Lovelock mudou de ideia. Who cares?

Alguém pode me explicar, por favor, quando foi que James "Gaia" Lovelock virou a principal autoridade científica disponível a respeito dos rumos do aquecimento global? Dado o grau de atenção que seu mea culpa recente, sobre ter sido excessivamente pessimista quanto aos efeitos da mudança climática, recebeu na grande mídia, eu me vi imaginando que Niels Bohr, redivivo, havia renegado a Interpretação de Copenhague da Mecânica Quântica.

Mas, aos fatos. A última publicação de Lovelock remotamente ligada à questão, num veículo com revisão pelos pares e citada em seu website pessoal, ocorreu em 2007. Foi uma carta à Nature, e tratava de um esquema de bioengenharia para captura de carbono. Uma colaboração anterior, de 1987, veiculada no mesmo periódico, falava de plâncton e formação de nuvens. Em 1994, ele havia discorrido um pouco mais sobre o mesmo assunto, a relação entre seres vivos marítimos e a regulação do clima.

As "previsões catastróficas" das quais ele se retratou recentemente não fazem parte de seu trabalho científico, mas de material informal publicado na imprensa. Há uma diferença entre retratar-se de um artigo publicado na Nature e de comentários feitos ao tabloide Daily Mail embora, ao que tudo indica, a diferença seja sutil demais para algumas pessoas, principalmente para os áulicos do negacionismo climático-florestal, captarem adequadamente.

De qualquer modo, o circo de mídia armado pelos negacionistas mais afoitos abre espaço para uma questão interessante: como se estão saindo as previsões feitas pelos cientistas que realmente publicaram estudos cuidadosos sobre os destinos da Terra frente à mudança climática? Digamos, James Hansen, do instituto Goddard da Nasa, uma das primeiras vozes a advertir para os riscos do efeito estufa desenfreado, e que continua a estudar o assunto, tendo publicado um artigo científico a respeito, mais recentemente, em 2010?

O gráfico abaixo compara as curvas de temperatura dos cenários "otimista" e "pessimista" previstos por Hansen, em 1981, a respeito da evolução da temperatura global. A linha preta contínua é uma curva criada com base nos dados brutos apurados no período (dados que estão marcados na linha preta em ziguezague):


Não parece exatamente alarmista, parece? A realidade ficou ainda pior que a versão pessimista. Entre as previsões de caráter mais qualitativo feitas por Hansen em 1981, estavam o surgimento de zonas de seca na América do Norte e na Ásia Central, a erosão de parte da capa de gelo da Antártida e a abertura da Passagem de Noroeste no Ártico, permitindo a comunicação marítima, livre e desimpedida, entre Ásia e Américas, pelo círculo polar.

Como nota o site Skeptical Science (de onde vem o gráfico), todas essas previsões se confirmaram (a Passagem de Noroeste abriu-se em 2007). E, ao contrário de Lovelock, que achou por bem baixar a bola, Hansen vem se mostrando cada vez mais alarmado com os rumos da mudança climática.

"Alarmado" no entanto, não é o mesmo que "alarmista", e aí reside a confusão que muitas pessoas, seja por malícia ou ingenuidade, estão fazendo em relação à retratação de Lovelock.

O fato de o criador da Hipótese Gaia não achar mais que a humanidade será obrigada a fugir em massa para a Groenlândia a fim de escapar da extinção nos próximos 50 anos não significa, primeiro, que essa ideia tenha, algum dia, sido popular entre os estudiosos sérios da questão (até onde sei, nunca foi); segundo, também não significa que esses tais 50 anos não serão perigosos e desagradáveis, com muita dor e sofrimento causados pelo aquecimento global provocado pela ação humana.



Comentários

  1. Li a alguns anos atras uma entrevista que o Lovelock deu a Veja. Nela ele dizia que 80% da população morreria devido ao aquecimento global e só existiria vida humana no Ártico e nas Cordilheiras.
    http://veja.abril.com.br/251006/entrevista.html

    Para mim essa previsão dele é muito exagerada. Nunca vi em nenhum lugar cientistas fazendo previsões tão catastróficas. Se ele está se retratando delas, não afeta em nada as estimativas mais realistas feitas por outros cientistas do clima. Não apoia nenhum pouco o texto retardado do Reinaldo de Azevedo.

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