Pseudociências, cristais, jornalismo



Em seu divertidíssimo livro sobre a história da medicina e das terapias "integrativas e complementares", Suckers, a jornalista britânica de saúde Rose Shapiro aponta uma distinção simples -- e categórica -- entre a ciência médica e as diversas tradições culturais em que terapeutas alternativos buscam (ou dizem buscar) inspiração: enquanto a ciência foi descobrindo inúmeras causas para as doenças (vírus, bactérias, genética, contaminantes ambientais, estilos de vida, etc.), os integrativos costumam se agarrar a uma monocausa, uma causa única para todo mal: desequilíbrio. Desarmonia. Desalinhamento.

Seja do chi, do prana, do yin ou do yang, da coluna vertebral, da dieta ou de algo genérico como "as vibrações", sempre há uma coisa fora da ordem que, se recolocada no devido lugar, traz a cura. Mesmo se reconhecem a existência de causas imediatas para a doença -- um parasita, uma infecção, uma mutação -- esses terapeutas tendem a pressupor que o agente só conseguiu atacar o paciente porque seu "campo energético" já havia sido previamente "desequilibrado". Um corolário dessa doutrina da causa única é a da cura única, a panaceia: o ritual, a dieta ou o suco que reequilibra as energias deve ser capaz de curar qualquer coisa.

Essa ideia de energias desequilibradas extrai seu apelo de diversas fontes. A primeira talvez seja a antiguidade histórica: não só diversos sistemas de proto-medicina realmente se valiam do conceito, como ele se encaixa bem com intuições arraigadas que ligam a doença à culpa, ao pecado, à impureza.

Reequilibrar energias é apenas um código moderno para purificar-se, fazer as pazes com os espíritos; dietas estritas ou exóticas são as novas penitências. Além disso, "restaurar a harmonia" é algo que tem um forte apelo para o principal grupo de consumidores dessas terapias, os chamados "saudáveis porém preocupados", gente que confunde crise existencial ou spleen romântico com doença.

E para pôr a cereja no bolo temos, é claro, nossa amiga, a grande mídia. Da edição de março da revista Marie Claire, que alguém, um dia, me disse que era uma revista feminina que tratava de temas sérios, escrita para mulheres adultas e inteligentes:



Tenho uma coleção razoável de livros sobre superstições e pseudociências, incluindo três grossos volumes de testes estatísticos de astrologia, mas um que jamais pensei que fosse ter de citar é Crystal Power -- The Ultimate Placebo Effect, do professor universitário americano Lawrence E. Jerome. Publicado originalmente em 1989, não me parece que a obra tenha tido mais de uma edição. Mas, enfim, o mundo é uma caixinha de surpresas.

O período acima, além de me fazer refletir, pela enésima vez, sobre a má-fé com que o jornalismo usa declarações entre aspas -- o jornalista sempre pode alegar que quem disse a bobagem foi a fonte, não ele, e que sua obrigação é reproduzir a fala da fonte com o máximo de fidelidade, convenientemente omitindo que sua maior obrigação é contar a verdade aos leitores -- ilustra bem o princípio de que tamanho do texto necessário para esclarecer uma bobagem é uma função exponencial do tamanho do texto usado para dizê-la.

Vamos lá: a energia de que a pessoa está falando, aí, é elétrica ou mecânica. Tem de ser, se a referência é o uso de quartzo em equipamentos eletrônicos. Cristais de quartzo têm propriedades piezoelétricas: eles produzem um campo eletromagnético quando deformados, e sofrem deformação quando submetidos um campo eletromagnético. Isso faz com que sejam úteis para sintonizar rádios, televisores (o modo de vibração natural do cristal filtra a frequência desejada) e em fones de ouvido (o sinal elétrico faz o cristal vibrar, reproduzindo o som). Cristais de quartzo também são usados como osciladores em relógios, computadores e celulares. E o quartzo é um transdutor (transforma uma tipo de energia em outro) não um condutor.

O corpo humano, é claro, não tem nada a ver com isso. Osciladores de quartzo são usados em marca-passos, mas esses são cristais especialmente selecionados, inseridos num contexto tecnológico, dentro de um dispositivo que é implantado cirurgicamente no paciente após recomendação específica. Não é uma pedra genérica moída para esfregar na pele. O que o texto da revista faz é o que se chama, tecnicamente, de equivocação: usar a mesma palavra com dois sentidos diferentes, sem avisar o leitor da mudança. No sentido (1), "celulares, chips, relógios", energia é uma quantidade física; no (2), "corpo humano", é uma metáfora para... sei lá. Bem-estar?  Não sei se a equivocação é fruto de ignorância ou desonestidade, mas tenho cá meu palpite.

Se a mídia tradicional quer mesmo ser levada a sério quando se erige em paladina na luta contra as falsas notícias (mentiras disfarçadas de jornalismo), deveria se preocupar mais em não veicular notícias falsas (jornalismo que propaga mentiras). Só dizendo.

Comentários

  1. " incluindo três grossos volumes de testes estatísticos de astrologia"
    Quais os títulos?

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    Respostas
    1. Oi, Hilton! Por ordem de publicação: "Recent Advances in Natal Astrology: A Critical Review", 1977; "Astrology under Scrutiny", 2013; "Tests of Astrology", 2016.

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  2. Com um domínio tão amplo da literatura astrológica você parece habilitado a fazer mapas astrais. :P

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