Espíritos e ETs

Pouco lembrada hoje em dia, a médium francesa, de origem húngara, Catherine-Elise Müller (1861-1929) ficou famosa no início do século 20, sob o pseudônimo de Hélène Smith, por conta de sua comunicação espiritual com o planeta Marte, onde encontrou almas transmigradas da Terra vivendo românticas aventuras. Müller/Smith chegou a psicografar um alfabeto marciano completo, que reproduzo abaixo, a partir do livro Error and Eccentricity in Human Belief, de Joseph Jastrow:


O estudo clássico do fenômeno Hélène Smith foi realizado pelo psicólogo suíço Théodore Flournoy, uma figura que chegou a influenciar o pensamento de C.G. Jung. Flournoy demonstrou que a "língua marciana" psicografada tinha a mesma estrutura do francês, e atribuiu os transes marcianos da médium a uma mistura de imaginação e criptomnésia -- o fenômeno que ocorre quando demonstramos ter um conhecimento mas não nos lembramos de onde ou como o adquirimos.

Quando Flournoy publicou seu livro sobre Smith, Da Índia ao Planeta Marte (outros transes da médium davam conta de encarnações no subcontinente indiano), em 1899, os dois temas -- Índia e Marte -- estavam na moda.

O romance A Guera dos Mundos, de HG Wells, havia sido publicado em 1897, inspirado nas notícias sobre os "canais" de Marte que teriam sido avistados por astrônomos na Europa e nos Estados Unidos. A possibilidade de comunicação com seres inteligentes em Marte era seriamente considerada no meio científico.

Já a Índia, vista como uma terra "exótica" e "mística" era alvo de intenso interesse ocidental, seja por conta da obra de autores como Rudyard Kipling ou do apelo de doutrinas como a teosofia, que prometia fundir a sabedoria do Ocidente à do Oriente e cujos líderes diziam receber revelações de mestres hindus.Em seu livro A Doutrina Secreta, de 1888, a fundadora da teosofia, Helena Blavatsky afirmava que seres espirituais originários do planeta Vênus haviam interferido na evolução da vida terrestre.

O sincretismo entre espiritualidade e ufologia, portanto, vem de longa data. Há também versões no espiritismo brasileiro, como a história dos Exilados de Capela, descrita em livro publicado em 1949, em que bilhões de espíritos de habitantes da estrela Capela teriam sido exilados para a Terra.


Curiosamente, essa narrativa tem pontos de contato com a história de Xenu, parte da doutrina da Cientologia, segundo a qual as almas de rebeldes da Federação Galáctica foram banidas para o nosso planeta. É curioso notar que a versão brasileira, publicada por Edgard Armond (1894-1982) antecede em mais de uma década a cientológica, que teria sido elaborada por L. Ron Hubbard nos anos 60.

Mais uma vez, como no caso das comunicações mediúnicas de Müller/Smith, a revelação espiritual vem a reboque do zeitgeist: o livro de Armond aparece dois anos depois do início da febre ufológica, desencadeada pelos discos voadores supostamente avistados pelo piloto americano Kenneth Arnold em 1947; e a versão de Hubbard teria sido composta em 1966, quando os tropos da transmigração de almas e vida alienígena já faziam parte do imaginário pop há décadas.Eram os Deuses Astronautas, o livro de Erich von Däniken sobre alienígenas interferindo na história humana, sairia em 1968.

Esses episódios não são únicos: o primeiro caso de "abdução alienígena" a ganhar a mídia, envolvendo o casal Betty e Barney Hill, em 1961 -- o casal descreveu suas experiências em detalhe após ser hipnotizado em 1964 -- costuma ser comparado a episódios da série de TV The Outer Limits, que ia ao ar na mesma época e que apresenta extraterrestres de cabeça inchada e olhos puxados, protótipos dos clássicos "cinzentos" da mitologia ufológica (abaixo, imagens dos episódios The Bellero Shield e The Children of Spider Country, ambos apresentados em 1964, semanas antes da sessão de hipnose do casal Hill):



Há mais de um século, Flournoy já via com desconfiança "revelações" que pareciam se encaixar bem demais no espírito dos tempos, preferindo atribuí-las à criptomnésia e à imaginação. Não são só as histórias que não fazem sentido que devem ser recebidas com ceticismo: as que parecem fazer sentido demais, segundo as crenças e preconceitos da época, também merecem escrutínio especial.

Comentários

  1. Um livro lançado em 1951 no Brasil que tem tudo a ver com o tema é "Mensagens de Marte e do Astral", de Antonio M. Alves de Lima. O médium é o Sr. Carmo Bianco. O livro traz comunicações das filhas de ambos - Maria Izabel é filha de Antonio M. Alves de Lima e de Julita Prato Alves de Lima, e Elzinha é filha do Sr. Carmo Bianco e de dona Ida Tognai Bianco - as duas falecidas com menos de 3 anos de idade, e que estariam habitando o planeta Marte.

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  2. O livro "Mensagens de Marte e do Astral" está disponibilizado aqui:
    https://app.box.com/s/tdfbez6977a83cvq0yg0f2hfqnbut2s3

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