Ciência e religião: acertando o Ramadã

O mundo muçulmano entrou no mês sagrado de Ramadã nesta segunda-feira, dia 1° de agosto. A fixação do momento exato do início do Ramadã é, se não exatamente complexa, certamente aberta a alguma controvérsia -- pelo tradicional calendário lunar islâmico, os meses começam com a primeira observação da lua crescente.

O instante, portanto, pode variar tanto com a posição geográfica do observador, como com o tipo de equipamento usado para resolver a primeira réstia de luz no canto do disco lunar -- o olho nu sendo, compreensivelmente, capaz de uma resolução menos precisa que um binóculo ou telescópio.

(Há um bom artigo sobre o calendário muçulmano, aqui.)

O assunto do início do Ramadã, um mês de jejum e orações, é levado muito a sério nos países islâmicos. Os sauditas, por exemplo, foram autorizados a usar telescópios para fazer a determinação apenas em 2009. Há alguns dias, a suprema corte do país emitiu ordem para que todos os que observassem a lua crescente registrassem o avistamento com as autoridades.

Em artigo publicado semana passada na revista Science, um astrônomo saudita defende uma abordagem científica para a questão do mês sagrado (o texto está aqui, mas tem paywall).

Esta, aliás, é mais uma daquelas "oportunidades perdidas" que encontramos nas revelações divinas: da mesma forma que Deus poderia ter explicado a Moisés que doenças de pele são causadas por germes, e não por maldições; que Jesus poderia ter ensinado que epiléticos são doentes que precisam de cuidados, e não gente endemoinhada; o Arcanjo Gabriel poderia ter  ensinado Maomé a construir um telescópio.

A questão do Ramadã, me parece, é mais um exemplo de como a tentativa de isolar fé e ciência em "ministérios não-sobrepostos" está fadada ao fracasso. Claro, é possível reduzir a sobreposição a um mínimo,  mas um mínimo, irredutível, dado pelo simples fato de que todos temos de viver e funcionar no mesmo Universo físico.

Questões como qual o momento da morte, quando começa a vida e (possivelmente, menos polêmica e mais fácil de resolver) como determinar o início da lua crescente, sem falar em alegações de milagres -- históricos ou atuais -- continuarão a provocar atrito entre os campos.

A única forma de evitar isso seria esvaziar as religiões de toda a pretensão de conteúdo empírico, reduzindo-as de vez a mitos e metáforas -- mas duvido que haja muitos religiosos dispostos a fazê-lo.

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