Para explicar o mundo

Terminei neste fim de semana uma das leituras mais fascinantes do ano, o livro
To Explain the World: The Discovery of Modern Science, de Steven Weinberg. Weinberg, um dos ganhadores do Nobel de Física de 1979, que traça uma história do esforço humano para compreender a realidade física. Ele vai dos filósofos pré-socráticos a Isaac Newton.

A principal linha condutora é a astronomia, e Weinberg inclui uma boa descrição dos quatro grandes modelos do sistema solar propostos ao longo dos séculos -- aristotélico, ptolomaico, tychoniano e copernicano -- e os argumentos levantados contra e a favor de cada um deles, até a vitória final de Copérnico. Essa disputa é muito discutida em certos círculos de historiadores e filósofos da ciência que se perguntam se, afinal, o modelo copernicano era mesmo o mais plausível, dados os conhecimentos disponíveis no momento em que foi finalmente adotado, no século XVII.

Weinberg discute, de modo vivo, o jogo entre observação, teorias e modelos matemáticos, e as disputas filosóficas entre o valor relativo de cada um desses componentes do processo científico, partindo do modo aristotélico de levar em conta supostas "causas finais" e considerações estéticas -- se os dados discordam de uma teoria deduzida de princípios a priori, pior para os dados (afinal, não existe medição perfeita)  --, passando pelo empiricismo radical dos defensores de Ptolomeu e Tycho Brahe -- que importa a realidade dos céus, se o modelo funciona? --  e aponta o que lhe parece uma vantagem definitiva do modelo copernicano, mesmo num momento em que ele não concordava perfeitamente com as observações do céu: na versão copernicana do Sistema Solar, havia bem menos parâmetros livres.

Com o modelo heliocêntrico, e dadas as observações existentes, são fixadas tanto a ordem dos planetas a partir do centro quanto suas distâncias relativas. Em contraste, com os epiciclos dos modelos geocêntricos Ptolomeu e Tycho, era possível criar uma infinidade de "Sistemas Solares" consistentes com as observações, variando a localização e o tamanho das órbitas dos planetas.

O livro é interessante em vários níveis. Weinberg avisa, logo de partida, que não vai seguir o método preferido dos historiadores, de tentar tratar as ideias do passado nos termos do passado, e que pretende analisar o pensamento de outros milênios a partir de um olhar claramente moderno.

Esse foco produz alguns momentos esclarecedores e divertidos, como quando ele confessa que, ao ler as ideias dos primeiros "físicos" gregos pré-socráticos -- sobre haver quatro elementos, ou tudo ser feito de água, ou o movimento ser impossível -- tem vontade de gritar: "como você sabe? que experimentos fez? qual sua evidência? Se o movimento é impossível, como você explica que vemos as coisas se movendo?"

Questionamentos assim podem parecer fora de contexto em relação aos autores e textos tão distantes do pensamento moderno, mas Weinberg não está sendo ingênuo ou grosseiro, mas pondo em relevo o que lhe parecem ser alguns dos obstáculos fundamentais que a investigação científica da natureza teve de superar em sua gênese: o apego excessivo ao raciocínio puro, o desprezo pelo dado empírico e, por conseguinte, pela necessidade de conciliar teorias sobre o mundo com as aparências do mundo.

Weinberg é conhecido por sua postura antagônica em relação à religião: ele é o autor da célebre fase segundo a qual, para que pessoas boas sejam induzidas a cometer atrocidades, "é necessário religião". To Explain the World é relativamente neutro nesse tema, mas não deixa de registrar algumas observações críticas.

Ele lembra que alguns dos maiores nomes da ciência do mundo islâmico medieval eram céticos ou ateus, e atribui a decadência da cultura científica na área de influência muçulmana a fatores geopolíticos (como as consequências de longo prazo do saque de Bagdá pelos mongóis no século XIII) mas também religiosos, como a ascensão de uma teologia "ocasionalista", segundo a qual Deus decide, de modo singular, o que vai acontecer em casa ocasião, e que portanto a ideia de leis da natureza, ou ordem natural,  é absurda.

Ao tratar do caso da Igreja Católica contra Galileu, Weinberg opina que as discussões sobre quem estava certo na questão astronômica fogem do cerne do problema: "Suponha que a Igreja estivesse certa e Galileu errado sobre astronomia. A Igreja ainda teria errado em mandar prender Galileu e proibi-lo de publicar, do mesmo modo que havia errado ao queimar Giordano Bruno, herege que era".

Galileu é, ao lado de Isaac Newton, o grande herói do livro (não que os dois cientistas sejam apresentados de modo acrítico: seus erros e falhas de caráter também aparecem). Weinberg se esmera em explicar como Newton estabeleceu a lei da gravitação universal, e aponta a revolução conceitual que essa lei trouxe, quebrando de vez a distinção clássica entre o mundo "sublunar" -- o dos fenômenos a que temos acesso e podemos compreender -- e o "celeste", reservado aos deuses e sobre o qual só poderíamos especular, respeitosamente, à distância.

Ao demonstrar que ambos os mundos seguiam uma mesma lei (que eram, efetivamente, um mesmo mundo), Newton abriu de vez as portas para a ciência moderna.

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