Cérebro virtual, numa garrafa idem

A União Europeia decidiu aplicar a bagatela de 1 bilhão de euros (arredondando para cima, 3 bilhões de reais) no Projeto Cérebro Humano, uma iniciativa de pesquisa com vários objetivos interligados. Entre eles, o de entender o funcionamento do cérebro bem o suficiente para que possamos derivar novos tipos de tecnologia daí -- "computação neuromórfica" é o nome -- e, no front da medicina, há a meta de integrar tudo o que sabemos sobre neurologia e doenças do sistema nervoso.

Tudo isso é muito importante e muito legal, mas uma das metas tem uma importância filosófica que não deve ser subestimada: a plataforma de simulação do cérebro. Citando a brochura informativa do projeto:

"A plataforma deve tornar possível criar e simular modelos do cérebro em diferentes níveis de detalhe, adequados a diferentes questões científicas (...) Ferramentas disponibilizadas pela plataforma gerarão os dados necessários para pesquisa em medicina (modelos de doenças e efeitos de drogas), computação neuromórfica (modelos do cérebro para implementação em hardware neuromórfico) e neurorrobótica (modelos de circuitos neurais para tarefas cognitivas e comportamentais específicas)."

E, mais adiante:

"Uma das questões mais complexas diante da ciência e do pensamento moderno é a da consciência. Quais os mecanismos neurais e princípios de arquitetura que permitem que seres humanos e outros animais transcendam o processamento básico e inconsciente que ocorre nos reflexos e nos animais inferiores, experimentando o mundo conscientemente? (...)  As plataformas oferecerão uma oportunidade para testar modelos que já existem, criar novos e realizar experimentos 'in silico' ".

Resumindo, o projeto tem a ambição de ser capaz de simular os processos da consciência. O texto de apresentação é cauteloso, ao mencionar "correlatos neurais da consciência" e "mecanismos biológicos da consciência", expressões que estabelecem uma certa distância linguística entre o que acontece no cérebro e o fenômeno da consciência em si.

Sempre que leio algo assim, no entanto, lembro-me do ensaio clássico em que Alan Turing propôs seu famoso teste para detectar inteligência em máquinas.

A rationale por trás do Teste de Turing é tão simples quanto estarrecedora: se uma máquina é capaz de simular a consciência humana à perfeição, que critério teremos para dizer que aquilo é uma simulação e não a coisa real? O que distingue a simulação perfeita de uma qualidade da qualidade simulada? Ora, se a simulação é realmente perfeita, se o adjetivo não está ali só como força de expressão, a resposta é -- nada.

Para muita gente, no entanto, a questão da consciência é mais complicada que isso: afinal, há o (aparente) problema da experiência subjetiva.

Décadas de brincadeiras e de pesquisas sérias em torno do Teste de Turing mostraram que um computador pode ser treinado/programado para se comportar como uma pessoa -- ao menos, dentro de alguns escopos limitados, como na clássica "terapeuta" ELIZA -- mas, se seu chat bot lhe diz que está triste, ele está apenas reagindo de forma pré-programada a uma série de estímulos (como um programa jogador de xadrez selecionando um novo movimento) e não sentindo tristeza. Certo? Certo. Mas, pergunta: e quem diz que sentir tristeza não é "apenas" uma reação pré-programada a uma série de estímulos?

A suposta distinção entre atividade neurológica e conteúdo subjetivo muitas vezes é apresentada em termos mais ou menos assim: "O que eu sinto é amor, e isso não se parece nada com a sensação de elétrons saltando entre células". Mas para mim, ao menos, a objeção faz tanto sentido quanto dizer que "o que estou vendo é uma chama, e isso não se parece nada com fótons liberados pela excitação térmica de um gás". Ou, "o que estou ouvindo soa como uma sinfonia, e não se parece nada com ondas de pressão e rarefação de ar atingindo meus tímpanos".

Então, fico cá comigo imaginando se o Projeto Cérebro Humano um dia virá a produzir os "correlatos neurais" da tristeza, amor ou deleite estético in silico, e como poderemos saber se esses correlatos não são idênticos ao artigo legítimo -- e, em caso afirmativo, quais seriam nossas obrigações éticas, se alguma houver, para com o chip que fizermos "amar".


Comentários

  1. sei vcs creem q a consciencia é coisa do cerebro,

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  2. Uma coisa reparei em discussões com amigos religiosos, sejam eles cristãos ou muçulmanos.
    Sempre que essa discussão (Inteligência-Consciente artificial) entrava em pauta a resposta era rápida e não escondia a irrelevância perante a ética que teria de tecer. Muitos dizem que mesmo que simule virtualmente de forma perfeita, nunca equivaleria ao formato original, pois é ausente de alma (algo que seria atribuído somente pelas leis ou controles divinos)
    E então lembrava os religiosos que consideram ciência como inimiga e que não hesitam em apontar um dedo acusador declarando as abominações anti-éticas de estudos, principalmente no caso de clonagens, células-trono,
    experimentos com cobaias voluntárias e etc. Mas num assunto como deste post eles se mostram indiferentes, não
    hesitariam em desligar um HAL super-avançado (apenas como exemplo) se o mesmo clamasse piedade, enquanto que os céticos tendem a pensar mais a respeito.

    MMO

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