Inteligência, adaptação: quando o que é demais atrapalha



Dois estudos publicados neste ano -- um no início do semestre, outro nesta semana -- indicam que há contextos em que realmente é possível ser "bom demais para o próprio bem". Um deles trata da relação entre liderança de equipes de trabalho e inteligência e o outro, com adaptação ao ambiente e evolução das espécies. Ambos são destaque na minha newsletter nesta semana (detalhes abaixo).

O primeiro, realizado na Europa e publicado no periódico Journal of Applied Psychology sugere que inteligência muito alta, tal como medida em bons testes de QI, pode atrapalhar o exercício da liderança. O levantamento, que comparou características de personalidade e inteligência de mais de 300 administradores de nível hierárquico médio com suas qualidades para o papel de liderança, auferidas em questionários preenchidos por colegas de trabalho e subordinados.

Os autores encontraram uma relação de "U" invertido: quanto maior a inteligência, melhor a performance do líder era avaliada -- até um QI de 120. Neste ponto, liderança e inteligência aparecem descoladas e, quando o QI supera 128, a relação se inverte: mais inteligência se reflete em menor competência como líder.

Já o artigo sobre evolução trata do pombo-passageiro (Ectopistes migratorius), que já foi a ave mais abundante da América do Norte, com população estimada em até 5 bilhões de indivíduos. Estudo sobre o genoma da espécie, publicado na revista Science, aponta que, a despeito do grande número, o passageiro tinha uma diversidade genética muito baixa, o que pode tê-lo tornado extremamente sensível a variações abruptas do meio ambiente, e facilitado sua extinção.

O artigo aponta que a baixa diversidade pode ter sido causada por um efeito inicialmente benéfico -- um processo acelerado de seleção natural, facilitado pelo enorme tamanho da população, que eliminou as variações genéticas menos favoráveis e tornou os animais muito parecidos, geneticamente, entre si. O mesmo processo que "aperfeiçoou" os pássaros para viver num determinado conjunto de circunstâncias pode tê-los privado dos recursos necessários para sobreviver à mudança dessas condições.

O trabalho sobre QI especula que talvez o problema dos líderes muito inteligentes não esteja em seu QI alto, mas na diferença entre esse QI e a inteligência média da equipe. Já o estudo sobre a genética dos pombos me faz lembrar os movimentos de "boom" e "bust" que acontecem em diversos mercados, de sorveterias a livros, filmes e imprensa, e que se repetem sempre que todo mundo começa a seguir a mesma "fórmula para cair no gosto de público" -- e que funciona, até a hora em que o "gosto" muda. 


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