Blogs de ciência em crise?

Em seu blog Gene Repórter, Roberto Takata pergunta se há uma crise nos blogs de divulgação científica do Brasil -- com base na constatação da queda no número e ritmo de postagens. Falando no caso específico aqui do meu puxadinho virtual, o fato é que boa parte do conteúdo que normalmente seria destinado ao blog acabou, nos últimos tempos, desviado para canais, graças ao Grande Pássaro da Galáxia, remunerados, como o Jornal da Unicamp (onde minha coluna Telescópio é praticamente um "digest" do que sairia no blog) e a revista Galileu, onde atuo como colunista de ceticismo.

Sou o primeiro a admitir que o trabalho aqui no blog foi importante para que eu conseguisse esses dois espaços, só que muito menos por conta da visibilidade (alguém aí?) e mais pela disciplina de trabalho e pela experiência acumulada na busca por fontes de informação. 

A maior parte dos demais blogueiros de ciência no Brasil é, imagino, composta por jovens cientistas, gente com vinte anos a menos e dois ou três títulos acadêmicos a mais que eu. Não sou, portanto, representativo da população. Mas, se me permitem um palpite, por trás dos motivos apontados pelos blogueiros que responderam à provocação do Takata -- falta de tempo, de ideias, de motivação, avanço das redes sociais -- espreita um denominador comum: falta de remuneração.

Há uma frase, atribuída ao escritor de ficção científica Bruce Sterling, que diz que, no mundo da internet, se você for realmente bom no que faz de graça na rede, cedo ou tarde alguém vai se oferecer para pagar por aquilo. O problema, como os jornais e revistas que oferecem conteúdo gratuito na rede vêm descobrindo, é como pagar as contas até que o "cedo ou tarde" chegue -- e, não menos importante, o significa ser "realmente bom", afinal.

No grande "lá fora", blogueiros de ciência como Phil Plait e Carl Zimmer  mantêm blogs dentro da estrutura de grandes conglomerados de mídia que, suponho, pagam alguma coisa pelo privilégio de hospedá-los. Posso estar sendo cínico demais, mas não imagino que nenhum dos (poucos) blogueiros de ciência abrigados nas grandes empresas nacionais de comunicação receba algum extra para blogar. E embora a ideia de a Globo.com ou o UOL pagarem para assimilar A Neurocientista de Plantão não me pareça especialmente ridícula, ela talvez soe assim para os contadores que substituíram os publishers no topo da hierarquia estratégica das empresas de comunicação hodiernas.

E por que remuneração faz falta? Porque tempo e neurônio são recursos escassos. Se você está blogando, você não está consertando a pia da cozinha, nem produzindo algo que vá ajudar a pôr comida na mesa. O que, no longo (ou mesmo médio) prazo tende a irritar o cônjuge, o estômago, ou ambos. Além disso, não há nada melhor que um deadline se aproximando e um cheque pairando no ar para resolver problemas de falta de ideias.

Numa inversão da Lei de Sterling, se você faz uma coisa bem, de graça, por muito tempo e ninguém se oferece para pagar, a tendência é passar a fazê-la ou menos bem, ou com frequência cada vez menor, que são duas formas de investir menos recursos na atividade e limitar as perdas. 

Aqui alguém poderia me lembrar de que dinheiro não é o único tipo de remuneração que existe: satisfação pessoal, sensação de dever cumprido, respeito dos pares também contam. Mas da mesma forma que fazer coisas só por dinheiro tende a produzir gente mesquinha, fazer coisas só por satisfação pessoal tende a produzir narcisistas bobinhos. E disso, a blogosfera já está cheia demais: não precisamos de divulgadores de ciência para engrossar essa gangue.

Não creio que seja uma situação fácil de resolver: não vejo ninguém disposto a pagar para que blogueiros bloguem. Imagino que, por um bom tempo ainda, os blogs de divulgação continuarão a florescer, quando feitos por jovens cheios de energia ou com um senso muito forte de missão, de "recado para dar". Conforme esse senso enfraquece, ou a Maldição de Adão -- "ganharás o pão com o suor de teu rosto" -- se instala, as postagens ficarão mais espaçadas, com alguns divulgadores profissionalizando-se em outras plataformas (jornais, revistas, televisão) e a grande maioria, partindo para outra. Meio como músicos de bandas de garagem.

Uma última palavra, agora sobre redes sociais: elas são plataformas ótimas para muita coisa, mas reflexão não me parece uma delas. Funcionam mais como caixas de comentários infinitas, mas quase sempre com referência a algum conteúdo externo -- um filme, um livro, uma série de TV e, sim, postagens de blog. 

Comentários

  1. Verdade, sem remuneração fica difícil. Mas eu tento ver por outro lado. Se você, como eu, gosta da ideia de viagens intergaláticas ao som de danúbio azul, então não vejo outra alternativa senão ajudar a construir uma sociedade mais racional. Um blog de ceticismo ou de ciência não é muito, mas é alguma coisa. E ajuda a passar o tempo enquanto o motor anti-gravitacional não chega.

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  2. Por mais que seja plausível sua pŕática escolha, Carlos, não vejo como em médio prazo as grandes mídias em decadência vão sequer pensar em investir em temas não determinados por elas.

    Não podemos nos esquecer de um aspecto: O que está sendo mais visitado pelos jovens são os veículos essencialmente voltados para a aparência e o consumo rápido de informação como é o caso dos vlogs. Na sua maioria estes são bancados pelo Youtube (c/ o velho perigo de se colocar todos os ovos num cesto só) e a competência de cada vlogueiro em chamar a atenção é muito mais diretamente relacionada ao faturamento do criador do vlog. Alguns deles passaram a viver disso, Mesmo considerando que a maior parte destes são não especializados (ou até por causa disto) conseguiram visibilidade e penetração geral de suas idéias de forma muito mais efetiva e rápida que qualquer revista ou jornal genérico, cujos gerentes mal se deram conta ainda da perda progressiva de sua importância.

    Conselho aos blogueiros menos tímidos: invistam em vídeos com conteúdo e saiam do poço de potencial de sua produção escrita solitária (logo à minha cabeça vem um exemplo de um vlog semi-científico, semi-genérico bastante bom que é o vlog do Pirulla, um bem-humorado doutorando de paleontologia).

    Ricardo França

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  3. Carlos,

    Quando comecei a conversar com alguns colegas nossos através do Twitter (e que foi a origem de todas as reflexões!), o meu intuito era descobrir um jeito de aumentar a periodicidade no meu próprio blog. E, no fim, percebemos que existem outros tantos problemas na blogosfera e que cada um enfrenta suas próprias dificuldades para continuar postando.

    Espero que a falta de reconhecimento financeiro não gere desmotivação generalizada, pois ainda acredito nos blogs como uma ótima ferramenta para a discussão e para o surgimento de novas ideias. E sou um exemplo disso, pois utilizo o Polimerase de mesa como um espaço em que posso praticar a escrita de textos (quase todos) relacionados a divulgação científicia.

    Obrigada pela sua contribuição para a blogosfera!

    Abraços,
    Mariana Fioravanti

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    1. Oi, Mariana! Acho que tende a desmotivar, mas numa perspectiva de longo prazo: chega uma hora em que o blogueiro começa a se sentir perdendo tempo, ou a sentir cobranças de outras atividades. Mas creio que cada um tem seu ritmo, e há os que mantêm o entusiasmo por períodos longos. Minha impressão, no entanto, é de que a atividade sempre terá alta rotatividade, com gente nova entrando e gente estabelecida saindo por cansaço.

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  4. Acho que existe, também, outro motivo para se parar de ter blogs de ciência: se considerarmos que quando se iniciou a "era dos blogs de ciência" os blogueiros se interessavam em se aprimorar e colocar idéias e conclusões a prova de outras mentes, então, uma vez que se chega ao desenvolvimento pessoal almejado, diminui-se até quase parar as publicações.

    Os novos cientistas? Eles tem repositório tão grande de dúvidas esclarecidas, temas abordados, opiniões e pontos de vista na internet que, em quase 99% das vezes, não teriam muito a acrescentar e esse possível acréscimo seria tão pouco na maioria das vezes que não se motivariam a fazer um simples post de blog.

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  5. Acho que no fundo os blogs científicos são direcionados a um público bem específico que procura informação e conhecimento na internet. O que não parece ser a maioria, já que o que mais faz sucesso são os que tratam de humor.

    Concordo também com o que o colega escreveu acima: as pessoas buscam obter a informação de maneira mais rápida. Assim, os vlogs são mais populares. A maioria das pessoas não se prende para ler um texto por muito tempo. Então, penso eu, que os blogs tem um grupo mais reduzido de seguidores do que os vlogs.

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