Tem certeza de que se lembra de onde estava em 11/9?



O aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 geraram uma verdadeira onda de lembranças nas redes sociais, com pessoas perguntando e relatando onde estavam e o que faziam quando os aviões atingiram as torres. Curiosamente, as memórias do 11/9 foram objeto de diversos estudos sobre a ilusão da permanência das chamadas “flashbulb memories”,  as lembranças de eventos marcantes que parecem ficar  “marcados a ferro e fogo” na memória -- mas não ficam.

Em um artigo publicado no periódico Applied Cognitive Psychology em 2004, o pesquisador da Universidade Duke Daniel Greenberg aponta que o presidente dos Estados Unidos na época dos ataques, George W. Bush, num intervalo de pouco mais de 30 dias – entre 4 de dezembro de 2001 e 5 de janeiro de 2002 – deu três versões diferentes sobre como ficou sabendo dos atentados.

Pior, duas dessas versões continham uma alegação impossível: a de que ele havia assistido à transmissão ao vivo da colisão do primeiro avião com as Torres Gêmeas, em Nova York, transmissão que, simplesmente, não existiu. Como escreve Greenberg em seu artigo, “não havia filmagens do primeiro avião batendo no prédio (pelo menos, não naquele hora da manhã).”

O pesquisador de Duke não foi o primeiro a notar as inconsistências do presidente: de fato, uma série de teorias da conspiração nasceu desse lapso presidencial, incluindo a de que agentes do governo saberiam com antecedência dos atentados e estavam posicionados para filmá-los. Mas Greenberg aponta que os lapsos de Bush são perfeitamente consistentes com a mera falibilidade da memória.

“O presidente, assim como a maioria dos americanos, assistiu às imagens [da colisão dos aviões com as torres] muitas vezes nos meses seguintes, incluindo imagens da primeira colisão, que foram disponibilizadas depois”, escreve o pesquisador. “Então, quando o presidente tentou se lembrar que como havia tomado conhecimento do primeiro ataque, ele fez apenas o que muitas outras pessoas fizeram, retirando informação do ponto errado no tempo e relembrando uma imagem visual vívida e memorável”.

A Universidade Duke publicou, em 2003,os resultados de um experimento envolvendo as lembranças de 54 estudantes a respeito dos atentados .

Os autores, Jennifer Talarico e David Rubin, pediram que os alunos respondessem, em 12 de setembro de 2001, a dois questionários, um sobre os atentados –  contendo perguntas como, por exemplo, “como você ficou sabendo?”, “onde você estava quando ficou sabendo?” – e outro com questões parecidas, mas a respeito de um evento banal da vida do estudante (uma festa, um evento esportivo, etc.) nos dias anteriores aos ataques. Os estudantes foram divididos em três grupos. O primeiro voltou a responder aos mesmos questionários uma semana depois. O segundo, seis semanas mais tarde. E o terceiro, somente após 32 semanas.

“A consistência para as memórias ‘flashbulb’ e memórias banais não diferiu, e em ambos os casos decaiu ao longo do tempo”, escreveram os autores no artigo sobre o estudo, publicado em Psychological Science.

 “No entanto, os níveis de vividez, recordação e crença na precisão da memória declinaram apenas para as memórias banais. Os níveis iniciais de emoção visceral correlacionaram-se com uma crença posterior na precisão, no caso das memórias ‘flashbulb’ (...) Memórias ‘flashbulb’ não contam com uma precisão especial, como alegado previamente, mas apenas com a precisão percebida”.

Em outras palavras, memórias de eventos intensos e traumáticos não são mais corretas e precisas do que memórias comuns – apenas parecem ser. Comentando esse resultado, o neurocientista irlandês ShaneO’Mara escreve, em seu livro Why Torture Doesn’tWork  (“Por Que a Tortura Não Funciona”)que“devemos aprender a separar a confiança ou certeza numa memória, que uma pessoa tem,do conteúdo e da precisão dessa memória. Podemos, ao mesmo tempo, ter completa confiança e estarmos completamente errados em nossa lembrança”.


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