Psicologia aplicada à pseudociência



A bibliografia brasileira crítica sobre pseudociências é criminosamente escassa. Para cada dúzia de livros prometendo a cura quântica das hemorroidas ou a fórmula secreta da neurociência para pegar mulher e ganhar na loteria, saem -- um? dois? -- títulos tentando explicar que as coisas não são bem assim. Quase sempre, são traduções, como dos livros de Michael Shermer, Edzard Ernst ou Ben Goldacre. Quando um cientista brasileiro, portanto, decide separar parte de seu tempo para fazer algo a respeito do Febeapá (pseudo)científico em que vivemos, é hora de soltar rojão.

Foi com enorme alegria, então, que recebi o livro Ciência e Pseudociência, de Ronaldo Pilati, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Vou confessar logo de cara que tenho algumas críticas: acho que o autor, nos capítulos introdutórios, poderia ter tratado a questão do falsificacionismo popperiano de maneira um pouco mais clara; e que foi muito caridoso com os envolvidos no caso da "pílula do câncer". Também, num dado momento, Pilati escorrega e usa scramjet, denominação de um tipo de motor supersônico, para se referir a "chemtrail", nome dado por teóricos da conspiração aos rastros de vapor deixados por aviões. Mas isso tudo é detalhe. 

O fato relevante, senhoras e senhores, é que temos aqui um livro de autoria de um psicólogo brasileiro que explica, de forma sucinta, a questão dos vieses cognitivos e atalhos heurísticos, aponta as fragilidades da razão humana e conceptualiza a prática da ciência como um exercício árduo e contínuo de correção desses vieses; que aponta o caráter pseudocientífico da psicanálise e a pertinência da "fraude de Sokal" sem hesitar. 

Não é pouca coisa, ainda mais num meio acadêmico, como o das Humanidades, em que o sorrisinho de escárnio ignorante do relativismo pós-moderno nunca está muito longe.

O título do livro de Pilati me fez lembrar de Ciências versus Pseudociências, de Paulo Lee, publicado em 2003, ou seja, há 15 anos, e me trouxe uma sensação de loop temporal. Os livros têm tanto diferenças quanto semelhanças -- o foco conceitual de Pilati é a Psicologia, enquanto Lee vai mais fundo na filosofia da ciência -- mas é inegável que ambos foram escritos em resposta ao mesmo problema, a incompreensão pública de como a ciência funciona e a vulnerabilidade que isso traz aos indivíduos e à sociedade.  

Entre uma obra e outra o problema não diminuiu: se algo mudou, foi porque ele se tornou ainda mais urgente. 

Comentários

  1. "...e que foi muito caridoso com os envolvidos no caso da "pílula do câncer".

    O trecho que do livro em que ele aborda o assunto:
    "A ciência é um empreendimento eminentemente social.[...]E um trabalho colaborativo, que segue protocolos e formas de se fazer. Um conhecimento que ainda não foi submetido ao escrutínio da comunidade. Como é o caso da pílula do câncer. não pode ser considerado conhecimento cientifico. Mas, como está ocorrendo com a própria substancia da fosfoetanolamina é possível que esse conhecimento venha a ser considerado cientifico, pois os estudos protocolares sem em curso. Estima-se que mais alguns anos ainda sejam necessários para se chegar a alguma conclusão a respeito da fosfoetanolamina."

    Essa declaração do dr. Ronaldo Pilati esta totalmente correta. Finalmente um divulgador cientifico citado pelo sr., que foi sério o suficiente para apontar a real situação em que se encontra a substância, sem parcialidades, sem omissões e sem distorções.
    Ele não foi "caridoso", apenas apontou os fatos como são. E é isso do que se trata ciência, ou seja fatos.
    Haja visto que os últimos testes feitos pelo ICESP, já foram mostrados, terem sido falhos .
    Ele não deve ser nem "caridoso" nem "impiedoso" com a "pilula do câncer", pois essa não é uma questão de cunho pessoal, para que se possa expressar sentimentos como caridade. Ele precisa ser imparcial e se limitar aos fatos. E foi exatamente o que ele fez ao apontar que se deve fazer os testes para se ter uma conclusão sobre o assunto, ao contrário do sr. que usa a ciência como plataforma para afirmar suas ideologias, por vezes (como é o caso da fosfo) se pautando até mesmo em resultados de testes falhos e distorcendo as informações.
    Aliás esses psicólogos que tem se dedicado a investigar os mecanismos das crenças, já deveriam reservar um bom espaço de suas pesquisas para abordar pessoas como o sr. ...

    Preciso tomar conhecimento total da obra do dr. Ronaldo Pilati, para formular um julgamento preciso, mas baseando nesse trecho, penso que seja uma ótima referência .
    Obrigado pela dica de leitura, sr. Orsi.

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