais notícias falsas, as pessoas compartilharão mais notícias falsas do que verdadeiras. Mesmo que as pessoas não façam distinção entre notícias verdadeiras ou falsas, ou mesmo que tenham uma distinção pobre.

      Leia o texto neste link https://pharmasofia.wordpress.com/2016/06/25/paradoxo-de-simpson/ e tente entender porque uma universidade que aprova mais homens do que mulheres pode, na verdade, privilegiar a entrada de mulheres. Quando entender isto, você vai finalmente se abrir para um universo novo que nunca imaginou. É sério!

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    5. "Isto fecha a matemática. A taxa de compartilhamento de notícias falsas não depende do tema. Mas a taxa de compartilhamento de notícias depende do tema. Então se as pessoas compartilham mais notícias sobre política do que sobre ambiente, e política tem mais notícias falsas, as pessoas compartilharão mais notícias falsas do que verdadeiras".

      Só se a geração de bruta de notícias em política, antes dos compartilhamentos, privilegiar a falsidade, o que não é dito ou demonstrado em lugar nenhum. E não explica o fato de a difusão de notícias falsas, dentro de cada categoria, ser sempre maior que a de verdadeiras. Se uma notícia falsa de política atinge 100 mil usuários e a notícia verdadeira de política mais popular da amostra atinge só 1000, o que se conclui disso? Citando novamente o paper:

      " Whereas the truth rarely diffused to more than 1000 people, the top 1% of false-news cascades routinely diffused to between 1000 and 100,000 people (Fig. 2B). Falsehood reached more people at every depth of a cascade than the truth"

      A questão não apenas que mais notícias falsas são compartilhadas, e sim que notícias falsas são mais compartilhadas. Dado um par qualquer de notícias, controlando por categoria (política, por exemplo), a falsa sempre chega mais longe, atinge mais gente. Isso não é um efeito "de fundo" da população, é uma propriedade que a notícia falsa tem por ser falsa (ou, mais exatamente, por sua falsidade lhe dar a vantagem de ser mais interessante, surpreendente, chocante, etc.)

      De resto, sua pressuposição de que não estou familiarizado com o raciocínio Bayesiano ou com sutilezas estatísticas como o Paradoxo de Simpson é equivocada. Concordo que são fatos que abrem uma nova visão de mundo, mas já vivo nesse mundo faz uns dez anos. Até escrevi a respeito em algumas oportunidades, por exemplo:

      http://carlosorsi.blogspot.com.br/2011/01/falacias-juridicas-e-probabilidade.html

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  2. Complementando... você disse: "Já escrevi um longo artigo para a revista ComCência, da Unicamp, explicando porque a mídia tradicional ainda se presta ao papel de cúmplice dos propagadores de notícias falsas (embora possa deixá-lo, se optar por mais vergonha na cara e menos oba-oba), mas, resumindo: há fragilidades estruturais no modo tradicional de fazer jornalismo, fragilidades que tornam as grandes empresas de mídia vulneráveis a loroteiros"

    Bem, por fragilidades você se refere ao péssimo hábito de comentar estatística sem saber estatística? Ou por falta de vergonha na cara, ao hábito de acusar os outros de desligarem o senso crítico ao se depararem com surpresas confirmatórias quando é o redator a fazer isso?

    Pensa nisso....

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    1. Vide último parágrafo da resposta acima.

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