Ateísmo, filosofia e a favelização do inefável

Depois de minha palestra/bate-papo no Paço da Liberdade em Curitiba, na terça-feira, algumas estudantes universitárias vieram falar comigo sobre as dificuldades que encontram ao debater a questão da existência de Deus com colegas teístas.

 O problema parece estar no fato de que, enquanto a literatura de defesa do teísmo -- de Aquino a Plantinga e Craig -- circula livremente entre os entusiastas, as referências mais facilmente disponíveis para o outro lado acabam sendo as obras de Dawkins ou Hitchens. Que, com toda a potência e utilidade que têm, não são (nem têm a pretensão de ser) celeiros de argumentos filosóficos rigorosos.

Isso não significa, porém, que argumentos rigorosos não existam, mas apenas que não contam com organizações internacionais (igrejas) dedicadas a distribuí-los e popularizá-los.

Eu pessoalmente não vejo necessidade de ir além de David Hume para pôr todo o castelo de cartas da pretensão teísta à racionalidade -- como articulada em torno das variações do argumento cosmológico -- abaixo. Antony Flew já se queixava, em seu clássico God and Philosophy, que os apologistas cristãos insistem em argumentar "como se Hume nunca tivesse escrito nada".

(Ah, sim: há quem goste de explorar a súbita e confusa conversão de Flew ao deísmo -- a crença numa inteligência criadora do universo -- no fim da vida. Dois pontos a respeito: o primeiro é que o "deus" de Flew não tem nada a ver com o das religiões em geral. O segundo, que deveria ser óbvio para todos os debatedores dotados de um mínimo de boa-fé, é o de que a força de uma série de argumentos, como a apresentada em God and Philosophy, independe das peculiaridades biográficas de seu autor.)

Mas Hume e Flew, embora (em minha opinião) suficientes para estabelecer o caso da racionalidade do ateísmo, não são o ponto final da história. Nas últimas duas décadas, o filósofo Michael Martin produziu uma copiosa literatura sobre o assunto.

Também busquei chamar a atenção das jovens (mulheres adultas em idade universitária hoje em dia são "jovens" para mim. O tempo não para mesmo...) para o cambalacho semântico, muito comum, de, por um lado, se redefinir Deus como algo incompreensível, misterioso, transcedental, idescritível, etc., ao mesmo tempo em que, por outro, se afirma que Ele tem um monte de propriedades objetivas: é  bom, amoroso, onipotente...

É preciso notar que descrever o indescritível é uma contradição em termos, e atribuir propriedades objetivas que implicam juízos de valor -- como dizer que algo é "bom" -- ao incompreensível é uma atitude peculiar, para dizer o mínimo. Se uma coisa é incognoscível (isto é, está além da nossa capacidade de conhecimento) então, por definição, não há nada que possamos afirmar, de forma honesta, sobre ela.

A possibilidade de existência de um Deus totalmente abstrato, misterioso e transcedental é tão irrefutável quanto a existência de sorveterias na galáxia de Andrômeda. Só que também é tão irrelevante para nós, pobres mortais terrestres, quanto.

Agora, se a mesma pessoa que lhe diz que o Deus dela é transcendente e abstrato ao ponto de todas as críticas do filósofos secularistas serem "grosseiras" e "ignorantes" em seguida começa a agir como se esse mesmo Deus fosse um fantasma superpoderoso que atende preces, realiza milagres e recolhe dízimos, calma lá. Ou uma coisa ou outra. Não dá pra favelizar o inefável.


Comentários

  1. essa questão de descrever o indescritível me lembrar, trazendo pra área da literatura, o ciclo de Cthulhu, do H.P. Lovecraft.

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  2. Desculpa, mas eu não entendi a menção às jovens universitárias. Seriam apenas os jovens universitários capazes de questionar a existência de deus, enquanto as menininhas se apegam ao deus de amor incondicional?

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  3. Oi, Badona! Na verdade, foi apenas uma ligação com a parte narrativa da poetagem, sobre o fato de a história ter começado numa conversa com estudantes após a palestra. Se é significativo o fato de a reflexão ter sido suscitada por pessoas dessa faixa etária, grau de instrução e sexo? Não sei, mas só o fato de a maioria dos presentes ao evento terem essas características meio que chamou minha atenção...

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  4. Meu comentário anterior foi impertinente, pois houve um erro de imterpretação de minha parte.
    É certo que gênero não interfere na capacidade de questionamento de ninguém e fico feliz por alguém se dispor a fornecer argumentos mais sólidos a serem utilizados num debate sobre religião. Obrigada.

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  5. Badona, não se preocupe. Seu comentário não foi impertinente -- nasceu de um mal-entendido, coisa fácil de ocorrer na velocidade da internet. Seja bem-vinda e sinta-se em casa aqui no blog.

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