Aventuras na Não-História


Avram Davidson foi um dos grandes escritores americanos do século passado, e é uma pena que seja tão pouco lembrado hoje em dia. Além de ter produzido obras maravilhosas de ficção científica, mistério e fantasia (sua série de contos Adventures of Doctor Eszterhazy, sobre uma Era Vitoriana alternativa onde as superstições e pseudociências da época realmente "funcionavam", é uma série da Netflix ou HBO esperando para acontecer), ele também produziu algumas peças tão divertidas quanto eruditas de não-ficção, reunidas no volume Adventures in Uhhistory.

Neste livro, Davidson especula sobre as origens de algumas lendas que, durante certo tempo, foram consideradas por certas pessoas (ou por povos inteiros) fatos históricos -- como o Preste João, por exemplo, um suposto rei cristão que existiria no Oriente, durante a  Idade Média.

O tipo de "não-história" coberto em Adventures é, ao menos sob o ponto de vista atual, fundamentalmente benigno, mas há modalidades bem menos inocentes: a negação do Holocausto é um caso que salta aos olhos, assim como diversas teorias da conspiração. O que me leva a outro livro, Archaeological Fantasies, organizado por Garrett Fagan, que cobre um terreno bastante amplo e investiga as motivações que alimentam certos mitos sobre o passado, próximo ou distante, que ainda hoje são tidos como fato por muita gente.

Três temas que recorrem em Fantasies são o difusionismo, evemerismo e essencialismo étnico. O primeiro é a presunção de que, se uma ideia ou tecnologia aparece em mais de um lugar, então um desses locais deve ser o ponto de origem, a partir da onde ela se deslocou ("difundiu"). A possibilidade de que populações distintas possam ter chegado, de modo independente, a soluções semelhantes para problemas semelhantes é dada, aprioristicamente, como inverossímil.

Já o evemerismo é a doutrina proposta pelo pensador helenístico Evêmero, segundo a qual mitos e lendas do passado se referem a fatos e pessoas reais, acontecimentos catastróficos e vultos históricos transformados em feitos maravilhosos e divindades sobrenaturais pela imaginação popular. O terceiro ponto, essencialismo étnico, é a tentação de imbuir o povo que (supostamente) habitou uma determinada parte do mundo e (supostamente) criou esta ou aquela inovação tecnológica e/ou prática cultural com uma aura meio mágica, e que se teria propagado até seus (supostos) descendentes no presente.

Esses temas aparecem, em dosagens diferentes, num contínuo de concepções furadas sobre história e arqueologia, que vão da ideia de que os sobreviventes de Atlântida colonizaram a América Central e o Egito, onde encontramos hiper-difusionismo, evemerismo, essencialismo étnico negativo (os "povos primitivos" desses lugares não teriam sido capazes de fazer as coisas sozinhos) à hipótese da "Atenas Negra", a proposta de que a civilização grega "roubou" suas glórias de um Egito governado por negros (aqui, o essencialismo étnico é negativo, na direção dos brancos, e positivo, na dos negros).


Os mesmos temas ainda podem ser encontrados na mitologia ariana construída pelos nazistas ou, numa forma obviamente bem mais benigna, no misticismo celta que volta e meia toma de assalto a Europa Ocidental. Tudo isso acontece porque a interpretação da história (ou dos vestígios arqueológicos) é, além de uma atividade intelectual que se pode desempenhar com rigor científico, também um campo de disputa política e ideológica.

Por menos base racional que haja para isso, as pessoas gostam de compartilhar das glórias e que atribuem a seus antepassados, e de imputar aos outros os crimes atribuídos aos antepassados deles. É um jogo que, observado friamente, não faz muito sentido: se seu tataravô descobriu a cura de uma grave doença ou comandou um genocídio, isso não diz nada sobre quem você é.

As pessoas se sentem mais centradas quando imaginam ter raízes profundas no passado, mas isso é como relaxar depois de comer um chocolate: do mesmo modo que o consumo de cacau e açúcar não reduz a gravidade objetiva do que quer que esteja lhe causando ansiedade, o senso orgulho (ou opróbrio) tribal, seja ele real ou mítico, também não faz nenhuma mágica. Só para constar, se você tem ancestralidade europeia, Carlos Magno provavelmente está na sua árvore genealógica.


Mas é um senso muito valorizado e, por isso, muito manipulado, especialmente para fins políticos.  Archaeological Fantasies cita alguns mitos que influenciam atitudes políticas contemporâneas, como o de que a Guerra Civil americana foi a "defesa pelo Sul de um estilo de vida", e não da escravidão; ou a noção, popular na Índia, de que os proto-indo-europeus -- o(s) povo(s) pré-histórico cuja língua deu origem ao sânscrito e a praticamente todas as línguas europeias -- não chegaram ao território indiano vindo de outra parte, mas sim, espalharam-se pelo mundo a partir dele, o que faria da Índia o "verdadeiro" berço da civilização.  

O Brasil, como deve parecer óbvio, não fica de fora dessas coisas. No século XIX, lendas sobre colônias gregas no interior eram usadas para tentar mostrar que nossa civilização não era caudatária de Portugal; hoje em dia, figuras históricas como os dois D. Pedros e Zumbi dos Palmares, grupos como indígenas e bandeirantes, são alvo tanto de hagiografias quanto de assassinatos de caráter, dependendo da inclinação ideológica e das pretensões políticas do autor.

Uma das lições da história é tomar cuidado com o que você considera uma lição da história. E, principalmente, com o que considera história.


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