O Mito da Queda

Uma das vantagens de meu emprego atual é o acesso liberado ao conteúdo do Chronicle of Higher Education, onde parte dos artigos são de livre leitura e parte, exclusiva para assinantes. Se o artigo Misguided Nostalgia for Our Paleo Past estiver disponível gratuitamente, faça um favor a si mesmo e leia-o. De autoria da bióloga Marlene Zuk,  ele é um excerto do livro Paleofantasy: What Evolution Really Tells Us about Sex, Diet, and How We Live, que deve sair em março, e que já pedi na pré-venda.

O argumento geral parece ser este:

"Nem nós, nem nenhuma outra espécie jamais chegou a um ajuste perfeito com o ambiente. Em vez disso, nossa adaptação é como um zíper quebrado, onde alguns dentes se alinham e outros se afastam (...) querer ser mais como nossos ancestrais significa desejar um conjunto diferente de ajustes".

Soa até meio óbvio, suponho, mas é bom parar para pensar no que essa afirmação representa para o que talvez seja o meme dos memes, a mitologia por trás de praticamente todas as pulsões ideológicas conhecidas pelo homem (e pela mulher, também): o Mito da Queda. A ideia de que, em algum momento do passado, houve uma Era de Ouro onde tudo era perfeito (ou encaminhava-se rapidamente nesse sentido) mas aí apareceu alguém -- os capitalistas, os comunistas, Eva, a Serpente, Xenu, os militares, os imperialistas, os colonialistas, Sauron, Palpatine -- e, pimba, fudeu.

A característica mais impressionante do Mito da Queda é sua aplicação universal. Praticamente toda corrente de pensamento tem uma Era de Ouro em seu inconsciente coletivo, seja a era de capitalismo laissez-faire de antes da I Guerra Mundial, seja o "comunismo primitivo" dos primeiros cristãos ou dos povos paleolíticos, seja o Jardim do Éden. O problema com isso, claro, é que mesmo nas Eras de Ouro havia quem sonhasse com Eras de Ouro ainda mais antigas. O conceito de Era de Ouro vem da Grécia Antiga, que se considerava, já, um período de decadência da raça humana.

Com o passar do tempo, o mito ganha novas roupagens -- em tempos modernos, tende a despir-se da linguagem mais religiosa e abraçar uma roupagem de pretensões científicas. Sua versão mais popular, na seara contemporânea, é de idealizar um passado onde as coisas eram mais "naturais" e menos "processadas", ou um estilo de vida mais próximo àquele para o qual nossa espécie "evoluiu" -- afinal, passamos 99% de nossa existência como espécie na Idade da Pedra. Então, estamos mais "adaptados" a ela. Certo?

Bom, voltando ao trecho citado anterior: "querer ser mais como nossos ancestrais significa desejar um conjunto diferente de ajustes". Nossos ancestrais não eram "perfeitamente" adaptados ao ambiente deles, da mesma forma que não somos "perfeitamente" adaptados ao nosso. Se hoje temos problemas com comida processada e com calçados que prejudicam a coluna, nossos ancestrais tinham verminoses provocadas por comida crua "orgânica" e parasitas que entravam no corpo pela sola dos pés.

Ou, como escreve Zuk:

"Será que nossos ancestrais nas cavernas sentiam nostalgia dos dias antes de serem bípedes, quando a vida era boa e as árvores, uma zona de conforto? Acredita-se que o hábito de comer restos deixados por predadores, como as hienas fazem, precedeu, ou ao menos acompanhou, o nascimento da caça na espécie humana. Então, será que os primeiros caçadores-coletores acreditavam que tirar a gazela do leão que a havia matado era melhor do que essa novidade de matar o bicho por conta própria?"

O Mito da Queda deixa-se ligar com muita facilidade ao do Bom Selvagem (sobre o qual, aliás, outro livro muito interessante, Noble Savages: My Life Among Two Dangerous Tribes -- the Yanomamo and the Anthropologists, acaba de ser lançado) e à falácia do Apelo à Natureza -- a ideia de que se é "natural" é "bom" -- o que provavelmente ajuda a explicar o complexo ideológico eco-evangélico que se está plasmando em torno da figura de Marina Silva.

É importante notar que o Mito da Queda, mesmo quando abraçado em nome de causas ditas "revolucionárias" -- como no caso da parcela da esquerda terceiromundista para quem o capitalismo imperialista é o Um Anel da nossa Terra Média tropical -- é inerentemente conservador e autoritário, já que aponta para uma versão idealizada do passado como o nec plus ultra da condição humana, um lugar para onde todos deveriam voltar, custe o que custar.

Existe um mito oposto ao da Queda, que é o Mito do Progresso -- o de que o futuro será sempre, inevitavelmente, melhor do que o presente é, ou do que o passado foi. A ameaça do holocausto nuclear, do colapso ecológico e dezenas de distopias literárias mais ou menos convincentes ajudaram bastante a enterrá-lo, embora ele ainda seja popular entre certos economistas ultraliberais.

Ambos os mitos são falsos e, no limite, perigosos, mas por alguma razão o da Queda sempre teve uma certa aura de respeitabilidade intelectual, enquanto que o do Progresso costuma ser tratado como uma fantasia de nerds ingênuos. O que não deixa de ser engraçado porque, ao menos na origem, tanto o marxismo quanto cristianismo pareciam muito mais ligados a uma visão brilhante do futuro do que do passado. Talvez a idealização do passado seja, no cenário ideológico, um sinal de cansaço -- uma admissão de derrota, a admissão de que o futuro falhou em chegar.


Comentários

  1. Excelente texto Orsi. Mas particularmente a minha percepção é que em linhas bastante gerais estamos sim, melhores do que na maioria das épocas humanas, conforme creio que o trecho a seguir aponta: "Se hoje temos problemas com comida processada e com calçados que prejudicam a coluna, nossos ancestrais tinham verminoses provocadas por comida crua "orgânica" e parasitas que entravam no corpo pela sola dos pés."

    Creio que o risco é estarmos em presos em um ótimo local que pode nos levar à situações piores (colapso ecológico) de onde podemos, como espécie humana, não nos recuperarmos. A verdade é que não há nenhum ser humano que possa prever com absoluta certeza o futuro, pois se o pudesse certamente exerceria o poder decorrente deste fato.

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    Respostas
    1. Oi, Foguete! Concordo, estamos melhor. Só o fato de o mundo atual ser um onde a maioria da população não é formada por escravos é fantástico. O problema com o mito do progresso é essa visão de que o progresso é inevitável, de que o novo sempre será melhor que o velho. Não temos, na verdade, nenhuma garantia disso.

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  2. Uma versão sócio-cultural desse conceito é o excelente filme "Meia noite em Paris". Fala exatamente desse mito do passado romantizado. Recomendo, ainda que eu mesmo o tenha visto da tela de 7 polegas (talvez 5 ?) de um voo Lima-São Paulo.

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  3. Se isto (a ideia de que algum período do passado é melhor do que o presente), é comum a diversas culturas, diversas correntes ideológicas e manifestada em pessoas de diversas épocas, deve haver alguma explicação psicológica para ela, ou algum mecanismo em nossas mentes atuando nesse sentido.

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