Prova pra eles

Conheço GiulianaVallone, a jornalista da TV Folha que foi atingida no olho por uma bala de borracha disparada por algum membro soberbamente corajoso da Tropa de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Digo soberbamente corajoso, de uma bravura olímpica, até, porque, como Giuliana conta em postagem no Facebook, não foi uma "bala perdida", mas um tiro mirado, calculado.

Então, imagine: você um soldado treinado, armado, contando com o apoio dos colegas ao seu redor. Vê uma menina pequena, magrinha (a última vez que vi a Giu, ela não devia pesar mais que 60 quilos, se tanto) de óculos, desarmada, na rua. E aí, deliberadamente, puxa a arma de balas de borracha, mira na cabeça, atira. Tem de ser muito macho, muito homem, pra fazer uma coisa dessas. Com mais testosterona que o Conan do Schwarzenegger. Ou o Hércules do Kevin Sorbo. Um verdadeiro homem honrado.

Mas, enfim. Deixemos os estereótipos de gênero de lado. Como ia dizendo, conheço a Giu. Ela trabalhou comigo, por alguns meses, na editoria de Ciência e Educação do Estadão online, até pedir para ser remanejada para Economia. Devia estar cansada de traduzir boletins do EurekAlert, que era basicamente o que eu lhe pedia para fazer. Não a culpo. Digo isso para deixar claro que a análise a seguir é, possivelmente, enviesada. Caveat lector.

O PSDB em São Paulo nunca conseguiu extirpar da PM a truculência instilada na tropa durante a ditadura e cultivada nos governos Quércia (um tia minha, já falecida, professora estadual, apanhou muito da PM do Quércia) e Fleury. Às vezes, me pergunto se sequer tentou.

É verdade que o governador Mário Covas desculpou-se publicamente pelos crimes de tortura e extorsão cometidos por PMs em Diadema, em 1997, mas esse foi um ponto fora da curva. No caso do Massacre da Castelinho, ou "ônibus do PCC",  por exemplo, o governador Geraldo Alckmin partiu em defesa dos policiais envolvidos, mesmo depois de a perícia revelar um cenário mais compatível com uma ação de esquadrão da morte.

Alckmin parece favorecer, quando não estimular, uma espécie de "truculência sanitária", restrita, na medida do possível, aos jovens sem voz da periferia e a grupos já marginalizados, como usuários de drogas e presidiários. Essa ferramenta gera uma ilusão de segurança que é reconfortante para boa parcela dos "cidadãos de bem", crentes de que os bárbaros estão contidos para além dos portões. Tanto os ataques periódicos do PCC quanto a taxa ridiculamente baixa de resolução de crimes mostram, no entanto, que a sensação de segurança é tão falsa quanto promessa de político.

Às vezes essa truculência "vaza" para dentro dos muros da pólis dita civilizada, como no caso das agressões a estudantes da USP e na fúria do Choque contra os manifestantes e jornalistas na Paulista, ontem.

Esses transbordamentos são didáticos e, numa visão talvez por demais otimista, civilizadores: se é verdade que o transporte coletivo só vai melhorar quando a classe média deixar o carro em casa, talvez seja preciso que a classe média tome borrachada no lombo para que a pressão da opinião pública force polícia a, finalmente, respeitar o contribuinte que a sustenta. Foi por isso, até, que me manifestei aqui, tempos atrás, contra a retirada da PM da USP: a elite intelectual precisa saber, afinal, como é a polícia do Estado em que vive.

Eu já escrevi algo parecido numa longa postagem sobre direitos humanos, mas vamos lá: quando se autoriza o cara que está lá na ponta da repressão, com a arma na mão, a decidir discricionariamente quem é "trabalhador" ou "bandido", quem é "manifestante" ou "baderneiro", todos nos tornamos bandidos e baderneiros em potencial. Esse tipo de triagem a olho nu pode parecer útil, até profilático, quando visto de longe e praticado contra os outros, mas trata-se, mais uma vez, de pura ilusão.

O Ziraldo tem um cartum, do tempo da Redentora, em que duas serpentes conversam com um elefante. Elas dizem que o elefante deve tomar cuidado, porque o clima está ruim para as cobras. Ao que o paquiderme responde, entre surpreso e indignado: "Mas eu não sou cobra!"

Prova pra eles, desafia o réptil em fuga.

Comentários

  1. Essa visão do governador é a visão de grande parte da sociedade. Tenho uma teoria de que a internet e o aumento de crimes captados por câmeras de segurança, provocam uma sensação do aumento da criminalidade, (impressão que nem sempre é sustentada pelas estatísticas) e como consequência aumenta o desejo de repressão violenta contra "criminosos". Daí estamos a um passo da barbárie. Não estranharei se começarem a haver casos de linchamentos pelo,país a fora.

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  2. Sou da modesta opinião que uma justiça eficaz é lenta para julgar, porém rigorosa na punição.

    O que ocorre no país é o contrário: somos rapidamente julgados como culpados (a maioria nem precisa chegar ao tribunal para ser julgada) pela opinião popular, polícia, etc, porém quando o julgamento formal termina o rigor é pouco (ex: mensalão e outros crimes do colarinho branco, crimes bárbaros provocados por menores de 17).

    Ou seja, está tudo errado. Diante de um cenário destes não há como criticar quem saia para as ruas mesmo.

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  3. E não é só a PMESP. Toda PM tem essa cultura. Eldorado dos Carajás (Almir Gabriel, então do PSDB, mas com carreira pregressa na Arena); a repressão da PMDF (Agnelo Queiroz-PT) agora na abertura da Copa das Conflagrações; PMBA (Jacques Wagner-PT) agora no manifesto dos alunos e funcionários da FTC...

    []s,

    Roberto Takata

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