Carl Sagan versus Astrologia: uma lição

Hoje é aniversário de Carl Sagan: o astrônomo americano, idealizador original da série de TV Cosmos e um dos mais importantes popularizadores da ciência no século 20, estaria completando 81 anos nesta data, se o câncer não o tivesse levado em 1996.

Além de divulgador da ciência, Sagan foi uma das principais vozes do movimento cético americano, que ganhou fôlego renovado a partir dos anos 70 do século passado. Quem assistiu a Cosmos provavelmente se lembra do duro ataque desferido por ele à astrologia, no início do terceiro episódio da série (há vários clipes dessa passagem online, como, por exemplo, este aqui).

É curioso, portanto, que ele tenha se recusado a participar do manifesto contra a astrologia assinado por 186 cientistas, incluindo dezoito ganhadores do Nobel, publicado na revista The Humanist em 1975 e enviado a todos os jornais dos Estados Unidos e do Canadá: esta foi a manifestação antiastrológica mais contundente desde a publicação de Disputationes adversus astrologiam divinicatrium (“Argumentos Contra as Previsões Astrológicas”) de Pico della Mirandola, no século 15. 

Dizia o manifesto: “A aceitação da astrologia permeia a sociedade moderna. Ficamos especialmente preocupados com a contínua disseminação acrítica de cartas astrológicas, previsões e horóscopos pela mídia e por jornais, revistas e editoras de livros que, de resto, têm boa reputação. Isso só pode contribuir para o avanço do irracionalismo e do obscurantismo”.

Sagan se insurgiu contra o tom autoritário do manifesto. Ele disse que assinaria um texto apontando alegações astrológicas específicas e as bases científicas para refutá-las, mas não uma condenação ampla, sustentada apenas na autoridade dos signatários. Foi o que ele fez em Cosmos, citando tanto objeções clássicas, como a dos destinos diversos de irmãos gêmeos, quanto outras baseadas em conhecimentos científicos modernos.

A história do manifesto dos 186 é curiosa e instrutiva. Curiosa porque a publicação do texto acabou desencadeando uma série de estudos -- muitos executados por astrólogos -- sobre a prática, e que acabaram gerando uma massa compacta e virtualmente inquestionável de resultados negativos. Muitos desses trabalhos e suas conclusões são descritos em meu livro sobre astrologia, que será lançado em dezembro. 

E instrutiva porque Sagan, no fim, estava certo: argumento de autoridade não é como a ciência funciona. De fato, relativistas como o filósofo Paul Feyerabend acabaram usando o texto dos 186 como munição em seus ataques à ciência "dogmática" e "oficial". 

Esta á uma lição importante para os dias de hoje, e não só para a ciência, mas também em várias outras arenas de debate, onde opiniões apaixonadas acabam levando as pessoas a fazer vista grossa para argumentos ruins e métodos, em si, injustos: não é porque se concorda com o mérito do que se diz que se deve concordar também, e automaticamente, com o modo como se diz. 

Comentários

  1. Carl Sagan faz muita falta! Eu reli recentemente " O mundo assombrado pelos demônios" e estou lendo agora "Bilhões e bilhões", na minha opinião Sagan foi o maior divulgador da ciência, sua paixão pelo conhecimento e seu compromisso cético é uma inspiração para nos estudantes de ciências que amamos o que fazemos, eu leio sempre quando posso seu blog Orsi, recentemente indiquei a uma amiga do IA aqui da Unicamp, uma matéria sua falando sobre astrologia na Motherboard, que por sinal estava impecável.

    Sou aluno de matemática da Unicamp, e tenho percebido uma crescente irracionalista na universidade, fora as muitas praticas de pseudociências que vemos. Acredito que o senhor ficou sabendo do Doutor Eberlin que se esforçou para promover um "encontro científico" sobre uma doutrina criacionista muito famosa nos EUA, me parece que houve alguma resistência, que por sinal ainda salva o nome da Unicamp, já que não faz muito tempo que a universidade de medicina (FCM), promoveu uma pseudociência chamada "viver de luz" com o titulo de "homeostase quântica informacional" , que por se só é questionável; esperei que o senhor escrevesse algo sobre, mas acho que a polêmica não chegou a seus ouvidos, mas mesmo assim gostaria de parabeniza-lo pelo excelente trabalho ! um abraço de um leitor !

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    1. Oi, Samuel, obrigado! Na verdade eu fiquei sabendo do evento na FCM, mas estava enrolado com outros assuntos na época e acabei perdendo a "janela" de oportunidade. Mas é bom saber que tem mais gente na universidade preocupada com essas coisas: o número de pessoas com posição acadêmica disposta a usar o prestígio das universidades públicas para promover suas crenças pessoas -- místicas, religiosas, pseudocientíficas -- parece só crescer!

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