Tudo é genético. E isso é mais complicado do que você imagina

Creio que todo mundo já viu uma das inúmeras fotos que circulam pela internet, de tartarugas que cresceram dentro de anéis de plástico e ficaram com as carapaças deformadas. Agora, responsa rápido: a deformidade  dessas pobres tartarugas tem causa genética ou ambiental?

A carapaça da tartaruga é, obviamente, um fenômeno genético. Genes de tartaruga levam ao surgimento de carapaças de tartaruga, afinal. Só que a deformidade não existiria se não fosse o anel de plástico, que é um fator ambiental. Mas a deformidade também não seria o que é se não fossem os genes: são eles que ditam como o desenvolvimento do animal vai responder à pressão exercida pelo plástico. Com genes diferentes, a tartaruga poderia arrebentar o anel, ou crescer de um modo ainda mais rococó.

Enfim, a deformidade da tartaruga é genética ou ambiental? Um brinde para o cavalheiro que pensou na palavra interação, ali ao fundo. Notemos, porém, que tanto a genética quanto o ambiente são determinantes para o resultado: tirando um ou outro, não haveria um quelônio com aquele formato de carapaça específico.

Notemos, ainda, que o anel de plástico só está no mar porque os seres humanos têm genes que lhes dão cérebros grandes o bastante para refinar petróleo e moldar polímeros, mas aparentemente não grandes o suficiente para jogar o lixo no lugar certo. Mais um ponto para a genética, portanto.

Ou não? Os maus hábitos humanos são, afinal, um fenômeno da cultura, algo "totalmente independente" da genética. Certo?

Sempre que ouço alguém defendendo a ideia de que fenômenos culturais e fenômenos genéticos pertencem a esferas separadas e estanques, fico tentado a responder: "Mas claro! É por isso que os pombos escrevem poesia, que as formigas demonstram teoremas e que os babuínos desenvolveram a democracia parlamentar. Afinal, só o que nos separa dessas outras espécies são os genes e, como todo ser humano bem pensante sabe, genes e cultura são coisas totalmente independentes!"

Para dar o devido crédito aos isolacionistas genético-culturais, sua posição parece derivar de uma espécie de preocupação ética, ou desconfiança ideológica, para com a ideia de que certos fenômenos culturais desprezíveis, tais como a opressão da mulher, o racismo ou o hábito de destruir o meio ambiente, uma vez declarados "genéticos", passem a ser vistos como dados imutáveis ou obrigatórios da natureza humana.  Aliás, para muita gente, a simples ideia de "natureza humana" soa terrivelmente reacionária.

Mas esses temores todos nascem de uma visão extremamente simplista de o que genes são e de como funcionam. Uma metáfora útil, ainda que limitada, é a que compara o gene a uma receita de bolo: ele dá o caminho, mas o produto final depende da qualidade dos ingredientes, do talento do cozinheiro, do estado da cozinha. Essa metáfora permite ainda incluir o mecanismo de feedback: uma vez servido, o bolo gera reações entre os comensais que podem acarretar em mudanças na receita, em seu modo de preparação -- ou, mesmo, garantir que ela nunca mais seja executada.

Da mesma forma, os genes humanos que se expressam de modo a produzir cultura geram um ambiente que vai, por sua vez, afetar a expressão dos genes, reprimindo ou premiando certos comportamentos, estimulando ou vedando a transmissão de certos genes. São genes que produzem, no cérebro, o potencial para surtos de fúria homicida, do mesmo modo que são genes que criam as funções executivas de autocontrole, no mesmo cérebro. Da interação entre os seres humanos, construídos por esses genes, surge o ambiente cultural que vai valorizar o guerreiro berserker ou o diplomata sutil -- ou ambos.

Uma das fronteiras atuais do conhecimento é exatamente a busca por entender como o ambiente afeta o gene -- não apenas sua chance de transmissão para as futuras gerações, mas sua expressão: se um gene predispõe para determinada doença ou determinado comportamento, quais os gatilhos que ativam esses resultados? Alguma substância presente no ambiente? Um hormônio do próprio corpo, liberado em resposta  a um determinado estado emocional? Uma cascata de outros genes, cada um com seu gatilho específico?

É até possível que, no caso dos genes que se expressam de modo a afetar a cultura, a rede de interações seja tão caótica e complexa que, para todos os fins práticos, o modelo de "cultura" aqui e "genética" ali, como campos separados, seja o mais eficaz para fins epistemológicos, assim como tratamos a biologia como algo separado da física de partículas, embora todos os entes biológicos sejam feitos das mesmas partículas estudadas pelos físicos.

Mas notemos que os biólogos não conseguem escapar de vez das partículas dos físicos: a dança dos elétrons no interior da célula é parte fundamental do fenômeno da vida. Talvez, um dia, psicólogos e antropólogos também tenham de pôr o pejorativo termo "biologicista" de lado e comecem a falar, ainda que de forma bem limitada, em genes ou, mais provavelmente, em redes de interação gene-ambiente-cultura.

 As culturas humanas e as sociedades humanas são produtos do genoma humano. Têm de ser: a espécie humana, afinal, é um produto do genoma humano!

A aversão a esse fato deriva, provavelmente, do temor de que o apelo à genética  seja usado para impor limites artificiais e desnecessários ao que a cultura pode aspirar, ou ao que a sociedade pode vir a ser. Não está claro, porém, que a genética nos imponha qualquer limite nesse sentido -- de fato, a inteligência produzida por nossa genética está prestes a nos conceder o poder de modificar essa mesma genética, o que torna a questão  de eventuais limitações um tanto quanto ociosa, ao menos no longo prazo. Mas, se limites existirem, conhecê-los -- até para que possamos, talvez, eliminá-los -- é melhor do que fechar os olhos e nos esborracharmos contra eles.

Comentários

  1. Embora vc tenha usado a palavra "interação", tem trechos q parecem trair um viés mais genético-determinista. Como ao falar em "gatilhos" ambientais e que "culturas e sociedades humanas são produtos do genoma".

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Isso não é novidade para Ciências Sociais, isolacionismo não faz mais parte de nenhuma ciência. Hoje já se fala em paleoantropologia!

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  3. Eu não acho que isso não faça mais parte das ciências sociais não.
    Estudo psicologia e tenho muitos pares nesse curso, inclusive professores, que não aceitam que somos biológico também. Tratam o ser humano como se tivesse uma mente fora do corpo, numa nuvem exterior, criada e influenciada somente pelo ambiente.

    Mas o texto foi muito elucidativo. Muito bom.

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  4. Interessante seu texto. No entanto, o último parágrafo nos deixa claro que a Genética sem uma base nas Ciências Sociais e Humanas, é tola e perigosa.
    Pense no que pode significar modificação genética para minorias historicamente marginalizadas e oprimidas, como as minorias sexuais.

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  5. Mesmo reconhecendo a interação entre genética e ambiente é dificil - pelo menos por enquanto - utilizar isso de forma objetiva numa análise social.

    Se a medicina - que é bem mais próxima da genética - tem dificuldade em determinar quanto de um câncer é genético e quanto é ambiental, quiçá as ciências sociais.

    É claro que isso tende a mudar - a medida que os genes são mapeados, comparados e testados a genética torna menos desconhecida e fica mais fácil fazer associações. Hoje em dia já é possível prescrever (que é diferente de obrigar) mastectomia para mulheres com uma predisposição genetica a ter cancer de mama.

    Colocar genética e ciencias sociais em caixinhas diferentes e pensa-las separadamente pode ser apenas porque a genética ainda é muito obscura. Daqui a 30 anos talvez os campos estejam mais integrados.

    Por outro lado pode ser também uma decisão política. dificilmente alguém irá defender a eugenia genética tendo na memória o desastre que foi o nazismo. Mas porque não eliminar o nanismo ou a síndrome de down? Porque a sociedade irá construir moradias ou escolas adaptadas para esse tipo de pessoas se podemos evitar que elas sejam fecundadas recorrendo a reprodução assistida? Ou ainda, porque a sociedade permitiria que um casal - devido a suas crenças e convicções - desse origem a uma criança deficiente apenas para que ela sofra numa sociedade inadequada para ela?

    O medo de aceitar que o ser humano é fruto de uma interação entre genetica e ambiente talvez venha da incapacidade de compreender o que é uma democracia no sentido verdadeiro. Uma sociedade democrática respeita e trata bem suas minorias - faz-se a vontade da maioria sem desrespeitar a da minoria. Pode ser uma sociedade preocupada com efeiciencia mas jamais utilitarista; uma minoria não pode ser eliminada só para dar mais conforto a maioria. Uma religião não pode ser perseguida simplesmente porque tem poucos fiéis e é pouco prático reconhece-la enquanto religião. O mesmo valeria para as futuras "minorias geneticas".

    Daí para nos proteger do nosso próprio autoritarismo desviamos a discussão duplamente: nunca paramos para pensar o quanto a genética influencia a nossa vida nem na real natureza da nossas sociedade e ainda, o tipo de sociedade que queremos construir...

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  6. Obrigado pelo brinde ! Juro que tinha pensado nisso.

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  7. Congresso de Comunicação de Ciência
    SciCom PT 2013

    :: Envolver o público
    :: Envolver os cientistas
    :: Envolver os media

    27 e 28 de Maio de 2013 | Pavilhão do Conhecimento, Lisboa

    O Congresso de Comunicação de Ciência 2013 pretende ser um ponto de encontro e discussão para todos os que trabalham e se interessam pela comunicação e divulgação da Ciência.
    A comunidade de profissionais que se dedicam à investigação, promoção, comunicação e disseminação de ciência em Portugal tem-se desenvolvido consideravelmente nos últimos anos, com o correspondente aumento na quantidade e qualidade do trabalho realizado nestas áreas. Paralelamente a este crescimento, o interesse pelas questões científicas e tecnológicas e a procura de informação científica aumentou de forma sensível nos diferentes sectores do público. Com esta evolução, também amplificaram as oportunidades e a necessidade de actualização, de debate e de interacção na comunidade de profissionais de comunicação de ciência. O Congresso de Comunicação de Ciência – SciCom PT 2013 pretende ser uma plataforma ao serviço desses objectivos.

    Data limite para submissão de propostas: 26 de Março de 2013
    Data de anúncio das propostas aceites para comunicação: 22 de Abril de 2013
    Data limite para inscrição: 20 de Maio de 2013

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