Mas o que caiu em Roswell, mesmo?

Estamos em julho, o que significa que chegou a hora de faturar uma grana fácil em cima do "Evento Roswell": por exemplo, este ex-agente da CIA que, por acaso, tem um livro sobre conspirações governamentais para promover. O mês marca o aniversário da maior bola fora de relações públicas de todos os tempos, quando, em 1947, um tenente da Força Aérea americana (na época, ainda chamada de "Força Aérea do Exército", ou AAF) divulgou um comunicado à imprensa dizendo que os destroços de um disco voador haviam sido recuperados numa fazenda da cidade de Roswell, no Novo México.

Um dia depois um desmentido formal foi emitido, afirmando que os restos recolhidos eram de um balão meteorológico, mas aí a bomba-relógio já estava armada, e a expressão "balão meteorológico" se viu a meio-caminho de virar sinônimo de "desculpa esfarrapada".


A bomba, no entanto, não estourou de imediato. Foi preciso esperar até o fim da década de 70, quando um dos três homens da Força Aérea que se dirigiram ao local dos escombros para recolhê-los, Jesse Marcel, passou a declarar, para quem quisesse ouvir, que o desmentido era falso, e que ele e seus colegas haviam, de fato, capturado os vestígios de um disco voador.

Marcel virou uma espécie de herói nos círculos ufológicos, e foram necessários ainda alguns anos até que investigadores mergulhassem em sua ficha militar e descobrissem que o homem era um mitômano: por exemplo, ele havia dito em várias entrevistas que atuara como piloto e canhoneiro em bombardeiros na 2ª Guerra Mundial, mas a ficha informa que ele jamais recebera treino para pilotar aviões ou manusear artilharia.

Ele também declarou ter sido o autor do pronunciamento lido pelo presidente Truman, anunciando ao povo americano que os russos haviam construído uma bomba atômica. Mas o fato histórico é que o anúncio da existência da bomba soviética não foi feito em pronunciamento presidencial.

Não que as discrepâncias em relação ao histórico militar e o currículo inflado sejam os únicos obstáculos à aceitação da versão de Marcel. Ele também dizia que, na entrevista coletiva em que houve o desmentido da história do disco voador, os destroços reais tinham sido substituídos pelos restos de um balão meteorológico antes de os jornalistas entrarem, mas que ele mesmo, Marcel, tinha posado para algumas fotos com os vestígios reais. Bem, abaixo, uma foto de Jesse Marcel com os destroços de Roswell (antes da "troca"):


E, a seguir, uma das fotos da imprensa, com os destroços nas mãos do general Roger Ramey, autor do desmentido e portanto, supostamente, pós-"troca":


Agora, quero ser um sabugo de milho se as duas imagens não mostram exatamente o mesmo tipo de material. Em sua única declaração registrada sobre o assunto, publicada na imprensa, o fazendeiro William "Mac" Brazel, que descobriu os destroços e chamou a Força Aérea para recolhê-los, descreveu-os como papel alumínio, fita adesiva e palitos de madeira. Outras pessoas que tiveram contato com o material ofereceram descrições parecidas, acrescentando que parecia haver "figuras" ou "hieróglifos" (nas palavras de Marcel) na fita. Seria escrita alienígena?

A resposta surgiu no início da década de 90, depois que o Congresso americano determinou que a Força Aérea realizasse uma investigação interna e revelasse todas as informações pertinentes ao "incidente de Roswell". Como parte do processo, todas as pessoas envolvidas no incidente que, por algum motivo, estivessem presas a acordos de confidencialidade foram liberadas de seus juramentos, contratos, etc., a respeito.

O relatório da investigação pode ser lido online. Ele inclui, em seus apêndices, declarações juramentadas do tenente-coronel Sheridan Cavitt, que acompanhara Marcel até os destroços. Cavitt diz que os restos no chão eram "consistentes com um balão meterológico" e que ele nunca imaginou que fossem "grande coisa". "Não havia nenhum esforço especial de segurança ou segredo", disse. "Só voltei a pensar nisso bem depois de me aposentar, quando passei a ser procurado por pesquisadores de óvni (...) Na época pensei, como ainda penso agora, que eram os restos de um balão caído".

O relatório conclui que o que caiu em Roswell foi provavelmente não um balão meteorológico, mas um balão e um conjunto de refletores de radar do Projeto Mogul, uma iniciativa ultra-secreta (na época) para fazer microfones flutuarem na atmosfera a fim de captar vibrações produzidas por testes nucleares soviéticos (era 1947, lembre-se: os satélites espiões ainda não tinham sido inventados). Abaixo, uma foto de um dos refletores de radar usados nos modelos de teste do Mogul:




Esses refletores eram feitos de papel alumínio, palitos de madeira balsa revestidos de cola e fita adesiva. Um dado interessante é o de que os primeiros deles foram produzidos por uma fábrica de brinquedos, que usava neles sobras de seus outros produtos -- incluindo fita adesiva com marcas coloridas de flores e formas geométricas. Eis os "hieróglifos" de Marcel. Um conjunto de balões arrastando uma trilha de refletores era como a imagem um pouco mais abaixo, à esquerda.


O fato de a Força Aérea americana terceirizar parte de um programa ultra-secreto para uma fábrica de brinquedos pode soar estranho, mas é importante lembrar que praticamente nenhum dos componentes de um conjunto Mogul -- o balão, os refletores -- era de fato secreto. Apenas seu uso (espionar as atividades nucleares da Rússia) é que era confidencial.

No caso do Mogul, a cobertura era a de que se tratava de um programa de pesquisas sobre balões da Universidade de Nova York. De fato, nem o pessoal da base de Roswell -- na época, a única instalação militar em todo o mundo capaz de lançar um ataque nuclear -- tinha conhecimento do trabalho para descobrir explosões soviéticas, o que talvez ajude a explicar a confusão inicial e o infame press-release sobre "disco voador".

O relatório de 1994 da Força Aérea, enfim, conclui que "todo o material oficial disponível, embora não trate diretamente de Roswell, indica que a fonte mais provável dos destroços recuperados no Rancho Brazel é um dos conjuntos de balões do Projeto Mogul". A identificação equivocada com um balão meteorológico é plausível porque "não havia diferença física nos alvos de radar e nos balões de neoprene (exceto pela quantidade e configuração) entre os balões Mogul e os balões meteorológicos normais".

Mas é claro que o assunto não morreu no relatório. Não só a cidade de Roswell descobriu no óvni de 1947 uma importante fonte de renda (via turismo) como a própria lógica da teoria de conspiração agiu contra os resultados da investigação da Força Aérea: é claro que eles iriam inventar uma desculpa!

 O problema com esse raciocínio é que ele só admite como verdade aquilo que quer ouvir. Mas, o que se oferece em contraponto à evidência -- a ficha de Marcel, as fotos, as declarações de Cavitt e dos cientistas ligados ao Projeto Mogul tal como descritas no relatório oficial, o depoimento de Brazel à imprensa, falando em "papel alumínio e palitos de madeira"? Exceto pelos depoimentos de Marcel a ufólogos (e o livro The Roswell UFO Crash: What They Don't Want You to Know, de Kal Korff, mostra como a história de Marcel mudou com o passar do tempo), só existem relatos de segunda ou terceira mão de supostas testemunhas ou de descendentes de supostas testemunhas. Especulações, fantasia e paranoia.

E uma dose saudável de interesse comercial, para manter a vaquinha de Roswell firme do pasto, dando leite a quem se dispuser a ordenhá-la.

(As imagens da postagem são reproduções do livro de Korff)

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"