Alerta de arrogância religiosa

Nota rápida.

Hoje vi nos jornais a foto de uma manifestação no Brasil contra o tal filme "A Inocência dos Muçulmanos", onde havia um cartaz com os dizeres, Ofender 1,6 bilhão de pessoas é liberdade de expressão? Sobre isso, duas coisas.

Primeiro, respondendo à questão do manifestante: sim, é. Liberdade de expressão é a liberdade de dizer coisas que incomodam os outros. Dizer o que todo mundo quer ouvir não é liberdade de expressão, da mesma forma que ir onde os outros mandam não é liberdade de ir e vir. Dã.

Segundo, quem disse que há 1,6 bilhão de pessoas (o total estimado de muçulmanos no mundo) ofendidas? Há uma arrogância profunda que afeta líderes religiosos em geral, a presunção de falar em nome da comunidade dos fiéis. O que é uma enorme besteira.

Eu era católico quando o filme Ave Maria, de Jean-Luc Goddard, foi proibido no Brasil, e me lembro de um padre histriônico escrevendo, em artigo para a Folha de S. Paulo, que o filme "cuspia na nossa mãe", referindo-se à comunidade dos católicos. Bem, lembro-me de ter pensando, na minha mãe, não, ninguém cuspiu.

Então, senhores políticos sem princípios que se acovardam diante de qualquer manifestação de contrariedade, tomem nota: a CNBB não é a voz dos católicos, os manifestantes anti-filme não são a voz dos muçulmanos. E, senhores que ainda mantêm alguma fé religiosa: por favor, sempre que alguma liderança tentar sequestrar a voz de vocês para defender besteiras, façam-se ouvir.



Comentários

  1. Bancando um pouco o advogado do diabo, compadre: e como fica o caso do apresentador de TV que disse sobre um determinado assassino "não tinha Deus no coração, só quem é ateu e não tem Deus no coração faz uma coisa dessas"?

    Estou parafraseando, claro. Mas, e aí?

    -Daniel Bezerra

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    Respostas
    1. Oi, Daniel! Acho que ele tem todo o direito de dizer isso, da mesma forma que nós temos o direito de dizer que quem diz isso é um imbecil. Os únicos limites que realmente vejo como razoáveis para a liberdade de expressão são calúnia, difamação (acusar de crime e/ou de conduta desonrosa sem provas) e perigo real e imediato (gritar "fogo" num teatro lotado, incitar uma multidão enfurecida a linchar alguém). Todo o resto -- que, fundamentalmente, inclui contar verdades inconvenientes ou causar ofensa (chamar de gordo, feio, filho da puta, etc.) deveria ser livre, não porque é necessariamente bonito ou heroico, mas porque é necessário para manter o ambiente intelectual arejado, da mesma forma que a liberdade de guiar automóveis é preservada, mesmo que eventualmente leve a atropelamentos.

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    2. Claro, o ponto todo é esse. Na civilização, se um camarada xinga o outro (ou o povo/ cultura/ postua religiosa do outro), é perfeitamente possível procurar reparação. Daí a matar mais de 20 pessoas em 2 semanas vai uma larga distância.

      -Daniel Bezerra

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    3. Liberdade de expressão é o direito de dizer o que quiser inclusive ofensas.Se formos limitar esta liberdade às ofensas, qualquer coisa que se diga, dependendo de quem ouve ou lê pode se sentir ofendido. E se for este o caso entre na justiça processe com base nas leis vigentes, como fizeram os ateus em relação ao apresentador Datena.Agora, matar, destruir propriedades por se sentir ofendido é crime, barbárie.

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