O estilo paranoico na política brasileira

"Como podemos explicar nossa situação atual, a menos que creiamos que homens em altas posições deste governo estão concertados para nos levar ao desastre? Isto deve ser o produto de uma grande conspiração, numa escala tão imensa que apequena qualquer outra empreitada do tipo na história da humanidade".

As aspas acima não são de Marilena Chauí ou de Olavo de Carvalho, mas de Joseph McCarthy (1908-1957), senador americano eleito pelo Estado de Wisconsin e famoso (ou infame) por ter desencadeado a onda paranoica de "caça aos comunistas" que varreu os Estados Unidos durante a década de 50, e cujos métodos seriam, segundo a professora Chauí, a inspiração da Operação Lava-Jato. Esse trecho específico de uma fala de McCarthy é citado no hoje clássico artigo The Paranoid Style in American Politics ("O Estilo Paranoico na Política Americana"), publicado pelo historiador Richard Hofstadter na revista Harper's em 1964.

"A política americana tem frequentemente sido uma arena de mentes raivosas", escreveu Hofstadter, acrescentando que "em anos recentes, temos visto as mentes raivosas trabalhando, principalmente, entre extremistas de direta". Mais adiante, no entanto, ele faz a ressalva: "Acredito que há um estilo de mentalidade que não é nada novo e nem necessariamente de direita. Eu o chamo de estilo paranoico simplesmente porque não há outra palavra que evoque adequadamente o senso de ardente exagero, suspeição e fantasia conspiracionista que tenho em mente". Ele escrevia sobre o debate público americano nos anos 60, que se dava nos jornais, rádio e televisão, mas "uma arena de mentes raivosas" define muito bem a fração tupiniquim das redes sociais dos anos 2010.

O historiador faz questão de registrar que não vê o "estilo paranoico" como característica exclusiva de mentes adoentadas: "a ideia do estilo paranoico como uma força política teria pouca relevância contemporânea ou valor histórico se se aplicasse apenas a homens com mentes profundamente perturbadas. É o uso de modos paranoicos de expressão por pessoas mais ou menos normais que torna o fenômeno significativo". "Uso de modos paranoicos de expressão por pessoas mais ou menos normais". Facebook, é você?

Existem muitos estudos sobre o que desencadeia o "estilo paranoico", principalmente na psicologia e nas ciências sociais. Entre os principais fatores elencados com maior frequência, a sensação de perda de controle, de alienação dos processos de tomada de decisão da sociedade, a presença de vieses cognitivos como o viés de proporcionalidade e o viés de intencionalidade -- a tentação de sempre imaginar que tudo o que acontece só acontece porque alguém quis.

Aqui, um ponto curioso: se a predisposição para acatar teorias de conspiração é estimulada pela percepção de falta de controle e alienação; se no Brasil, tanto a esquerda quanto a direita vêm ampliando seus delírios conspiracionistas, então tanto a direita quanto a esquerda talvez estejam se sentindo fora do controle e alienadas das decisões. Se é assim, então, quem está no controle?

Mas, adiante. Em termos filosóficos, o tratamento mais famoso da questão da mentalidade conspiracionista talvez seja o dado por Karl Popper em sua obra monumental A Sociedade Aberta e Seus Inimigos. Ali, Popper critica o que chama de "teoria conspiratória da sociedade", definida por ele como uma espécie de metodologia que considera que a explicação adequada de um fenômeno social é a identificação dos beneficiários desse fenômeno, que se tornam automaticamente suspeitos de tê-lo causado.

Em Conjecturas e Refutações, o austríaco elabora sua objeção: "a teoria conspiratória da sociedade não pode ser verdade porque equivale à alegação de que eventos, mesmo os que à primeira vista não parecem ter estado nas intenções de ninguém, são os resultados propositais das pessoas interessadas nesses resultados". A gripe da professora foi causada pelos alunos que não estudaram para a prova. Em linha com a crítica de Popper e com o reconhecimento dos vícios cognitivos envolvidos na ideação conspiracional, vários estudiosos se referem às teorias de conspiração como uma forma de "epistemologia aleijada".

Mas, como se diz por aí, o fato de você ser paranoico não significa que eles não estão mesmo tentando te pegar. Em tempos mais recentes, filósofos como Charles Pidgen e Matthew Dentith passaram a chamar atenção para o fato de que a história está repleta de conspirações devidamente comprovadas, do assassinato de Júlio César à ação da CIA para usar uma falsa campanha de vacinação no Paquistão a fim de rastrear Osama bin Laden.

Por conta disso, eles põem em xeque a noção de que todo e qualquer uso de conspirações como modelos explicativos reflete algum tipo de "aleijão" epistemológico. Em The Philosophy of Conspiracy Theories, Dentith escreve: "o que fará de uma teoria da conspiração uma crença racional ou razoável depende da evidência. Não devemos descartar uma teoria de conspiração apenas porque alguns conspiracistas acreditam nela". O autor distingue entre "conspiracismo" -- a predisposição retórica, psicológica e epistemológica tão criticada por Hofstadter e Popper -- e as teorias de conspiração em si, que devem ser julgadas racionalmente, com base em seus méritos individuais.

Em Suspicious Minds, livro que já comentei aqui no blog anteriormente, o psicólogo britânico Rob Brotherton oferece algumas pistas que podem servir de critério para distinguir teorias provavelmente paranoicas de outras, talvez legítimas (ainda que não necessariamente verdadeiras).

As formas paranoicas costumam ter amplitude megalomaníaca ("o produto de uma grande conspiração, numa escala tão imensa que apequena qualquer outra empreitada do tipo na história da humanidade", nas palavras de McCarthy), enquanto que conspirações reais têm escopo menor. Artigo recente na PLoS ONE chega a oferecer um método de cálculo para o tamanho máximo plausível de uma conspiração, para que seja viável no mundo real.

Duração máxima possível de algumas conspirações, caso fossem reais, segundo estimativa publicada na PLoS


Voltando a Brotherton, seu livro aponta que os exemplos mais clássicos de teorias do "estilo paranoico" dividem os participantes da conspiração em dois grupos, um distante e intocável, que dá as ordens e nunca será realmente derrotado, e outro, local, que executa as ordens e que pode (e deve) ser combatido sem trégua. O exemplo didático usado é o dos Sábios do Sião (grupo externo) e os judeus em geral (grupo próximo), mas se você pensou em Comunismo Internacional e o PT, ou nas Sete Irmãs do Petróleo e a Lava-Jato, talvez esteja na pista certa.

O estilo paranoico costuma dotar suas conspirações de um poder explicativo quase infinito -- evidências contra a conspiração são falsas e foram plantadas por quem quer desviar atenção da conspiração! -- e, a despeito disso, também faz com que sejam impossíveis de provar. A teoria paranoica alimenta-se de suspeitas, não fatos. Fatos podem ser elencados para talvez tornar as suspeitas mais plausíveis, mas nunca são mais do que sugestivos -- e sugestivos do quê, depende das predisposições de quem os ouve.

Comentários

  1. Falei de algumas dessas características dos teóricos da conspiração no GR:
    http://genereporter.blogspot.com.br/2009/12/inspire-conspire.html
    ---


    []s,

    Roberto Takata

    ResponderExcluir
  2. Octavio.....você acertou na mosca!
    "Quem fiscaliza quem fiscaliza? "

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"