Astrologia pautando a imprensa?

No início da semana, um leitor do blog me mandou este link para uma matéria online de O Globo, onde uma astróloga é chamada a explicar as mazelas da cidade fluminense de Niterói. O tempora, o mores, pensei, enquanto encarava a leitura do texto (quem quiser uma discussão mais detalhada de por que astrologia é besteira pode se divertir nesta postagem de 2011).

Para que não me chamem de xiita obtuso, fui capaz de notar que a parte astrológica da matéria do jornal carioca era apenas uma espécie de nariz de cera para introduzir a parte realmente "carnuda" da reportagem, um levantamento exaustivo dos problemas que afligem Niterói e da inoperância das autoridades. Em jargão jornalístico, "nariz de cera" é um texto apensado ao início de uma matéria, como um órgão olfatório postiço e, como tal, não se encaixa muito bem lá.

Esses narizes costumam ser usados quando o repórter sente (ou sabe) que não tem  nada de realmente quente a anunciar, tipo, caiu um prédio ou o governo confiscou a poupança, e precisa chamar a atenção do leitor. Isso é especialmente verdade no texto do Globo: "Niterói passa por dificuldades há um tempão" não é exatamente novidade para ninguém (muito menos para os leitores do principal diário do Estado do Rio de Janeiro), e um texto que começasse assim dificilmente seria recebido com algo além de bocejos -- o que é, no caso em tela, uma pena, porque, como já disse, o trabalho de reportagem, resgate da história recente da cidade e de entrevista presente na matéria é exaustivo e merece ser apreciado.

Mas, assim, mesmo reconhecendo a necessidade de pendurar uma melancia no pescoço da matéria: pô, precisava apelar para a astrologia? Nos estudos acadêmicos sobre jornalismo e comunicação existe um debate longo e sonolento sobre a questão da legitimação, ou como o modo com que fatos, eventos e opiniões aparecem na mídia acaba ajudando a dar forma a uma espécie de paisagem mental coletiva, onde algumas coisas são mais levadas a sério do que outras.

Sempre desconfiei um bocado do discurso sobre o "poder da mídia" para fazer cabeças (se fosse mesmo tão grande e monolítico quanto dizem, não teria sobrado ninguém consciente o bastante para reclamar dele), mas isso não diminui a responsabilidade da mídia: as pessoas que compram jornal, ligam a TV ou acessam o site esperam, na verdade pressupõem, que o que vão encontrar nesses meios seja conteúdo que foi filtrado por gente inteligente, crítica, honesta e de bom-senso.

A contrapartida que o comunicador deve, em resposta a essa generosa pressuposição do público, envolve, entre outras coisas, o cuidado de não vender gato por lebre. E quando uma interessante reportagem sobre problemas sociais e políticos de uma importante cidade brasileira vem embalada num mapa astral, alguma coisa pifou no processo. Porque, se a astrologia ajuda a vender a boa matéria, o fato de a matéria ser boa ajuda a legitimar a pataquada astrológica aos olhos de quem confiou no Globo. Pedido de um ex-colega de grande imprensa: ponham a mão na consciência, pessoal. E, por favor, tentem não fazer de novo.

Outro caso, menos dramático porque publicado num site de feminino de entretenimento (algum dia vou escrever uma postagem, ou talvez uma tese de doutorado, sobre a obscena irresponsabilidade do chamado "jornalismo feminino" atual, que parece ser feito numa realidade paralela de ficção científica vagabunda, onde pedras sedimentares têm poderes paranormais ativados por raios laser e coisas assim) é o do levantamento sobre quais os signos do zodíaco que cometem mais adultério.

No fim de semana, enquanto minha mulher fazia as unhas, joguei os números do brilhante texto do UOL Mulher -- 20% das mulheres que se cadastram num site re relacionamentos clandestinos são geminianas! Mas apenas 1,1% são taurinas! -- numa planilha, apliquei umas fórmulas e, bang!, distribuição normal. Em outras palavras, os números são os que se poderia esperar se a distribuição de infiéis pelos signos fosse produto do acaso. Digo, apenas, que não me surpreendi.


(O Marcus, autor desta bela peça sobre astrologia e estatística, me avisa que os dados disponíveis na matéria na verdade são insuficientes e não permitem uma análise estatística válida, daí o parágrafo acima estar riscado, como um lembrete de que o ócio intelectual gera asneiras...)

Se fica uma lição da leitura dos dois textos, do UOL e do Globo, é a (re)confirmação da crítica de Karl Popper à astrologia: ela não prediz, mas pós-diz. Uma vez constatado do fenômeno -- enchente em Niterói -- a causa é fácil de achar: Netuno "em tensão" com Saturno. Da mesma forma, uma vez que a tabela diz que as taurinas são as "mais fiéis", a explicação passa a ser óbvia: o signo é um de estabilidade e confiança.

Essa capacidade de gerar uma explicação superficialmente convincente para qualquer coisa, desde que a posteriori, ao mesmo tempo em que não se consegue apontar com clareza o que deve ocorrer no futuro (se Netuno e Saturno sinalizam enchentes, para que precisamos de meteorologistas?) é, na descrição clássica de Popper, a marca registrada da pseudociência. Seria bom que a imprensa, com seu compromisso com a verdade, desse mais atenção à coisa real.

Comentários

  1. Matérias assim aumentam a minha misantropia em uma intensidade que você não consegue imaginar.

    -Daniel Bezerra

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  2. Carlos,

    se entendi bem o que tu fizeste no teu estudo, tu colocaste as porcentagens dos signos registrados neste site (20% gêmeos, 1,1% touro etc) e testou se estes dados possuíam distribuição normal. Pois isto está errado. Neste caso específico, não importa se estes números possuem distribuição normal ou não.

    Explico: imagine um dado de 12 lados, onde cada lado equivale a um signo. Se este dado for lançado um número grande de vezes, espera-se que cada signo represente em torno de 8,3% dos lançamentos (descontadas as flutuações estatísticas). Um "lado" deste dado que caia 20% ou 1,1% das vezes é algo de se surpreender.

    Esperar que estas porcentagens tenham distribuição normal é como jogar Banco Imobiliário e esperar que a maioria dos lançamentos dos dados caiam em 3 ou 4, e a minoria, em 1 e 6. O valor esperado no lançamento de um dado de 6 faces é 3,5 sim, mas isto não quer dizer que estes lançamentos sigam uma distribuição normal.

    Eu li esta mesma matéria que tu leu e pensei em fazer o mesmo teste, mas me falta um dado essencial para isto: o número de usuárias do site. Sim, porque o teste a ser realizado neste caso é o Qui-Quadrado, que depende do número de usuárias que o site possui para cada signo (embora possamos até fazer algumas aproximações sem possuir estes dados).

    Já abordei um assunto similar a este num post do meu blog em 2009, relacionando os signos dos pilotos de Fórmula 1 com as vitórias deles: http://grandeabobora.com/usando-estatistica-para-desmascarar-a-astrologia.html

    Caso eu tenha entendido errado o teu método, desconsidere tudo o que escrevi acima.

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    1. Oi, Marcus! Sim, o que fiz foi calcular a média (8,3, claro, já que a soma total é 100 e há 12 categorias), o desvio-padrão e constatar que não há nenhum número acima (ou abaixo) de três-sigma da média. Confesso que achei o processo meio mambembe, mas por que ele não funcionaria, no caso?

      Digo, diferentemente do caso do dado, onde o intervalo de valores é bem-definido (os números serão 1,2,3,4,5 ou 6, sempre), neste caso o número de categorias (12) é que é bem-definido, mas os valores em si podem variar loucamente, desde que a soma não supere 100. É possível, até, que houvesse um conjunto onde o valor predominante (50%, digamos) estivesse a quatro ou cinco desvios-padrões de distância.

      Ou essa contagem de desvios não vale, nesse caso?

      Ah, sim: a matéria diz que o "total" de cadastrados no site é 13 milhões. Mas não diz quantos são homens ou mulheres (será que dividir por dois é uma presunção razoável?)

      abs!

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    2. Aliás: parabéns pelo artigo sobre os pilotos de F1!

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  3. Grato pelo elogio :)

    Isto não funcionaria porque, ao assumir que um conjunto de números possui distribuição normal, tu assume, implicitamente, que teus números possuem uma distribuição em forma de sino, o que não me parece ser razoável neste caso. Assumir uma hipótese inverídica a respeito dos teus números (não quero usar a palavra "dados" para não soar ambíguo) pode acabar te gerando falsos negativos. Te mando uma pergunta: se a distribuição de signos fosse de 1% para todos eles, exceto aquário e peixes, que teriam 39% e 51% cada um, este método que tu usou não detectaria esta diferença, embora seja difícil não acreditar que ela exista. 51%, no exemplo que dei acima, está a menos de 3 desvios de distância da média dos valores.

    No exemplo dos dados, cada número seria uma categoria. Se, por exemplo, eu lançasse este dado 20 vezes e obtivesse

    6 2 2 2 3 6 6 2 2 4 4 1 5 2 1 4 1 6 4 1

    eu poderia representar esta amostra com as seguintes categorias:

    1- 20%
    2- 30%
    3- 5%
    4- 20%
    5- 5%
    6- 20%

    Neste caso, este método dos desvio não funciona porque os dados não seguem distribuição normal. Eu assumiria distribuição multinomial para eles. Me parece ser a mais adequada.

    Não sei o quanto seria razoável assumir que metade dos cadastrados é de homens. Não tenho base nenhuma para afirmar isto, mas desconfio que mulheres sejam maioria em sites de relacionamento, embora digam por aí que homens traem mais. Neste caso, não tenho opinião formada sobre isto, embora uma boa aproximação talvez fosse possível utilizando dados de outros sites de namoro, vendo se há uma constância na porcentagem de membros destes sites e extrapolando isto para o AshleyMadison.

    Abs

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    1. Opa, grato pela explicação. De fato, a pressuposição da curva de sino me escapou e viciou a análise.

      Quanto aos números absolutos, dei uma busca na internet e o consenso parece ser de que há "dezenas" de homens para cada mulher no A-M, mas não achei os números. Mandei um e-mail pra eles pedindo. Se responderem, vai ser divertido...

      Bem, mais uma vez, obrigado pela correção! Abs!

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    2. Marcus, se quiser brincar um pouco, recebi os totais da assessoria de imprensa da agência de encontros: a pesquisa foi feita com 13.491.221 usuários (71.9% homens, 28.1% mulheres).

      Fiz umas brincadeiras aqui e me parece que o resultado é significativo, veja só...

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