Tchau, Cassini


A missão Cassini, uma iniciativa conjunta da Nasa e da Agência Espacial Europeia, chega ao fim hoje. O lançamento da Cassini, em 1997, foi um dos primeiros eventos internacionais de ciência de acompanhei profissionalmente como jornalista, num período extremamente movimentado para o setor -- mais ou menos na mesma época, houve o torneio de xadrez entre Garry Kasparov e o computador da IBM, e também o pouso do primeiro robô móvel em Marte, o Sojourner, da Nasa. Foram bons tempos para escrever sobre ciência. Tudo era muito lúdico, maravilhoso, cheio de esperança. A distopia ainda não tinha nos atropelado.

Fazer um balanço de todo o conhecimento -- e do deleite estético -- que Cassini produziu desde que chegou ao sistema formado por Saturno, suas luas e seus anéis é assunto para livros inteiros, então vou ficar com um só, o dos gêiseres de Encélado:



A imagem acima foi feita ano passado, enquanto a Cassini se aproximava para um último sobrevoo do polo sul de Encélado, uma das luas de Saturno. Os jatos brilhantes são material expelido do subsolo da lua -- "solo", no caso, é uma espessa crosta de gelo. Ao longo de sua missão, a sonda não só descobriu esses gêiseres, como determinou que eles são compostos por cristais de gelo misturados a moléculas orgânicas simples e partículas de sílica. O material expelido pela lua cria um dos anéis de Saturno, o Anel E.

Há um oceano debaixo do gelo em Encélado, provavelmente aquecido tanto por fontes internas da lua quanto pela tensão gravitacional causada por Saturno. As partículas de sílica presentes no Anel E sugerem uma interação entre água e rocha a temperaturas elevadas, da ordem de 90º C. Debaixo da crosta de gelo dessa lua de 500 km de diâmetro há um oceano, e nesse oceano há calor e material orgânico. Talvez vida?

Por falar em vida, o ponto azul na foto que abre a postagem é você, eu, todos nós. Espaçonave Terra. Como escreveu Neil DeGrasse Tyson no Twitter, "um frágil ponto azul cercado de trevas por todos os lados". Entregue à zeladoria de um bando de primatas malucos que, vinte anos atrás, ousou olhar para o céu.

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