Spotlight

Fui assistir a Spotlight, o filme sobre a investigação exaustiva realizada pelo jornal Boston Globe sobre os casos de pedofilia acobertados pela igreja católica nos Estados Unidos, onde bispos e cardeais limitavam-se a transferir padres acusados de abusar de crianças de uma paróquia para outra, efetivamente fazendo da dita Santa Madre uma espécie de grande cafetina a serviço dos pedófilos: as transferências garantiam que os predadores sexuais  sempre tivessem novas vítimas insuspeitas para atacar -- tudo em nome de "preservar a instituição" e "evitar o escândalo".

O trabalho do Globe no caso foi o que se poderia chamar de jornalismo explícito, arquetípico, quintessencial, o jornalismo-que-justifica-o-jornalismo: meses de apuração minuciosa, busca implacável de depoimentos e testemunhas, tudo para, no fim, contar uma história extremamente relevante e que forças poderosas prefeririam que não fosse contada. Acho que foi George Orwell que disse que jornalismo é publicar algo que alguém preferiria manter em segredo -- o resto é relações públicas.

Um dos pontos para que o filme chama atenção -- e que já foi destacado em várias críticas -- é o fato de que as informações fundamentais, suficientes e necessárias para lançar a investigação realizada pelo jornal entre 2001 e 2002, na verdade já estavam disponíveis há décadas. O próprio Boston Globe já havia recebido denúncias, e optado por ignorá-las. Foi preciso chegar à cidade um novo editor-chefe, vindo de fora (e judeu) para que a redação finalmente ligasse os pontos.

Há três lições importantes aí. A primeira é que nem toda decisão editorial jornalística -- para o bem ou para o mal -- é fruto de deliberações maquiavélicas. O Globe, quando decidiu não investigar a fundo as denúncias de pedofilia feitas nos anos 80 e 90,  não estava "mancomunado com a igreja católica" ou "comprado pelo Vaticano": estava, apenas, imerso num caldo de cultura em que a igreja era vista automaticamente respeitável, idônea e qualquer problema só poderia ser um caso isolado indigno de maior atenção.

O segundo é mostrar o quanto é estúpida a noção, muito popular nestes tempos de identity politics, de que só quem conhece/pode falar sobre/pode criticar/apontar problemas, com legitimidade e propriedade, dentro de uma certa comunidade ou cultura são os membros dessa comunidade ou cultura, e ninguém mais. Ora bolas, se não fosse o forasteiro judeu da Flórida Marty Baron apontar o ponto cego na cobertura do Globe para os católicos bostonianos, a reportagem nunca teria sido escrita.

O terceiro ponto, e é para este que eu gostaria de chamar atenção, é o de que o caso só demorou tanto tempo para vir a tona, o caldo de cultura só manteve a redação do Globe anestesiada por tanto tempo, por causa daquilo que costumo chamar de "deferência especial" concedida às religiões no discurso e no imaginário do público.

A deferência que faz com que instituições e pessoas religiosas sejam vistas, em princípio, como essencialmente boas e acima de qualquer suspeita. Que garante que tenham tratamento privilegiado em questões tributárias, trabalhistas e, até, na fiscalização da segurança das edificações. Que faz com que dizer que, por exemplo, o marxismo ou o liberalismo ou o fascismo são ideias cretinas defendidas por idiotas seja parte aceitável (ainda que vulgar e grosseira) do discurso público, mas que dizer o mesmo do judaísmo, do cristianismo ou do islã seja enquadrável como crime no código penal brasileiro (artigo 208).

Gostaria de propor que a civilização avançaria bastante se essa deferência especial fosse eliminada. Ela, no entanto, tende a se perpetuar, como fica claro, por exemplo, no caso da presença renitente de símbolos religiosos em espaços públicos e da frase "Deus seja louvado" nas notas do real. Políticos gostam dela: genuflexões trazem voto e não custam caro.

Para além da via política ou jurídica, no entanto, há outras formas de combatê-la, por exemplo pela blasfêmia, pela retórica acerba e pelo ridículo, caminhos que buscam eliminar, pelo choque, a deferência especial que habita na cabeça das pessoas, na esperança de que o efeito institucional acabe se seguindo ao psicológico.

Uma última observação: na reta final de Spotlight, quando a reportagem inicial da série sobre os abusos de crianças por sacerdotes e a cumplicidade implícita do cardeal Bernard Law (depois removido de Boston pelo Vaticano e "premiado" com uma basílica em Roma, confortavelmente longe do alcance da polícia dos Estados Unidos) preparava-se para ir às rotativas, fiquei imaginando algo parecido no Brasil, e o anticlímax logo me veio à mente: a liminar do desembargador católico, amigo do arcebispo, chegando à redação na undécima hora para melar tudo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"