Merlini!

Obras de ficção, em geral, não são muito generosas com personagens céticos. Eles geralmente são apresentados como tipos arrogantes, insensíveis ou estúpidos, quase nunca estão certos e, em narrativas de terror, costumam sempre fazer o jogo do vilão (já perdi a conta das histórias de vampiro em que, não fosse pelo cético pentelho, os heróis já teriam se armado de crucifixos e estacas e acabado com o problema antes do fim do terceiro capítulo).

Isto aqui não é uma lamúria: muitas dessas histórias com céticos tapados são boas histórias, divertidas e inteligentes, afinal, ainda que o Doctor Thirteen da DC seja um tipo realmente duro de engolir. Mas o estereótipo tende a se tornar cansativo, e portanto foi com enorme prazer que descobri as aventuras do Grande Merlini, mágico aposentado e consultor da polícia de Nova York para casos envolvendo coisas como médiuns, milagres, fantasmas e discos voadores. 

Criado pelo escritor Clayton Rawson (1906-1971), Merlini é um cético incorrigível, extremamente esperto, simpático e que (enfim!) quase sempre está certo. Seu "Watson" é um jornalista, Ross Harte, que costuma aparecer nas histórias desempregado e fugindo dos credores. Rawson escreveu quatro romances sobre Merlini, entre 1938 e 1942, e também um punhado de contos estrelados pelo detetive. Quase todas as histórias envolvem situações aparentemente impossíveis, para as quais não há explicação racional óbvia -- até que Merlini entra em cena. Os enredos são construídos como truques de mágica: geralmente há uma solução óbvia, da qual o leitor é desviado por uma série de atos de prestidigitação narrativa e confusão pura e simples. 

Além de Merlini, o Rawson criou outro mágico-detetive, Don Diavolo -- este último para os "pulps", revistas de ficção sensacionalista de onde surgiram personagens como O Sombra ou Doc Savage, e cujo estilo narrativo frenético inspirou as aventuras cinematográficas de Indiana Jones.

O contraste entre os casos de Merlini e os de Diavolo é uma lição objetiva sobre os diferentes níveis em que se pode fazer ficção popular: enquanto as narrativas de Merlini oscilam entre a comédia leve e a ginástica cerebral, as de Don Diavolo são aventuras vividas num ritmo alucinante, com novos perigos a cada esquina e efeitos especiais fantásticos. Ainda assim, Rawson segue aderindo ao cânone do mistério clássico: ao fim, há uma solução racional que o leitor atento e astuto poderia ter encontrado por conta própria, não fosse o legerdemain do autor.  

É uma pena que Rawson, um dos fundadores da Mistery Writers of America (MWA), o sindicato dos escritores de histórias de mistério dos Estados Unidos (ele é creditado como criador do slogan da organização, "O Crime Não Compensa... O Suficiente"), não tenha produzido mais Merlinis. Dos quatro romances, o primeiro e o terceiro são os mais engenhosos; o quarto já parece estar deslizando para o território sensacionalista de Don Diavolo. Dos contos, os narrados por Ross Harte são os melhores.

Comentários

  1. O próprio Holmes não é um cético?

    []s,

    Roberto Takata

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    Respostas
    1. Mais ou menos. Ele tem aquela famosa frase "fantasmas não precisam se apresentar", no início de A Vampira de Sussex, e trata a lenda do Cão dos Baskerville como uma peça de folclore, mas não há muitas aventuras em que ele tem de assumir uma postura cética (no sentido mais atual do termo), já que o pressuposto, tanto dele quanto dos clientes, sempre é de uma agência humana por trás do crime. E há algumas oportunidades em que ele manifesta um certo teísmo, ou pelo menos uma crença metafísica de que nada acontece por acaso.

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    2. Outro exemplo é aquele caso do assassinato em um quarto fechado, feito com uma cobra.

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